Criações inspiradas na cerâmica de Tracunhaém ganham projeção fora do país e reforçam identidade cultural da moda pernambucana
Em Tracunhaém, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, a tradição da arte em barro moldou a identidade cultural do município desde os séculos XVII e XVIII, quando povos indígenas e populações africanas escravizadas passaram a trabalhar a argila retirada do próprio território. Conhecida internacionalmente por suas esculturas que retratam santos, trabalhadores rurais e cenas do cotidiano nordestino, a cidade vê agora essa herança cultural ganhar novos contornos por meio da moda autoral, que traduz em tecido aquilo que antes se expressava principalmente na cerâmica.
À frente da marca Rafretá, um estilista pernambucano vem se destacando ao transformar referências da arte popular em roupas que dialogam diretamente com o território. As criações utilizam cores terrosas, texturas orgânicas e processos manuais, aproximando o vestuário da estética construída há gerações pelos artesãos locais. A camisa Estandarte Pernambucano é uma das peças mais representativas dessa proposta, reunindo elementos culturais do estado e expressando uma moda artesanal, construída a partir do pertencimento e da memória coletiva.
A relação do estilista com a criação começou ainda na infância, quando improvisava roupas para bonecas com materiais disponíveis em casa. Durante a pandemia, a costura deixou de ser apenas prática manual e passou a representar expressão criativa e sustento profissional. Com a primeira máquina de costura emprestada por uma vizinha, iniciou-se uma trajetória marcada pela persistência, disciplina e dedicação. Hoje, cada peça nasce de pesquisa, desenhos e experimentações, com prioridade para tecidos naturais como algodão, linho e seda, reforçando a preocupação com sustentabilidade e qualidade. No ateliê instalado em uma antiga casa de família, sete pessoas participam de todas as etapas da produção, e uma única camisa pode levar cerca de sete horas para ser concluída.
Inicialmente voltada para moda festa e vestidos de noiva, a marca ampliou sua atuação para figurinos ligados aos ciclos culturais nordestinos, como Carnaval e festas juninas. A visibilidade cresceu quando artistas da música brasileira passaram a vestir suas criações, entre eles Almério, Raí, Lipe Lucena e Taiguara Borges. Nos últimos anos, as peças da Rafretá passaram a circular também fora do Brasil, com encomendas destinadas a países da Europa e aos Estados Unidos, especialmente França, Portugal e Alemanha, além de brasileiros residentes no exterior que buscam roupas conectadas à identidade cultural do Nordeste.
Esse movimento acompanha um processo mais amplo de valorização da moda pernambucana contemporânea, que vem ganhando reconhecimento ao unir identidade cultural, produção artesanal e sustentabilidade. Mesmo diante de desafios estruturais e de preconceitos enfrentados ao longo do percurso, o estilista mantém no ateliê um espaço que preserva a atmosfera afetiva de casa de família, ao mesmo tempo em que abriga processos contemporâneos de criação. Para ele, ver alguém vestindo uma peça produzida em Tracunhaém confirma que a arte local pode atravessar fronteiras sem perder suas raízes.


