Super El Niño pode agravar secas e acende alerta para o Semiárido de Pernambuco

*Por Rafael Dantas

As agências internacionais de meteorologia preveem para o segundo semestre deste ano a possibilidade da chegada do Super El Niño. O fenômeno tende a intensificar os efeitos das mudanças climáticas, elevando as temperaturas e reduzindo a umidade no Agreste e Sertão de Pernambuco e em outras áreas do Nordeste. Também pode favorecer o aumento das chuvas nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. O cenário é considerado mais desafiador para áreas com menor disponibilidade hídrica e histórico de longos períodos de estiagem, como o caso do nosso Semiárido.

O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial. Ao alterar a circulação atmosférica, influencia o clima e pode provocar mudanças nos padrões de chuva e temperatura. Já o Super El Niño corresponde a uma versão mais intensa desse processo, marcada por temperaturas muito acima da média nas águas superficiais do Pacífico Equatorial. Em geral, a classificação é utilizada quando as anomalias térmicas ultrapassam cerca de 2°C.

De acordo com os dados de maio da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos), há 37% de chances desse fenômeno atingir a escala do Super El Niño. Um mês antes, a probabilidade era de 25%. “Não há uma certeza ainda de que esse Super El Niño vai acontecer. Mas, a gente já tem uma convicção que vai ser um El Niño [com intensidade] variando de moderada a forte”, afirmou a meteorologista da Agência Pernambucana de Águas e Clima (APAC), Edvania Santos. 

Edvania Santos Apac
Ainda não se sabe se o fenômeno vai ocorrer. Segundo instituições de pesquisa, a probabilidade de surgir um Super El Niño é de 37%, porém, um mês antes, era de 25%. “Mas, a gente já tem uma convicção de que [a intensidade] vai variar de moderada a forte”, disse Edvania Santos. Foto: Alana Tavares/Apac

Apesar das projeções indicarem um cenário mais forte desse fenômeno, o professor da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco) em Serra Talhada e colunista da Algomais, Geraldo Eugênio, lembra que o El Niño não determina sozinho a intensidade de uma estiagem. Segundo ele, outros fatores climáticos também influenciam as chuvas na região e podem fazer com que os impactos sejam maiores ou menores do que o esperado. “O El Niño e a La Niña, por si só, não são suficientes para dizer como será uma seca aqui. Então, pode ter uma intensidade maior ou menor que o previsto. Nos últimos anos, por incrível que pareça, foram menores do que a previsão”, afirmou.

OLHO NO CURTO PRAZO E TEMOR NO LONGO PRAZO 

Embora o Super El Niño projetado pela NOAA seja aguardado a partir de novembro, os meteorologistas já esperam os efeitos do El Niño de moderado a forte já nos próximos meses.  “Nesse segundo semestre a gente já deve ter aumento dessas temperaturas. Se aumenta a temperatura, consequentemente diminui a umidade relativa, aumenta a evaporação e aumenta a demanda hídrica”, projeta Edvania.

Para Josiclêda Galvíncio, do Departamento de Ciências Geográficas e do Programa de Pós-Graduação de Desenvolvimento e Meio Ambiente da UFPE, o maior risco do possível Super El Niño não está em 2026, mas nos anos seguintes. A pesquisadora alerta que a repetição de períodos secos ao longo de vários anos pode produzir impactos acumulados sobre reservatórios, agricultura e recursos hídricos. “A gente pode até aguentar uma seca de um ano, mas não aguenta dois ou três anos”, adverte.

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“A gente pode até aguentar uma seca de um ano, mas não aguenta dois ou três anos”, afirma Josiclêda Galvíncio

A comunidade científica internacional registrou episódios de Super El Niño em 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016. As ocorrências das décadas de 1980 e 1990 foram as que provocaram os impactos mais severos no Brasil. Para Josiclêda, porém, os investimentos realizados nas últimas décadas em infraestrutura hídrica e em políticas públicas de convivência com a seca e de enfrentamento à vulnerabilidade social contribuíram para reduzir os efeitos do fenômeno sobre a população no episódio mais recente.

Embora as temperaturas mais elevadas e a redução das chuvas continuem impondo dificuldades às atividades produtivas em boa parte do Semiárido, as imagens do êxodo rural, da fome e das grandes tragédias humanitárias associadas às secas já não refletem a realidade da região. Isso não significa, porém, que os impactos tenham desaparecido: segundo a pesquisadora, as secas ainda provocam prejuízos econômicos significativos na renda dos agricultores familiares.

GERALDO EUGENIO
“Temos que estar preparados e qualificados para enfrentar uma seca maior que a de 2012 a 2018. Em vez de enxergá-la como algo extraordinário, temos que encará-la como nosso dia a dia e um empreendimento a ser gerido”, declarou Geraldo Eugênio

COMO SE PREPARAR PARA O FENÔMENO 

Seja Super El Niño ou um El Niño forte, os municípios, estados e o País precisam reforçar suas políticas públicas para mitigar os efeitos mais dramáticos das mudanças climáticas. Mais do que acompanhar as previsões meteorológicas, especialistas defendem que o Nordeste precisa fortalecer sua capacidade permanente de convivência com a seca. Para o professor Geraldo Eugênio, esse problema deve ser encarado como um fenômeno recorrente, não como excepcional, que exige planejamento contínuo e coordenação entre governos.

