Janeiro Branco Reforça A Importância Do Cuidado Com A Saúde Mental Das Crianças Em Tempos De Excesso De Telas - Revista Algomais - A Revista De Pernambuco
Fitness e Wellness

Fitness e Wellness

Jademilson Silva

Janeiro Branco reforça a importância do cuidado com a saúde mental das crianças em tempos de excesso de telas

Rose Jarocki é psicanalista - Foto: divulgação

A campanha Janeiro Branco, dedicada à conscientização sobre saúde mental, ganha um alerta cada vez mais urgente quando o foco são as crianças. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que o adoecimento emocional começa cedo: no mundo, cerca de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais, sendo 14% adolescentes. No Brasil, 1 em cada 6 adolescentes entre 10 e 19 anos apresenta algum transtorno mental, com riscos que incluem automutilação, depressão e suicídio.

Rose 2
Psicanalista clínica Rose Jarocki: “Se a gente não cuidar das crianças, os adultos serão ainda mais doentes".

Especialistas apontam que o uso excessivo de telas e a falta de experiências presenciais, afetivas e lúdicas têm relação direta com esse cenário. A psicanalista clínica Rose Jarocki, que atua há mais de 37 anos no mercado educacional e de desenvolvimento humano, reforça que o cuidado precisa começar ainda na infância. “Se a gente não cuidar das crianças, os adultos serão ainda mais doentes. A saúde mental não diz respeito só aos adultos, mas principalmente às crianças, que serão os futuros adultos. Hoje vemos crianças cada vez mais ansiosas e confusas, muito pelo reflexo da família e, principalmente, da internet. A criança passa quatro horas na escola, uma hora com os pais e oito horas na internet. Quem está educando é o TikTok, o YouTube, os aplicativos. É um alerta muito grande e a gente precisa cuidar”, afirma Rose.

Brincar 1
Brincar na natureza é essencial para a criança - Foto: Divulgação

Um estudo publicado na revista científica internacional Pediatrics, baseado em dados de mais de 10.500 crianças e pré-adolescentes do Adolescent Brain Cognitive Development (ABCD) Study, um dos maiores estudos longitudinais sobre desenvolvimento cerebral infantil dos Estados Unidos, reforça essa preocupação. A pesquisa aponta que crianças que recebem smartphones antes dos 12 anos apresentam maior risco de sintomas depressivos, obesidade e sono insuficiente na adolescência, quando comparadas àquelas que não têm aparelho próprio. Quanto mais precoce o acesso ao celular, piores são os indicadores de saúde mental e física.

Na contramão desse cenário, Rose Jarocki desenvolve, desde 1989, atividades ao ar livre que propõem a desconexão total das redes sociais e a reconexão com o brincar, o convívio e as relações humanas. Como fundadora e CEO da Cia do Lazer, espaço com 8 hectares de muito verde, em Porto de Galinhas - PE, Rose coordena um calendário anual de ações voltadas para famílias e escolas, incluindo acampamentos educativos realizados nos períodos de férias.

Nesses acampamentos, crianças e adolescentes de 7 a 16 anos passam uma semana longe dos pais e sem celular, imersos em atividades lúdicas, esportivas e coletivas. A proposta, segundo Rose, vai além do lazer: trata-se atualmente de uma estratégia de cuidado emocional cada vez mais necessária. “Quando a criança se desconecta da tela, ela se reconecta com o corpo, com o outro e com ela mesma. É nesse espaço que a saúde emocional começa a ser construída. A desconexão das telas não é um castigo, é um cuidado. É ali que a criança aprende a se relacionar, a lidar com frustrações e a desenvolver saúde emocional”reforça Rose.

A empresária Ana Nascimento, de 40 anos, mãe de três filhos, conta que eles já participaram do acampamento duas vezes, e destaca os desafios com as telas. “Hoje a dinâmica de criação, educação, mudou muito se comparada à nossa geração. As atividades escolares já são todas pelo celular: trabalhos, filmes, grupos de estudo. Precisamos fazer um esforço diário para inibir essa exposição exagerada às telas. Quando soube do acampamento, quis muito que eles participassem, e me surpreendi com a felicidade e alegria deles. Chegam radiantes com um monte de histórias e já falando da próxima edilção”, relatou Ana.

