*Por Francisco Cunha
Anos atrás, conversando com Marcílio de Pádua, proprietário do restaurante Mocó Bistrô, então sediado na Rua Jacobina nas Graças, aventamos a hipótese da criação de um espaço que permitisse ampliar a discussão, entre as pessoas que gostavam do Recife, sobre a nossa cidade, tão carente desse tipo de iniciativa.
Desde esta nossa antiga conversa, é possível dizer que o Recife mudou, no meu entendimento, para melhor, ainda que com bastante coisa para consertar e aperfeiçoar. Passamos a ter um plano de longo prazo (o plano Recife 500 Anos), o plano urbanístico mais importante e criativo da história do Recife (o Parque Capibaribe), o primeiro plano estratégico de longo prazo para o centro da cidade (o Centro do Recife na Rota do Futuro), um plano criativo para incentivo ao retrofit habitacional no Bairro de Santo Antônio (o Distrito Guararapes), vários projetos de recuperação predial no Bairro do Recife e adjacências (como, por exemplo, o retrofit do Moinho Recife, ao norte, e o complexo Hotel Marina/Centro de Convenções em Santa Rita, ao sul), novos parques e praças de porte expressivo (como o Parque das Graças na beira-rio, o Jardim do Poço da Panela, o Parque da Tamarineira que já vai para a sua segunda etapa).
Apesar desses avanços, a lacuna relativa a um espaço para discutir a cidade e, sobretudo, conversar sobre alternativas para enfrentar os problemas e torná-la melhor e menos injusta, ainda continua existente e, mesmo, é muito grande. Foi então que, com esse sentimento de falta incomodando, conversamos mais recentemente, agora na companhia do professor e urbanista Roberto Montezuma e da designer e editora Deborah Echeverria, e resolvemos que estava, de fato, na hora de retomar a ideia e criar o espaço para conversar lúdica e produtivamente sobre futuro do Recife. O nome, Mocó Filosófico, já pensado lá atrás, veio quase que naturalmente à tona, juntando a seriedade do que se pretendia com um pouco de gréia como é bem do estilo recifense, competentemente incorporados à marca pelo designer Daniel Dobbin.

Daí para o convite a Silvio Meira, foi um pulo. Convidamos, ele aceitou, para nossa surpresa, dada sua agenda carregadíssima, para um dia bem próximo. Mesmo com pouco tempo, divulgamos como podíamos e o Mocó Bistrô, agora na Rua das Graças, lotou para ouvi-lo e conversar sobre a provocação: “O Recife tem jeito?”.
Sim, era uma provocação porque sabemos, os que gostamos da cidade, desde sempre, que o Recife tem jeito, sim! E o jeito, como reforçou Sílvio, começa pela conversa aberta e criativa com as pessoas de boa vontade que têm em comum o gosto pela nossa magnífica cidade. A conversa justamente com aquelas pessoas que se deram ao trabalho de ir ao evento para ouvir, comentar e perguntar.

Fiz a apresentação de Sílvio dizendo que o conheço praticamente desde a pós-adolescência (há cerca de 55 anos) e sempre me impressionou nele, desde as mais priscas eras, a sua atenção para com o futuro, a ponto de ter cunhado a frase de que “o futuro não vem do passado, mas do próprio futuro”. Em sendo assim, ninguém melhor do que ele para ajudar a dar o primeiro passo nessa caminhada que pretendemos longa sobre como tornar a nossa cidade melhor, conversando e agindo coletivamente para orientá-la em direção a um futuro promissor.

O papo que se seguiu foi animadíssimo e só terminou porque Sílvio Meira pediu para concluir por conta da voz que já começava a ratear para uma palestra que ele iria dar de manhã logo cedo no dia seguinte. Mas o gosto de “quero mais” foi logo abrandado pela informação dada por Marcílio de que próximo convidado, para logo depois do carnaval, será o músico Cannibal da banda Devotos, originária do Alto José do Pinho e Patrimônio Imaterial do Recife. Ele deve falar sobre como integrar as duas cidades que convivem no mesmo município: aquela da planície e do asfalto e a outra dos morros e alagados. Pois, sem essa inevitável integração, não teremos uma cidade unida e vibrante mas duas separadas e desconfiadas uma da outra.
Por fim, saí satisfeito do encontro, com a certeza de que nossa intuição estava correta: o tema do futuro da cidade é mobilizador e tem pessoas de boa vontade querendo conversar civilizadamente sobre as alternativas benignas para o Recife.
Vamos lá! Que venham os próximos Mocós Filosóficos! O Recife precisa e merece!
