“É preciso ressignificar as cidades pensando na população idosa”

O envelhecimento da população deixou de ser uma tendência distante para se tornar um dos principais desafios urbanos deste século. No Recife, onde cerca de 17% dos habitantes já têm mais de 60 anos, e nos demais municípios pernambucanos, a necessidade de adaptar a cidade para uma população cada vez mais longeva exige mudanças que vão além da ampliação de serviços de saúde e assistência social. Mobilidade, acessibilidade, segurança e convivência social passam a ocupar lugar central no planejamento urbano.

Para a socióloga, geógrafa e professora da Unit-PE Gerly Fialho, embora a capital pernambucana tenha avançado com iniciativas voltadas ao envelhecimento ativo, como a criação de centros de convivência e programas de inclusão social, ainda há um longo caminho para transformar Recife em uma cidade mais amigável para os idosos. “Só teremos qualidade de vida na velhice se construirmos essa qualidade ao longo de toda a vida”, afirma a pesquisadora, que defende políticas públicas integradas para garantir dignidade, autonomia e participação social à chamada geração prateada.

Como Recife e as cidades pernambucanas estão se preparando, ou negligenciando em se preparar, para o rápido envelhecimento da população?

É necessário fazer uma análise sobre a questão do idoso no Brasil e no mundo. Segundo a ONU, afirmou que o período entre 2021 e 2030 seria considerado a Década do Envelhecimento Saudável. No entanto, o primeiro passo seria um trabalho digno para esse envelhecimento saudável.

A Agenda 2030 afirma que o Objetivo 3. Afirma assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todas e todos, em todas as idades. Portanto, todo e qualquer cidadão deverá ter o mesmo direito. É sabido que só teremos qualidade de vida na velhice se construirmos essa qualidade ao longo de toda a vida. O Brasil ainda precisa valer a lei do Idoso.

O Art. 3º da Constituição Federal do Brasil diz: “É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do poder público assegurar à pessoa idosa, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária. (Redação dada pela Lei nº 14.423, de 2022).”

Pois bem, aqui na cidade do Recife, existem algumas iniciativas da Prefeitura nessa, incluímos incentivo a projetos, concurso de dança, ampliação de serviços e ações de cidadania para pessoas idosas. Mas, o idoso onde quer que esteja precisa de cuidados como: Saúde e acompanhamento médico, higiene, nutrição e permanecer hidratado, fazer exercícios diariamente, segurança, bem estar e adaptações, direito às áreas verdes, necessidade de socialização para ter saúde mental e dignidade.

Os principais avanços para os idosos no Recife incluem a inauguração do pioneiro Centro de Convivência da Pessoa Idosa Maria da Conceição Guedes Pereira, lá eles tem Inclusão Digital e Educação, Esporte, Lazer e Cultura, Atendimento Integral, neste encontramos as Práticas Integrativas e Complementares (PICS), como ioga ,também encontramos o Expresso Recife que facilita a emissão de documentos. Ou seja, existe uma atenção mais ainda não atende a todos(as) idosos(as) da cidade. A prefeitura já deu um grande passo, mas é preciso avançar em outras prioridades, como a mobilidade urbana. Essa talvez seja hoje uma das maiores necessidades da população idosa. Pois, todas essas atividades necessitam de transportes para grande parte da população.

Segundo o Censo do IBGE, 2022 em Pernambuco temos uma população de aproximadamente 9.058.931 de pessoas, sua população com 60+ corresponde a 15% desse total (1.332.159 pessoas idosas). Já a cidade do Recife apresenta uma população total de aproximadamente 1.488.920 de pessoas desse total, cerca de 17% da população do Recife é composta por pessoas idosas. Por isso a nossa preocupação.

Quais são hoje os principais desafios de mobilidade urbana para a população idosa em cidades como Recife, especialmente em relação a calçadas, transporte público e travessias?

Sinalização, calçadas danificadas, sem acesso para cadeirantes, ônibus com uma altura que não corresponde às necessidades para o idoso. As travessias costumam ser rápidas, mas nem todas as pessoas idosas têm a mesma mobilidade. Algumas são mais lentas que outras [precisam de mais tempo para atravessar com segurança].

No entanto, precisa incluir de uma maneira geral, melhorando as calçadas, nivelando com continuidade, as travessias precisam ser mais seguras e com sinalização, o transporte público precisa ter uma altura acessível para o idoso com degraus mais baixos, [o motorista precisa] aguardar o mesmo para pegar o transporte, criar abrigos que possam ter proteção e assentos mais confortáveis. É preciso melhorar a luminação pública, investir em locais exclusivos para idosos, além de atividades e convívio com pessoas da mesma idade.

Em relação às árvores nas calçadas, essas precisam ser conservadas e adaptadas para as pessoas idosas e/ou com necessidades especiais.

De que forma o planejamento urbano pode tornar os espaços públicos mais acolhedores, seguros e acessíveis para pessoas acima dos 60 anos?

Planejar sempre foi importante para qualquer situação. O envelhecimento populacional é a grande preocupação do Séc. XXI. No entanto, poderá solucionar parte dos nossos problemas para a mão de obra. No Brasil, a transição demográfica está bastante acelerada, o que torna o cenário muito preocupante. Em alguns países como China, Japão e entre outros é um pouco acelerada. Mas não deixará de ocorrer esse envelhecimento. É inevitável a inversão da pirâmide etária.

De início a prioridade é segurança, qualidade de vida e dignidade.

A Agenda 2030, ainda destaca outros objetivos, são eles: Objetivo 11. Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis. Objetivo 16. Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis. Objetivo 17. Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável

A geração idosa também denominada de geração prateada ainda pode contribuir bastante com a economia local, tem experiência e muita energia para o trabalho. Então é importante trabalhar a autoestima dessas pessoas, elevar a sua segurança enquanto profissional melhora a sua saúde e bem estar. Se sentir útil, é importante!

O envelhecimento da população exige uma mudança de mentalidade nas políticas urbanas? O que deveria deixar de ser prioridade e o que precisa ganhar mais atenção nos próximos anos?

É preciso ressignificar as cidades, pensando na população idosa e criando espaços capazes de atender às suas necessidades sociais, econômicas, ambientais e até espirituais.

Precisamos, como fala o Leonardo Boff, Saber cuidar de si e o outro. A comunidade planetária precisa perceber o outro, ter mais resiliência, respeito, empatia, responsabilidade, trabalhar a saúde mental desde pequeno, desenvolver os nossos sentidos e as nossas inteligências. H. Gardner afirma que temos nove. No entanto, se formos olhar temos bem mais, como a intuitiva, a sensitiva, entre outras. Tudo é educação.

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