Gerente da Rede de Bibliotecas pela Paz, da PCR, Deborah Echeverria fala sobre o trabalho de transformar esses espaços de leitura em ambientes vivos, abertos a várias modalidades artísticas e a pessoas de diferentes faixas etárias e sociais. Uma mudança que repercute no desenvolvimento do prazer de ler e na redução da violência.
Quem visita um dos espaços da Rede de Bibliotecas Pela Paz, no Recife, pode, num primeiro momento, ser tomado pela surpresa. O ambiente em nada lembra o recinto sisudo e silencioso das bibliotecas tradicionais: muita cor na decoração, crianças ouvindo contação de histórias, bebês brincado e explorando alegremente objetos, jovens escrevendo poemas em formato de cordel, idosos em rodas de conversa fazendo atividades artesanais. Não por acaso, elas foram apelidadas de “bibliotecas vivas”.
A gerente da rede, Deborah Echeverria, defende que no Brasil o modelo convencional de biblioteca não funciona, porque é elitista. Nesta entrevista a Cláudia Santos, Deborah, que também é proprietária de Editora Cubzac, explica que esses espaços são inspirados nas bibliotecas-parque de Medellín e fazem parte das políticas de prevenção à violência da Secretaria de Cidadania e Cultura de Paz do Recife. Definindo-se como uma militante em prol do aumento de leitores no País, ela afirma que o papel da sociedade e, em especial dos gestores públicos, nessa causa é fundamental. “Afinal de contas, nossa cultura passa de geração a geração, século a século, muito através do que está escrito", ressalta.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2024, aponta que 53% dos entrevistados não leram nem mesmo parte de uma obra nos três meses anteriores à enquete. Por que você acha que o brasileiro lê tão pouco?
Acho que o fator principal é a concorrência que os livros enfrentam com as tecnologias, com vídeos, com os textos curtos das redes sociais. Crianças e os jovens passam muito tempo com o celular na mão. Além disso, a pandemia teve um grande impacto, com escolas fechadas por muito tempo, com programas de leitura sendo cancelados.
Para reverter essa realidade da leitura no Brasil é preciso um esforço conjunto, tanto das secretarias e Ministério da Cultura, como das secretarias e Ministério da Educação para valorizar a biblioteca escolar e incentivar a criança a gostar de ler. Eu organizo um seminário de biblioteca nas escolas para sensibilizar gestores públicos a formar professores para atuarem na biblioteca. Isso é uma política que vem sendo reforçada no Governo Lula. Sempre ressalto a importância de valorizar, não só as bibliotecas das escolas públicas, como das escolas privadas.
Um aspecto importante é a existência do PNLD Literário (Programa Nacional do Livro Didático Literário), um programa de compra de livros para bibliotecas públicas escolares, o maior do mundo em venda de livros. Então, há uma grande quantidade de obras literárias destinadas aos estudantes. Em 2025, pela primeira vez, os livros do PNLD passaram a ser distribuídos nas bibliotecas públicas e nas comunitárias, por intermédio de uma parceria entre o Ministério da Cultura e o MEC. Cada biblioteca recebeu 600 títulos infantis.
Além das bibliotecas escolares, os pais ainda exercem influência na formação de leitores?
Até a penúltima pesquisa Retratos da Leitura do Brasil, quando se perguntava: “quem mais influencia a leitura?” a resposta mais frequente era a mãe. Na de 2024, a maioria dos entrevistados indicou a escola, os professores. Isso é resultado da política de aquisição e democratização do acesso ao livro. Vale reforçar a importância das bibliotecas nas escolas e as bibliotecas públicas como um espaço de formação do leitor. Crianças, adultos ou jovens que chegam nesses espaços, muitas vezes, não foram formados como leitores, e precisamos atraí-los e transformar essas bibliotecas em espaços que os aproxime da leitura.
Nas bibliotecas municipais que gerencio, que é a Rede de Bibliotecas Pela Paz, há várias atividades para crianças, jovens, adultos e idosos que começam sempre com o livro e depois podem envolver artesanato, dança, cinema. Isso é uma forma de criar vínculo e autonomia para que a pessoa passe a frequentar a biblioteca com as próprias pernas, não só porque a escola leva. Uma criança que frequenta uma biblioteca desde os 6 anos de idade ou até antes, no início da vida, será diferente da que nunca frequentou. Essa formação do leitor também é importante para a sobrevivência das editoras e é uma função da sociedade como um todo.
A Rede de Bibliotecas Pela Paz está subordinada à Secretaria de Cidadania e Cultura de Paz. Qual a relação das bibliotecas com a prevenção à violência?
As Redes de Biblioteca Pela Paz da Prefeitura do Recife, assim como os Compaz, que contam com bibliotecas, nasceram da necessidade de prevenir a violência. São espaços inspirados nas bibliotecas-parque de Medellín (Colômbia). A ideia é fazer com que a criança nem entre no campo da violência porque já passou por outros espaços que a levaram a outros caminhos. Aplicamos, nas bibliotecas do Recife, uma formação em círculos de cultura de paz, usando uma metodologia potente criada por uma americana na prevenção à violência.