“Nós temos que estar sempre preparados e qualificados para enfrentar uma seca maior que a de 2012 a 2018. Por trás disso está a gestão da seca. Em vez de enxergá-la como algo extraordinário, temos que encará-la como nosso dia a dia e um empreendimento a ser gerido”, defende o professor. O pesquisador da UAST avalia que o País já acumulou conhecimento e experiência suficientes para adotar políticas mais estruturadas de enfrentamento das estiagens, mas ainda enfrenta dificuldades de coordenação entre União, estados e municípios. Segundo ele, as respostas continuam excessivamente concentradas em medidas emergenciais, como a operação de carros-pipa. “Já estamos maduros o suficiente para ter políticas mais consistentes. Sabemos que não é nada de novo, temos condições de enfrentar isso, mas precisamos nos organizar”.

Para enfrentar um possível ciclo prolongado de aquecimento associado ao Super El Niño, Josiclêda defende mais investimentos em infraestrutura hídrica, recuperação de áreas degradadas, produção de alimentos resistentes à seca para os rebanhos, além do avanço da pesquisa agropecuária adaptada ao clima da região. Ela enfatiza que, diferentemente do passado, o principal problema das secas hoje não é mais a mortalidade humana, mas dos animais. “Hoje a gente não tem mais aquelas pessoas morrendo com fome, como no passado, mas hoje a gente tem muita mortalidade animal e um impacto socioeconômico muito grande, com os prejuízos para os agricultores familiares.”

ALÍVIO PELA BACIA DO RIO SÃO FRANCISCO E PELAS ENERGIAS RENOVÁVEIS

Apesar da tendência de mais seca e maiores temperaturas no Semiárido, Josiclêda identifica uma tendência de benefício do fenômeno do Super El Niño para a Bacia do Rio São Francisco. Como ele nasce em Minas Gerais, as projeções são de haver mais chuvas nas suas áreas de nascente e médio curso.

Como o Alto e o Médio São Francisco devem receber mais água, a disponibilidade hídrica via a Transposição do São Francisco para o Nordeste poderá ser reforçada. A pesquisadora ressalta, porém, que a crescente dependência do rio exige atenção em um cenário de mudanças climáticas e eventos extremos mais frequentes. “Muitas vezes as pessoas colocam o Rio São Francisco como salvador da pátria. Até quando ele vai conseguir dar conta? Essa dependência também é preocupante”, declarou Josiclêda.

Além da disponibilidade de toda infraestrutura da Transposição do São Francisco, outra novidade do Nordeste que alivia a região foram os investimentos nas últimas décadas em energias renováveis. Com parques eólicos e solares na ativa, há uma redução da dependência das hidrelétricas, que sofrem com a redução dos seus reservatórios em períodos mais secos.

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PARTICIPAÇÃO DA SOCIEDADE

Washington Soares, professor da Universidade de Pernambuco e coordenador da Rede Resiclima (uma organização que reúne diversos pesquisadores dedicados ao estudo das mudanças climáticas) propõe que, além de ouvir especialistas, é importante incorporar a participação de populações vulneráveis e moradores de áreas de risco nesse debate. A construção das políticas de adaptação às mudanças climáticas precisa incluí-los para ser realmente efetiva.

“As populações humanas não são homogêneas diante do espaço dentro de uma cidade. Algumas vão sofrer impactos muito maiores que outras. A construção de políticas públicas precisa trazer diferentes vozes de coletivos e de pessoas que moram em situações de vulnerabilidade, para que sejam incorporadas nas discussões para uma política de mitigação e de estratégias adaptativas sobre o clima”, defende o pesquisador.

Washington Tavares
“A construção de políticas públicas precisa trazer vozes de coletivos e de pessoas que moram em situações de vulnerabilidade, para que sejam incorporadas nas discussões sobre mitigação e estratégias adaptativas sobre o clima”, afirmou Washington Soares

Segundo Washington Soares, ainda é um desafio fazer com que a população associe as secas prolongadas, enchentes e outros eventos extremos às mudanças climáticas globais. No entanto, ele afirma que quem já viveu na pele os eventos extremos, como no caso das enchentes que atingiram em cheio a Região Metropolitana do Recife em 2022, deixando 133 mortes, ou mesmo Goiana neste ano, com mais de 800 pessoas desabrigadas ou desalojadas, tende a perceber melhor o risco.

Para garantir uma maior conscientização da população e que a curva de aprendizado nessas crises não se perca, o docente da UPE e coordenador da Resiclima sugere um maior investimento em políticas públicas de comunicação focadas nessa agenda. “À medida que um evento extremo acontece, a gente pode aprender algumas coisas com ele. Mas, em uma geração, temos uma capacidade muito grande de esquecer. A tendência é esquecer as estratégias adotadas e diminuir a percepção de risco. Por isso, uma estratégia interessante é investir em comunicação de risco. Políticas públicas e estratégias mais efetivas de comunicação sobre as mudanças climáticas podem ser fundamentais neste momento”, sugere Washington.

A possível chegada do Super El Niño assusta. Mesmo sem atingir seus efeitos máximos, o fenômeno dificulta a vida no Semiárido e a capacidade produtiva da região. Porém, Pernambuco e o Nordeste partem de um ponto com amplo conhecimento dos eventos anteriores e com mais infraestrutura. Juntar a sociedade, a academia e o poder público, em todas as suas esferas, para trabalhar juntos no sentido de conviver com o fenômeno é urgente.

*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)

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