O nutricionista e personal trainer Adriano Guaraná explica como esforço extremo, alimentação, hidratação e resposta gastrointestinal podem contribuir para episódios de urgência ou perda do controle intestinal durante competições
O episódio envolvendo a atleta australiana Joanna Wietrzyk durante o HYROX Beijing, realizado no último sábado (12), chamou atenção para um aspecto pouco discutido no esporte de alta performance: o funcionamento do sistema gastrointestinal durante exercícios de intensidade elevada. Wietrzyk, uma das principais atletas do circuito mundial, apresentou um episódio de incontinência fecal durante a prova, mas continuou competindo e terminou em primeiro lugar, com o tempo de 1h01min23s. Em abril, ela havia estabelecido o recorde mundial feminino na categoria Pro, com 54min25s, em Varsóvia.
Para o nutricionista e personal trainer Adriano Guaraná, que acompanha a preparação esportiva e também atua como atleta amador de HYROX, situações desse tipo podem estar relacionadas a uma combinação de fatores fisiológicos. Em exercícios muito intensos, o organismo direciona maior fluxo sanguíneo para os músculos envolvidos no esforço, enquanto o sistema gastrointestinal pode sofrer alterações no funcionamento.
“Em uma prova como o HYROX, temos uma combinação de corrida, exercícios de força e movimentos realizados em alta intensidade. Isso aumenta muito a demanda fisiológica do organismo. Dependendo da alimentação feita antes da prova, da hidratação, do nível de esforço e da própria sensibilidade gastrointestinal do atleta, podem ocorrer náuseas, cólicas, urgência para evacuar e até episódios de incontinência”, explica Adriano Guaraná.

O HYROX reúne oito trechos de corrida intercalados com oito estações funcionais. A dinâmica exige que o atleta alterne continuamente entre esforços cardiovasculares e movimentos como sled push, sled pull, burpee broad jumps, remo, farmer’s carry, sandbag lunges e wall balls. Em uma competição de alto nível, a intensidade elevada durante todo o percurso pode aumentar a sobrecarga sobre o organismo.
Alimentação antes da prova exige estratégia

Na avaliação do nutricionista, a preparação alimentar é um dos pontos que merece atenção. O objetivo não é simplesmente ingerir mais carboidratos ou aumentar a quantidade de alimentos antes da largada, mas encontrar uma estratégia individualizada que forneça energia sem provocar desconforto gastrointestinal.
“Não existe uma alimentação pré-prova universal. O atleta precisa testar a estratégia durante os treinamentos. Quantidade de comida, intervalo entre a refeição e a largada, consumo de fibras, gordura, proteínas, carboidratos e até determinados tipos de suplementos podem interferir na resposta gastrointestinal. O que funciona para um atleta pode não funcionar para outro”, afirma Guaraná.
Outro ponto é a hidratação. Tanto a desidratação quanto o consumo inadequado de líquidos podem prejudicar o desempenho. Em provas longas e intensas, a reposição de eletrólitos e carboidratos também precisa considerar duração, intensidade, temperatura e características individuais do atleta.
O intestino também responde ao estresse físico

A chamada “urgência gastrointestinal” não é uma ocorrência exclusiva do HYROX. Corredores e atletas de modalidades de endurance também podem apresentar sintomas gastrointestinais durante treinos e competições. Diarreia, cólicas, náuseas e necessidade urgente de evacuar estão entre os problemas relatados em exercícios prolongados ou de alta intensidade.
No caso de Joanna Wietrzyk, entretanto, o episódio ganhou outra dimensão porque a atleta continuou a competição em um ambiente fechado, utilizando estações e equipamentos compartilhados. A organização informou que a área afetada foi isolada, desinfetada e que equipamentos foram retirados do local. Posteriormente, o cofundador da HYROX, Moritz Fürste, pediu desculpas e reconheceu que a organização deveria ter reagido imediatamente. A empresa anunciou mudanças nos procedimentos para situações semelhantes.
Para Guaraná, a discussão precisa separar dois aspectos: a resposta fisiológica do corpo e o protocolo de segurança da competição.
“Uma intercorrência gastrointestinal pode acontecer mesmo com um atleta muito bem preparado. Não significa necessariamente falta de preparo ou erro alimentar. Existe uma resposta individual do organismo ao estresse físico. Ao mesmo tempo, quando existe contaminação de uma área ou de equipamentos compartilhados, entra uma questão de segurança coletiva que precisa ser conduzida pela organização da prova”, avalia.
HYROX ganha espaço também em Pernambuco

O episódio ocorre justamente em um momento de expansão do treinamento híbrido no cenário fitness. Em Recife, já foram realizados eventos e simulados inspirados no formato HYROX. Em maio deste ano, por exemplo, o Awaken Training Club promoveu um simulado com oito estações intercaladas com oito trechos de corrida.
Também há competições de fitness racing previstas para Pernambuco, como a RYZE AXGARD RUN, marcada para 8 de novembro, no Recife, com formato que combina corrida e estações funcionais.
Para quem está começando a treinar esse tipo de modalidade, o episódio de Beijing também deixa uma lição sobre preparação. Segundo Guaraná, sintomas gastrointestinais recorrentes não devem ser naturalizados nem ignorados.
“Quem treina para uma prova de alta intensidade precisa treinar também a estratégia nutricional. É importante observar como o organismo responde aos alimentos, líquidos e suplementos durante os treinos. Se o atleta apresenta episódios frequentes de diarreia, cólica, urgência ou perda do controle intestinal, isso merece investigação profissional. Não é algo que deve ser simplesmente considerado parte normal do treinamento”, orienta o nutricionista e personal Trainer Adriano Guaraná.
O caso de Joanna Wietrzyk, portanto, amplia uma discussão que vai além do resultado esportivo. O desempenho de alto nível depende não apenas de força, velocidade e condicionamento cardiorrespiratório, mas também da capacidade de o atleta compreender e administrar as respostas do próprio organismo. Em modalidades híbridas, nas quais corrida e exercícios funcionais são combinados em sequência, a preparação nutricional passa a integrar diretamente a estratégia de performance.