É um momento de escuta, pessoas são reunidas em círculo e começam a se colocar. Nossa ligação com a Secretaria de Cidadania e Cultura de Paz está relacionada à nossa missão de prevenção à violência. Nesses espaços, temos vários exemplos de pessoas que, graças ao do gosto pela leitura, transformaram suas vidas. Há uma criança que começou a frequentar uma dessas bibliotecas enquanto o pai vendia água mineral no sinal. E, como passava quase o dia inteiro entre livros, foi tomando gosto pela leitura.
Também temos o caso de um adolescente que vendia pipoca no sinal, frequentava muito a biblioteca e foi contratado como recepcionista pelo Compaz. Hoje é músico e ainda trabalha na biblioteca. Também temos o exemplo de uma mãe que tinha cinco filhos, dois deles foram assassinados pelo tráfico e um foi preso. Os outros dois que frequentavam a biblioteca do Alto Santa Terezinha, desde criança, hoje, já estão no Ensino Médio, preparando-se para o Enem e um deles é estagiário na biblioteca.
Você citou círculos de diálogo e atividades artísticas. Isso é diferente da visão que se tinha das bibliotecas como lugares silenciosos. Por que vocês adotaram esse modelo?
As bibliotecas que temos no Brasil foram importadas da Europa, de países com outro nível de leitura. Lembrando que, no início, só o clero e os nobres usavam esses espaços. Quando vieram para cá, o acesso era elitista. Esse modelo não funciona para um país como o nosso. Precisamos de uma biblioteca inclusiva, abrangendo pessoas que não sabem ler.
Nas nossas bibliotecas apoiamos o letramento. Por exemplo, há crianças que chegam às nossas bibliotecas que estão na escola, mas não conseguiram aprender a ler. Apelidamos nossas bibliotecas de “Bibliotecas Vivas”, que se assemelham mais a um centro cultural, onde há também linguagem da dança, do cinema, da música e do teatro, permeadas sempre pela literatura.
Além disso, temos a Bebeteca, um espaço voltado à primeiríssima infância, de zero aos 4 anos. Lá estimulamos o livre brincar e a relação entre o cuidador (mãe, pai, avós) e a criança. Então, também educamos o adulto, orientando que a criança precisa ter autonomia na brincadeira. Ou seja, não é apenas deixar o bebê num cercadinho, enquanto a mãe faz seus afazeres. A Bebeteca fica dentro da biblioteca, é um local onde o arte-educador fica mediando a uma certa distância para prevenir acidentes e quedas. Nem os pais da criança, nem o arte-educador precisam ficar estimulando, porque o ambiente da Bebeteca é completamente propício para os bebês. São objetos e mobiliário que fazem com que eles construam, desconstruam, façam barulho, entrem, saiam, subam e desçam. São espaços de livre brincar, conscientizando os cuidadores de que a criança precisa desse momento. Também introduzimos livros pequenos de tecido e plástico.

Quando os bebês vão crescendo, passam para o espaço infantil, voltado para crianças entre 4 e 5 anos, onde começamos a contação de histórias. Para as crianças maiores, também temos atividades promovidas pelos arte-educadores permanentes do nosso quadro funcional, como Faça Você Mesmo, Pintando o Sete, em que a arte sempre é mediada com a leitura. Entre essas atividades artísticas, estão pintura, colagem, crochê, slime, dependendo da faixa etária. Também temos a hora da palavra para trabalhar tanto a escrita, quanto a fala com apoio pedagógico e temos o cine biblioteca. Essas são algumas atividades em que as crianças se inscrevem e participam dentro das bibliotecas.
Qual a importância da contação de história na formação de leitores?

A contação é o contato que a criança terá com as histórias, começando a perceber as narrativas. Pode ser feita sem o livro na mão ou pode ser uma mediação de leitura. Ambas são importantes, principalmente nessa iniciação, pois as crianças vão ficar atentas, começam a entrar no universo literário. A fantasia, a formulação dos processos de alegria, sofrimento, dor e medo das histórias enriquecem a forma como a criança vai elaborando e trazendo essas questões para a vida. O que ela ouve também vai trazendo para a história dela própria.
Por isso é tão importante e, nesse sentido, temos pontos de leitura espalhados pela cidade. Temos um na Praça Maria Sampaio, no Ibura, no Parque 13 de Maio, e dois pontos de leitura menorzinhos, um desses é no Arrecifes, mais voltado para adolescente, e o outro no Centro Pop, para população em situação de rua. No Ponto de Leitura do Parque 13 de Maio, temos três espaços: a Bebeteca, o Espaço Liberdade, para crianças a partir de 8 anos e adultos que, além de livros, tem computadores, Wi-Fi, mesas para estudo e trabalho, e temos o Espaço Brincar, que é onde fazemos contação de história e lançamentos de livros. Este ano, tivemos lançamentos de livros de Lia de Itamaracá, Bell Puã, entre outros. Trabalhamos dentro do programa Recife Cidade Leitora para levar a leitura e a formação do leitor aos espaços públicos da cidade.
Em 2025, o Compaz do Alto de Santa Terezinha recebeu a Flup (Festa Literária das Periferias). Qual a importância de iniciativas como essa?

