Reticências

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Manu Siqueira

O que aprendemos com o final da série “Sex and The City”

Sim, este texto contém spoiler. Se você ainda não assistiu ao enredo final de “And Just Like That”, trama derradeira de Sex and The City, e não quer saber o que acontece, melhor não ler as próximas linhas. Essa série, desde o início, durou, em tempo real, 27 anos. Uma vida inteira, né? Formou milhares de fãs no mundo todo. E ela tem muito a nos fazer refletir, especialmente, nessa trajetória final, com as personagens já na casa dos 50 anos.

Mantendo as características pessoais de cada uma, a primeira lição da série é que as amizades acabam. Samantha Jones, ícone amadíssima, não está mais presente nas reviravoltas e aventuras das amigas em Nova York. Pode ser dilacerante, mas pessoas que amamos se afastam e temos que aprender a conviver com isso. A série mostra que mesmo distantes, as amigas lembram de Samantha com certo carinho e ternura. Isso é o que verdadeiramente importa. Amizades que marcam a gente, ficam com a gente, mesmo que a pessoa já não faça mais parte das nossas vidas.

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Miranda se separa de Steve Brady e começa a viver, pela primeira vez, uma paixão homoafetiva. A série mostra que mulheres experientes estão mais abertas a usufruir de vivências sem se importar com a opinião alheia. E isso a Miranda faz com louvor. Ela paquera, se envolve, se frustra, se entrega, se impõe, se sente viva. E termina a história vivendo um amor cheio de cumplicidade e parceria, sem espaço para preconceito.

Sex and The City 2

Charlotte envelheceu com o mesmo pensamento romântico da família perfeita e estruturada que a série demonstrou, por inúmeras vezes, não existir. A parte boa é que, após vários relacionamentos ruins, ela encontrou um marido que é parceiro, gente boa e divertido.Mas como a vida não é cor-de-rosa com babados floridos, como a Charlotte sempre idealizou, essa parceria também tem momentos difíceis e problemas sérios como o enfrentamento de um câncer. Mas acaba tudo bem no final.

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Agora vamos a Carrie, a incansável Carrie Bradshaw. Digo incansável porque a protagonista nunca desistiu do amor. Nunca! Aguentou desrespeitos absurdos como ser abandonada no altar no dia do seu casamento com aquele que ela considerava ser seu grande amor, Mr. Big. E, mesmo assim, casou com ele depois.

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Na nova série, Carrie fica viúva do Big. Ele sofre um infarto no banheiro e só dá o suspiro final, quando ela chega em casa. O ponto alto disso, penso eu, é que, durante uma conversa, a Carrie indaga a si mesma se o que ela viveu com o Big foi um grande amor ou um grande erro. Então, se ela própria se pergunta, acredito que provavelmente, ela tenha caído em si e descoberto que pode ter sido um erro irreparável a relação entre os dois.

Mas se alguém acha que Carrie para por aí, se engana. Em busca de um amor que preencha o espaço deixado pelo marido, Carrie decide ressuscitar um antigo namorado, o Aidan. Um cara que ela já havia traído, inclusive.

Ela manda um e-mail, ele responde e marcam um encontro, quase 20 anos depois do término. Quem dera que na vida real tudo fosse assim, tão fácil, rápido e prático. Mas a realidade é que Aidan agora tinha dois filhos adolescentes que moravam com ele. Um filho carinhoso e compreensivo, e o outro, extremamente problemático, que surge para corromper a paz do casal recém-formado de novo. Essa relação traz duas reflexões: muitas vezes o passado precisa ser mantido lá, sem quaisquer ativações no presente. Ao mesmo tempo em que, algumas histórias mal acabadas, às vezes precisam emergir para serem finalmente finalizadas. E parece que foi isso que aconteceu. Aidan veio com um combo pesado demais para uma mulher que procurava apenas um namorado. Além de morar em outra cidade, tinha um filho violento e por ter sido traído no passado, nunca conseguiu lidar com a falta de confiança em Carrie. Fim. Ufa! Foi angustiante ver esse enredo de novo na série. Uma relação altamente exaustiva.

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Por fim, Carrie se envolve com o seu vizinho, o Duncan. Justamente o que Aidan teve ciúmes. E é nesse contexto que eu acho que a série poderia ter dado aquela virada de chave empoderadíssima que o público merecia. Carrie já flertava com o vizinho, um escritor sedutor, mesmo quando estava namorando à distância com o Aidan. Aqui, nesse “frame” de história, acho que a Carrie poderia ter apenas tratado o vizinho charmoso como um colega de trabalho, já que ambos estavam se ajudando nas suas escritas individuais. Era para a Carrie saber distinguir bem que a paz dela era inegociável, e que, ferida ainda pelo término do namoro, ela não preencheria novamente o seu vazio existencial na cama do vizinho. Uma grande tolice que ela já deveria ter aprendido. Mas não aprendeu.

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Quando no seu livro, ela finaliza as páginas dizendo que “não estava sozinha, estava por conta própria”, ainda sinto uma Carrie triste por não estar em um relacionamento. Por mais que na cena final da série, mostre a atriz com um modelito de alta costura, seus inseparáveis saltos, e uns rodopios tímidos, em casa, com sua gatinha de estimação, tentando ensaiar uns passos de felicidade, há no ar certa melancolia. Depois pensei que estava sendo injusta. Aquele era apenas o primeiro passo para essa luta incansável pela liberdade de ser uma mulher sozinha, independente e feliz. Aí, rodopiei junto com ela.

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*Manu Siqueira é jornalista

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