Pamela Alves, secretária de Assistência Social e Combate à Fome, explica as ações voltadas para a população em situação de rua que visam não só atender as demandas de insegurança alimentar e abrigo, mas também oferecer oportunidades de trabalho para deixar a condição de vulnerabilidade.
O problema afeta diversos países, inclusive os mais ricos. O crescimento do número de sem-teto disparou, especialmente após a pandemia. Em 2024, as ruas dos Estados Unidos serviam de abrigo para 770 mil indivíduos. Na Europa, em 2021, esse contingente chegou a 1 milhão, incluindo nações reconhecidas pelo estado de bem-estar social, como a Dinamarca, onde a quantidade de pessoas morando nas sarjetas cresceu 20% desde 2009.
No Recife, em 2022, eram 1.800 pessoas vivendo nessas condições, número que saltou para 2 mil em 2025. Pamela Alves, secretária de Assistência Social e Combate à Fome, reconhece que o assunto é complexo porque envolve causas diversas – de conflitos familiares, passando pelo uso prejudicial de álcool e de drogas ilícitas, até a perda de moradia e de trabalho. Mas há também o agravante de que não é fácil convencer quem vive esse sofrido cotidiano de que outra vida é possível. “Há quem pense que devemos obrigá-los a sair da rua, desconsiderando a autonomia. Não é porque a pessoa está em situação de rua que ela perde seu direito de escolha”, defende a secretária.
Após estudar muito o assunto e conhecer soluções implantadas por outros países, Pamela Alves adotou uma metodologia para atingir cada uma das causas que levam um cidadão a perder sua moradia. São suportes para auxiliar a abandonar o vício, a conquistar uma casa e, especialmente, um trabalho, o que inclui acesso à educação e formação profissional. “Trabalhamos sempre de modo a dar sustentabilidade à vida dessas pessoas para que sigam com suas próprias pernas”, afirma Pamela. A ajuda abrange detalhes importantes como oferecer um closet social, com roupas para a pessoa escolher aquela que achar mais adequada para uma entrevista de trabalho, por exemplo.
Ao conceder a liberdade de escolha, a atuação da secretaria respeita a individualidade, a ponto de a solução para as pessoas em situação de rua ser construída, de forma personalizada, em conjunto com cada uma delas. “É importante a sociedade entender que todos precisam estar juntos para isso dar certo. É um trabalho permanente, que exige calma, persistência, mas gera resultado”, garante Pamela.
O Censo Pop Rua mostrou que o número de pessoas em situação de rua aumentou em 30% em relação à pandemia. Quais os principais motivos do aumento?
Recentemente, implantamos um sistema georreferenciado que atende a população em situação de rua e, com ele, teremos números atualizados diariamente. Conseguiremos ver a movimentação de entrada e saída das pessoas nessa condição. Em 2022, o número era 1.806. O número atual está em torno de duas mil pessoas. As causas desse aumento são múltiplas: conflitos familiares, uso de álcool e drogas ilícitas, perda de moradia e trabalho e insegurança alimentar.
Na prefeitura, adotamos a metodologia de gestão de casos, levando em conta as especificidades de cada um. Uma pessoa pode ter entrado em situação de rua devido à quebra dos vínculos familiares agravada pelo uso de substâncias psicoativas e perda do trabalho. Há mais de uma causa que levou àquela situação. Para cada grupo de causas, temos um pacote de serviços.
Em relação a conflitos familiares, dispomos de uma equipe com assistentes sociais e psicólogos para entender o contexto familiar da pessoa e identificar os parentes com quem poderíamos trabalhar a reconstrução de vínculos. Em relação à perda de moradia, também há outras causas associadas. Há quem morava de aluguel, perdeu o emprego e precisou deixar a residência. Outras pessoas podem ter perdido a casa própria por necessidades financeiras, muitas vezes vinculadas a pagamento de drogas.
As causas são diversas, mas são trabalhadas individualmente na gestão de cada caso para, em conjunto com a pessoa em situação de rua, construirmos seu plano de saída dessa condição. Há quem pense que devemos obrigá-la a sair da rua, desconsiderando a autonomia, o direito de escolha dado a todos os cidadãos brasileiros. Não é porque a pessoa está em situação de rua que ela perde seus direitos, ela tem seu direito de escolha.
Nosso diferencial é apoiar e construir em conjunto, mostrando que há outros caminhos para além daquela situação. Muitas vezes as pessoas que estão em situação de rua perdem a esperança, achando que sua vida é aquela e que não há como sair porque vivenciaram situações muito difíceis, como violências, preconceitos, risco de morte. Mas, por mais complexo que seja o problema, se for dividido em partes, conseguimos resolver.
Quais programas da prefeitura dão suporte a esse trabalho de gestão de casos?