A Flup originalmente começou no Rio de Janeiro e está acontecendo em várias periferias de outras cidades do Brasil. A produtora Tarciana Portela trouxe o evento para o Compaz e foi a primeira vez que aconteceu no Recife. Foi muito interessante, teve um bom resultado. As discussões foram em torno do tema da negritude, cultura de pessoas pretas, e isso é sempre muito rico. Tivemos a participação de pessoas da comunidade e de quem não é da comunidade. Isso é bom porque faz com que a cidade se movimente e a gente não fique cada um no seu gueto.
Então, muitas pessoas que são interessadas em literatura foram ver os autores, como Itamar Vieira Jr. e outros. Pessoas da própria comunidade que não conheciam os autores passaram a conhecer, a participar e escutar. O evento também contou com oficinas, shows, feira literária, muita coisa aconteceu ao mesmo tempo e é sempre muito interessante esse tipo de ação. Tanto o trabalho que estamos desenvolvendo, quanto eventos como o Flup são sementes plantadas para que, nos próximos anos, possamos transformar a relação da sociedade com a leitura.
Vocês têm algum programa voltado para adultos ou idosos?
Também trabalhamos com pessoas entre 50 e 60 anos. Elas frequentam nossas atividades porque parte delas está aposentada. Muitas tendem a ficar deprimidas em casa e, quando começam a frequentar as bibliotecas dos Compaz, se transformam. Temos uma atividade chamada Um Dedo de Prosa para pessoas idosas, que envolve a leitura de poesia, textos curtos, música, trabalhos manuais. Conseguimos captar o idoso mais do que o jovem.
O público jovem é mais arredio. Diante dessa realidade cada vez mais acelerada em que o tempo para leitura é prejudicado, temos que ir chegando, nesse público, de outras maneiras, incentivando a escrita de bilhetes, poemas em formato de cordel sobre um tema que achem relevante. Por isso, nosso trabalho vem sendo desenvolvido também no sentido de divulgar as bibliotecas para além dos territórios em que se encontram. Elas não precisam ser utilizadas só pelos moradores do seu entorno.
Uma biblioteca pública pode servir às pessoas com maior vulnerabilidade socioeconômica, nossas bibliotecas públicas estão equipadas e podem receber qualquer cidadão para fazer reunião, um trabalho de faculdade, simplesmente para leitura, para fazer um sarau, lançamentos de livros. A ideia é nos aproximar do público mais amplo, não apenas de quem está perto das bibliotecas mas, também, de pessoas que possam, por alguma razão, marcar uma reunião numa biblioteca do Compaz Ariano Suassuna, na Abdias de Carvalho, do Pina, do Ibura, no Alto Santa Terezinha.
Por isso, vale ressaltar que temos nove bibliotecas e quatro pontos de leitura no Recife. Inclusive, queremos nos aproximar também das escolas privadas, porque é importante que as crianças, jovens e adolescentes da classe média conheçam esses espaços que talvez nunca viessem a acessar. Esse entrosamento entre os diferentes grupos sociais na cidade enriquece muito, aproxima os lados. Este ano, nossa ideia é continuar trabalhando com o território, mas fazendo com que outros grupos sociais frequentem esses espaços.
Como você imagina que o Recife estará daqui a 20 anos sob o impacto dos resultados desse trabalho?

Sou ativista dessa causa, mas é um trabalho duro fazer com que a sociedade entenda a importância disso. É uma semente mesmo, não é um movimento exclusivo nosso. Ele começa no Brasil, em 2006, com o lançamento do Plano Nacional do Livro e Leitura, do Governo Federal. A gente vem incentivando planos municipais e estaduais para que as políticas públicas trabalhem em prol da formação do leitor. Não é fácil porque é uma mudança de paradigma fazer as pessoas entenderem a importância da leitura para a transformação e que é importante a criança ter contato com livros desde cedo.
Afinal de contas, nossa cultura passa de geração a geração, século a século, muito através do que está escrito. Seja no digital ou no papel, é importante que seja escrito e lido para que a nossa cultura se perpetue. Falo da cultura no sentido amplo, como na questão científica, nos conhecimentos transmitidos de uma sociedade para outra e do caminho que a civilização vai fazendo. Então, isso precisa ser democratizado. Esse é um trabalho fundamental, de convencimento, principalmente dos gestores públicos, que detêm poder para transformar no sentido mais efetivo, porque a sociedade é quem pressiona, mas temos que trabalhar em conjunto para que, em algum tempo, sejamos uma sociedade leitora.
Não podemos desistir desse trabalho de democratização do acesso ao livro, principalmente através de políticas públicas, para ganhar escala e ter uma distribuição maior para que os livros cheguem a uma grande maioria. Esse trabalho é importante especialmente para pessoas que sequer têm dinheiro para comprar livros e, muitas vezes, nem sabem pensar que ele é importante, não têm essa formação, não são leitoras e não vão formar crianças leitoras. Temos que convocar todos a lutar por isso, porque, assim, a sociedade fica menos violenta, os jovens encontram caminhos por meio do conhecimento, e o conhecimento está nos livros.

