Cinema e conversa

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Wanderley Andrade

Crítica: Vidas Passadas

In-Yun é uma palavra em coreano que significa “providência”, “destino’. Ligada a filosofia budista da reencarnação, trata de um possível vínculo entre duas pessoas, que perpassa outras vidas. Esse vínculo pode ser confirmado desde o encostar acidental de roupas ao se esbarrar na rua, até o compromisso de um casamento. In-Yun é a alma de Vidas Passadas, filme da cineasta sul-coreana Celine Song. O longa foi indicado ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Roteiro Original em 2024.

A história acompanha Nora (Greta Lee) e Hae Sung (Teo yoo), dois amigos de infância profundamente conectados, separados após a mudança definitiva da família de Nora para o Canadá. Anos depois, os dois se reconectam via redes sociais, mas as obrigações e objetivos pessoais os separam outra vez. Após doze anos, um novo encontro acontece, agora, presencialmente em Nova York. Nora, então casada com Arthur (John Magaro), é confrontada pelo confuso despertar de sentimentos até então estancados na infância.

Celine Song tece de forma delicada cada detalhe desse reencontro. Greta Lee e Hae Sung estão muito bem como Nora e Hae, transmitindo paixão sem exagero, nos pequenos detalhes, nos olhares sutis, nas falas e, principalmente, nos longos silêncios. 

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Vai e volta, o filme retoma a ideia de destino. Se Nora não tivesse ido embora, estaria no presente em uma relação amorosa com Hae? Arthur seria um acidente temporário de percurso que retardou por um tempo o romance entre Nora e Hae? Se planejada ou não pelo destino, é inegável a conexão entre os dois amigos de infância. Desde os primeiros instantes do reencontro, marcado por olhares que retomam a paixão do primeiro amor e sorrisos infantis encarnados de um “não estou acreditando que é você”, até a longa e melancólica pausa de frente para o outro na hora da despedida. 

“Vidas Passadas” bem que poderia seguir o clichê do “e foram felizes para sempre” para o Nora e Hae. No entanto, segue por outro caminho: é clara a conexão entre os protagonistas, retomando o In-Yun lá do início do texto. Porém, essa conexão não garante que seguirão juntos, talvez isso nunca mais aconteça. Celine Song nos leva a refletir que uma história de amor não necessariamente precisa concluir o ciclo de uma vida inteira. Alguns ciclos terminam, outros recomeçam. Assim também são as relações.

"Vidas Passadas" está disponível no Telecine. Entrará no catálogo da Netflix em 20 de março.

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