Em 2021, lançamos o Recife Acolhe, que é o grande guarda-chuva em que todos os nossos programas ou projetos estão associados. Criamos um pacote de ações voltadas para a população em situação de rua, uma delas é o censo, para diagnosticar e entender o cenário. Existe também o serviço chamado Centro Pop, voltado para atendimento da população em situação de rua. Temos quatro: o Centro Pop da Madalena, o Centro Pop de Boa Viagem, o Centro Pop voltado para as pessoas em situação de rua abaixo de 18 anos de idade e, recentemente, implantamos o Cinpop (Centro Integrado de Atenção à População em Situação de Rua), que oferece vários serviços socioassistenciais, jurídicos, de saúde e inclusão produtiva.
Nesse centro integrado, trouxemos novos parceiros porque o atendimento à população em situação de rua não é só vinculado à ação social, precisa ser trabalhado por diversas outras políticas públicas, como educação, saúde, trabalho, qualificação, acesso a direitos e documentação. Então, outros órgãos externos se agregam, como Defensoria Pública da União, Defensoria Pública do Estado, Tribunal de Justiça e outros parceiros, tanto de instituições públicas quanto privadas.
Temos, por exemplo, parceria com Uninassau e UniFG para qualificação profissional e com a OAB para assessoria jurídica em casos de endividamento ou o não acesso a algum benefício de prestação continuada, como o BPC (Benefício de Prestação Continuada).
A ideia é fazer uma abordagem sistêmica, para que a pessoa em situação de rua entre nesse equipamento e consiga resolver boa parte dos problemas. Quando ela entra no Centro Integrado, constrói, em conjunto com assistente social e psicólogo, o seu projeto de vida.
No Cinpop, também temos banheiros e lavanderia, um closet social com sapatos e roupas, para trabalharmos o resgate da identidade e autoestima, e um salão de beleza. Esse cuidado com a imagem facilita a quebra de barreiras para a entrada no mercado de trabalho.
Como uma das causas do aumento da população em situação de rua é a perda do emprego, lançamos o programa de inclusão produtiva, em que prospectamos cursos de qualificação profissional. Lançamos o programa Pão e Letra, cuja primeira etapa é o letramento inicial para que a pessoa possa entrar no EJA, e as etapas seguintes vão direcioná-la para desenvolver habilidades e ingressar no mercado de trabalho.
Associada à perda do emprego está a insegurança alimentar, por isso estamos ampliando cozinhas comunitárias e criando refeitório popular para que pessoas em situação de rua tenham acesso a café da manhã, almoço e jantar.
Na perspectiva da perda da moradia, no primeiro semestre de 2026 lançaremos o programa Moradia Primeiro, que vai oferecer 50 vagas. Nesse programa, além do acesso à habitação, haverá acompanhamento integral e diário.
Quanto ao uso de drogas, captamos recursos para investir em políticas de prevenção e cuidado aos usuários de substâncias psicoativas. Mais de 100 equipes foram formadas por assistentes sociais, psicólogos e advogados. Também lançamos o programa Novos Horizontes, com equipes em busca ativa na rua e um equipamento itinerante: um ônibus adaptado para atendimento, com trailer de banho acoplado.
Como é o apoio à inclusão produtiva das pessoas em situação de rua?
Em todos os equipamentos há salas para cursos de qualificação profissional. Além da prospecção de parceiros, contratamos profissionais para administrar cursos, não apenas de hard skills, mas também de soft skills. Trabalhamos a pré-entrada, o acesso e a pós-entrada no mercado, acompanhando a pessoa por, pelo menos, seis meses no emprego.
Também depende muito da formação inicial da pessoa. Muitas têm formação e experiência; outras não concluíram sequer o ensino fundamental. Por isso, fazemos atendimento individualizado com psicólogos de carreira para construir o plano caso a caso.
Acreditamos que a única forma de a pessoa sair da situação de rua é por meio da inclusão produtiva. Acolhimento e alimentação são importantes, mas não garantem autonomia. Trabalhamos para dar sustentabilidade à vida dessas pessoas, para que sigam com suas próprias pernas.
A abordagem a pessoas em situação de rua é um trabalho complexo. Que metodologias são utilizadas?
O primeiro ponto é contar com profissionais qualificados. A abordagem perpassa pela construção de uma relação de confiança, que se dá de forma gradual e individualizada.
Nossos agentes de abordagem de rua são reconhecidos pelo nome. Essa relação é fundamental para que a pessoa passe a frequentar os equipamentos e, se quiser, construa seu projeto de vida.
Temos trabalho integrado com a Secretaria de Saúde, por meio do Consultório na Rua, com vans e equipes atuando 24 horas. Também ampliamos vagas de acolhimento institucional.
No Centro do Recife, há concentração de doações de alimentos. Como a prefeitura atua nessa questão?
Estamos criando refeitórios populares em parceria com ONGs para centralizar as doações e garantir dignidade no acesso à alimentação. Além disso, vamos descentralizar cozinhas comunitárias e refeitórios.
A integração entre poder público, terceiro setor e iniciativa privada é fundamental. É importante que a sociedade entenda que todos precisam estar juntos para isso dar certo. A pessoa em situação de rua é um cidadão e precisa ser respeitada. No Recife, esse é um trabalho permanente, que exige calma, persistência, mas gera resultado.