Brincar 2
Permita que a criança solte a imaginação - Foto: Divulgação

Para o estudante Artur Álvares, de 11 anos, a vivência no acampamento mostra que a ausência do celular não é um problema quando há estímulos adequados. “Eu acho muito bom, muito legal. As brincadeiras são muito divertidas e a comida é muito gostosa”, conta. Questionado sobre o celular, ele é direto: “Ah, você nem sente falta. Tem várias atividades pra fazer, eu nem lembrei do celular”.

A adolescente Letícia, de 15 anos, que participou do acampamento pela segunda vez, reforça essa percepção e destaca o valor das conexões presenciais. “Muuuuuuuuuito massa. Aproveitei demais, revi os amigos de lá, tem muitas atividades e eu não parei de sorrir. A comida é muito boa também”, relatou sobre o acampamento.

Sobre ficar sem o celular, Letícia avalia a experiência com maturidade: “Lá tem muita coisa pra fazer, então a pessoa não sente falta. Até lembra, mas o espaço é muito grande, com muitas brincadeiras, dá pra aproveitar bastante”.

Os exemplos citados, quando as crianças informaram nem lembrar do celular, reforçam um ponto central do Janeiro Branco: o cuidado com a saúde mental das crianças é uma responsabilidade compartilhada entre famílias, escolas e sociedade. Especialistas alertam que oferecer o celular como solução fácil e imediata pode trazer consequências a longo prazo. Estabelecer limites, estimular o brincar, promover interações presenciais e criar espaços para que as crianças pensem, criem e convivam são atitudes fundamentais para formar adultos emocionalmente mais saudáveis.

Em um mundo cada vez mais digital, iniciativas que promovem a desconexão consciente mostram que cuidar da saúde mental infantil hoje é investir diretamente no bem-estar das próximas gerações.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), por meio do seu Grupo de Trabalho de Saúde Mental, alerta que os desafios emocionais tendem a se intensificar na adolescência devido ao amadurecimento desigual do cérebro, às mudanças hormonais e ao processo de construção da identidade. Segundo a pediatra Vera Ferrari Rego Barros, esses fatores tornam o adolescente mais vulnerável à ansiedade, insegurança, comparação social e sofrimento emocional, especialmente em um contexto de forte exposição às redes sociais.

De acordo com a especialista, oscilações de humor, irritabilidade ocasional, desejo de privacidade e ansiedade pontual podem fazer parte do desenvolvimento normal. No entanto, pais e responsáveis devem ficar atentos quando esses sinais se tornam intensos, persistentes ou passam a interferir na rotina escolar, social e familiar.

Tristeza profunda ou isolamento por mais de 15 dias

Automutilação ou falas sobre morte e desesperança

Mudanças extremas de sono e apetite

Ansiedade constante, dores físicas sem causa aparente

Abandono de atividades antes prazerosas

“Nesses casos, é fundamental buscar ajuda profissional. Ideias suicidas verbalizadas exigem intervenção imediata e acompanhamento especializado”, reforça a Vera.

Um ambiente familiar acolhedor, com escuta ativa, diálogo sem julgamentos e presença emocional, funciona como um importante fator de proteção. Pais que cuidam da própria saúde mental também oferecem modelos positivos de enfrentamento do estresse. 

Pequenas atitudes fazem diferença: conversar sem o uso do celular, realizar atividades em conjunto, validar sentimentos e incentivar a autonomia com apoio.

Autorregulação, empatia e tolerância à frustração são competências essenciais para o desenvolvimento emocional saudável. Elas ajudam o adolescente a reconhecer emoções, lidar com desafios e reduzir comportamentos impulsivos.

Famílias podem recorrer à Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), integrada ao Sistema Único de Saúde (SUS), que oferece atendimento gratuito em todo o Brasil por meio de:

Unidades Básicas de Saúde (UBS/ESF)

Centros de Atenção Psicossocial (CAPS)

Unidades de Pronto Atendimento (UPA)

Centros de Convivência e Cultura

Canal Pode Falar (UNICEF): escuta gratuita para adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. Atendimento via WhatsApp: bit.ly/3K486Hw de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h.

Mapa de Saúde Mental: plataforma com serviços gratuitos presenciais e online www.mapasaudemental.com.br


Algomais Assinatura
Deixe seu comentário

Assine nossa Newsletter

No ononno ono ononononono ononono onononononononononnon

ezstandalone.cmd.push(function() { ezstandalone.showAds(125) });