Por Edgard Filipe Segantini, CEO da Frosty
As empresas familiares são parte essencial da economia brasileira e, ao mesmo tempo, um reflexo da nossa cultura empreendedora. De acordo com levantamento do IBGE junto ao Sebrae, cerca de 90% das empresas do país têm origem familiar, respondendo por 65% do PIB e 75% dos empregos. Esses números mostram a força desse modelo, mas também evidenciam a responsabilidade que ele carrega na formação de pessoas, na geração de oportunidades e na sustentação da economia do país. Mais do que o sobrenome que carregam, o que define a longevidade dessas empresas é a capacidade de evoluir sua gestão sem perder a essência que as originou.
Ao mesmo tempo em que representam esse impacto econômico, as empresas familiares convivem com desafios estruturais importantes. Um dos mais conhecidos é o processo de sucessão. Dados do Banco Mundial mostram que apenas 30% das empresas familiares superam a primeira transição de liderança, e somente 5% chegam à terceira geração. Isso revela que o sucesso desses negócios depende menos do sobrenome e mais da capacidade de preparar pessoas, processos e estruturas para o futuro.
A força de uma empresa familiar nasce, muitas vezes, do senso de pertencimento. Quando aquele negócio é um patrimônio da família, o nível de dedicação tende a ser maior, assim como a clareza sobre o impacto que cada decisão tem para o todo. A cultura costuma ser sólida, coerente e enraizada, porque cresce junto com a história das pessoas que a construíram. Esse é um diferencial importante: cultura forte gera alinhamento, constância e visão de longo prazo.
Mas é preciso reconhecer que essa mesma proximidade pode se tornar um risco quando não há clareza de papéis, governança e profissionalização. Uma empresa não é a extensão da casa da família; ela precisa de processos definidos, metas, transparência e rituais que sustentem a gestão. Capacitar as novas gerações, estabelecer critérios objetivos e desenvolver competências de liderança são passos fundamentais para que a sucessão seja natural e saudável.
Falo isso também a partir da minha experiência pessoal. Acompanhar, desde cedo, a trajetória da empresa ao lado do meu pai, que esteve à frente da organização por muitos anos, foi determinante na minha formação. O que me trouxe até aqui não foi apenas a expectativa de continuidade, mas o desejo genuíno de ocupar esse espaço e me preparar, com seriedade e propósito, para assumir essa responsabilidade. Um processo de sucessão só é bem-sucedido quando é construído com intenção, preparo e comprometimento, tanto de quem conduz a transição quanto de quem assume o desafio.
O futuro das empresas familiares no Brasil passa por essa combinação entre origem, cuidado e profissionalização. É da união entre história e gestão que surgem negócios capazes de atravessar gerações, manter suas raízes e, ao mesmo tempo, crescer com solidez em um ambiente cada vez mais competitivo. Preservar o legado é importante, mas garantir que ele evolua é essencial para que as empresas familiares continuem sendo um dos pilares da nossa economia.


