*Por Marcos Lima
Essa pergunta atravessa o Janeiro Branco como um incômodo necessário. Vivemos em uma era de precisão clínica, onde buscamos nos números, taxas, índices, gráficos e laudos, a confirmação de que estamos bem. Se o exame não acusa, se o marcador não sobe, então, supostamente, não há motivo para preocupação. Mas o sujeito sabe: nem toda dor sangra, nem todo sofrimento deixa vestígios laboratoriais.
Para a psicanálise, o humano começa justamente onde a métrica termina. Existe um território vasto, silencioso e, muitas vezes, negligenciado: a dor psíquica. Um sofrimento que não se localiza em órgãos, mas na história; que não altera exames, mas altera o modo de existir. O Janeiro Branco surge como um convite a olhar para esse invisível, não para romantizar a dor, mas para reconhecê-la.
A medicina tradicional, em sua importância e eficácia, cuida do corpo enquanto organismo. A psicanálise lembra que o corpo também é linguagem. Quando a palavra falta, o corpo fala. É o aperto no peito que o eletrocardiograma não explica. É a exaustão profunda que nenhum descanso resolve. É a dor de cabeça recorrente, o estômago em alerta, o sono que não restaura. Não se trata de imaginação, mas de somatização: o sintoma como mensagem.

Vivemos sob a lógica da produtividade constante. Sentir demais virou fraqueza; parar virou ameaça. Reprime-se o afeto, engole-se a angústia, empurra-se o sofrimento para “depois”. Mas o que é reprimido não desaparece, retorna, muitas vezes, em forma de sintoma. A repressão emocional funciona como uma barragem: tudo parece sob controle na superfície, até que a pressão interna rompe estruturas inteiras.
Nesse cenário, multiplicam-se dores silenciosas:
- a ansiedade funcional, que mantém o sujeito operante enquanto o consome por dentro;
- a tristeza sem nome, um luto difuso por algo que não se sabe exatamente o que é;
o cansaço emocional, que não melhora com sono porque nasce do excesso de exigência;
- a culpa constante, o medo difuso, a sensação persistente de inadequação.
Nada disso aparece em exames laboratoriais, mas tudo isso governa vidas inteiras.
A sociedade contemporânea valoriza o rápido, o mensurável, o eficiente. O tempo subjetivo, necessário para elaborar perdas, frustrações e desejos, é tratado como desperdício. O vazio existencial causa horror. Queremos consertar a dor rapidamente, esquecendo que, muitas vezes, o sofrimento é um sinal vital de que algo na história do sujeito precisa ser ouvido.
Cuidar da saúde mental exige romper com a pressa. A psicanálise nos ensina que o tempo do sujeito não é o tempo do relógio. Feridas antigas podem permanecer abertas por décadas, e nenhum exame de imagem revelará essa cicatriz. Saúde mental não é ausência de conflitos, mas a capacidade de sustentar a própria verdade sem se fragmentar.
O Janeiro Branco nos convida à escuta. Se o exame diz que está tudo bem, mas o silêncio da noite insiste em dizer o contrário, talvez seja hora de escutar o silêncio. Dar lugar à palavra, legitimar o sofrimento psíquico, reconhecer limites e buscar cuidado não é fraqueza, é coragem, responsabilidade e humanidade.
Porque a dor que não aparece no sangue é, muitas vezes, a que mais precisa ser ouvida.
*Marcos Lima é psicanalista

