Talento coletivo: grupos do Recife resistem às dificuldades e produzem espetáculos inovadores – Revista Algomais – a revista de Pernambuco

Talento coletivo: grupos do Recife resistem às dificuldades e produzem espetáculos inovadores

Nos anos 2000 houve uma revalorização do teatro de grupo e várias companhias começaram a surgir no Recife. Prestes a completar 15 anos, o Coletivo Angu de Teatro é uma delas, cuja estreia nos palcos aconteceu com a montagem da obra Angu de Sangue, do escritor pernambucano Marcelino Freire. “Não tínhamos o intuito de construir o coletivo, mas depois de montado o elenco em 2003, decidimos continuar experimentando e a partir daí, criamos outros espetáculos”, conta Marcondes Lima, diretor e ator. O elenco também é formado por André Brasileiro, Arilson Lopes, Ivo Barreto, Nínive Caldas, Gheuza Sena, Lili Rocha e Hermila Guedes, conhecida por sua atuação no cinema.

O grupo trabalha com textos de autores pernambucanos que abordam temas sociais. “Fazemos teatro com um caráter político, mas não panfletário”, garante Lima. O coletivo também possui a característica de utilizar diferentes linguagens em cena, como dança, música e audiovisual. Um caldeirão de mistura, que justifica o nome do grupo, Angu.

A trupe acumula no currículo cinco montagens que já foram encenadas em inúmeros palcos pelo País, como Essa febre que não passa, trabalho construído a partir do livro homônimo da jornalista Lucy Pereira. Além de Angu de Sangue, cuja temática aborda pessoas que vivem à margem da sociedade urbana; eles montaram outros textos de Marcelino Freire (Rasif – Mar que arrebenta e Ossos).

Da universidade para os palcos recifenses, outro grupo atuante na cena teatral é o Magiluth. A trupe surgiu em 2004, no curso de Licenciatura de Artes Cênicas na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Os fundadores são quatro amigos, Marcelo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres e Thiago Liberdade, que após encerrarem as aulas com o espetáculo Ato sem palavras, de Samuel Beckett, decidiram dar continuidade à peça.

O elenco atual é formado por Erivaldo Oliveira, Pedro Wagner, Mario Sérgio Cabral e Bruno Parmera, além de Giordano e Lucas. A proposta do grupo está focada na construção de uma linguagem teatral por meio de um viés político e estético, facilmente perceptível em cena, e uma independência no modo de produção.

Em 2007, o Magiluth produziu o primeiro trabalho autoral intitulado Corra, apontado como espetáculo revelação no Recife. Em 2008, ele retornou com a peça Ato. “A remontagem abriu as portas para que o grupo pudesse circular em festivais importantes, como o de Guaramiranga (CE), Cena Contemporânea de Brasília e Porto Alegre em Cena”, conta o ator Mario Sérgio Cabral. O coletivo já soma nove espetáculos desde a sua criação, entre eles, Um torto, solo escrito e interpretado por Giordano Castro, Viúva, porém honesta, baseado no texto de Nelson Rodrigues e Luiz “Lua” Gonzaga, que aborda o universo do Rei do Baião. Ano passado, o grupo estreou Dinamarca, trabalho mais recente que vem rodando o País. A montagem une elementos cênicos e música autoral.

Outra companhia que surgiu no mesmo ano do Magiluth, 2004, é o Poste Soluções Luminosas. Formado só por atores negros, único em Pernambuco, o grupo realiza um trabalho antropológico de pesquisa teatral voltada para as matrizes africanas. É composto por Naná Sodré, Agrinez Melo e Samuel Costa, que são iluminadores e graduados também em artes cênicas pela UFPE. “Colocamos os negros como protagonistas das histórias. Nosso intuito é dar visibilidade a eles, que não costumam interpretar papéis de destaque”, justifica Naná Sodré.

O trio foi criado a partir do trabalho de iluminação cênica que realizava nos espetáculos teatrais, assessorando tecnicamente as companhias. Em 2009, quando o ator e diretor Samuel Costa entrou na equipe, o Poste voltou-se para a atuação cênica. Nesse mesmo ano, eles realizaram a montagem de Cordel do Amor Sem Fim, da poetisa, atriz e dramaturga Claudia Barral. Anos mais tarde, o grupo se firmou com uma sede própria situada na Rua da Aurora, Centro do Recife. “O espaço físico surgiu como forma de assegurar um local em que pudéssemos realizar as atividades, reuniões e projetos do grupo”, diz Naná.

O segundo espetáculo do Poste foi Anjo Negro, de Nelson Rodrigues, logo após veio a montagem Ombela, texto do angolano Manuel Ruy, e A Receita, solo interpretado por Naná que aborda a solidão feminina, o amor e as dificuldades do relacionamento. Um dos projetos da companhia este ano é a Escola O Poste de Antropologia Teatral voltada para atores com experiência no palco. “É uma forma que encontramos de manter o espaço”, conta a atriz. O objetivo da Escola é trabalhar as matrizes africanas e manifestações culturais brasileiras e pernambucanas.

Outra novidade do grupo é que neste mês o espetáculo Cordel do Amor Sem Fim será encenado no Uruguai. Os integrantes também planejam uma série de apresentações a partir do projeto intitulado Desatino, cujas peças foram escritas por Samuel Costa e contam com os três atores em cena, entre elas estão A Receita e O Açougueiro, ainda sem previsão de estreia.

Com tantas montagens realizadas, as companhias acumulam algumas participações em prêmios. O Angu, por exemplo, já integrou a grade do Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga (FNT), no Ceará, onde um dos integrantes ganhou o troféu na categoria melhor ator. No Festival Janeiro de Grandes Espetáculos, que acontece no Recife, Marcondes Lima arrebatou a premiação de melhor figurino em Ossos. O Magiluth ganhou da Apacepe (Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco) prêmio de melhor espetáculo pela peça Viúva, porém honesta. “Em 2012 ainda fomos reconhecidos como a segunda melhor estreia do ano pela Folha de S. Paulo com a peça Aquilo que o meu olhar guardou para você; e ganhei como melhor ator revelação pelo blog Atores e bastidores, do portal R7”, conta Mário Sérgio Cabral. Na capital pernambucana, a trupe é fundadora do Grite (Grupos Reunidos de Investigação Teatral) que discute políticas públicas para o teatro de grupo no Estado.

O trio de atores de O Poste, por sua vez, acumula 16 indicações e oito troféus, dentre eles, o prêmio Procultura de Estímulo ao Teatro 2010, da Funarte (Fundação Nacional de Artes). As atrizes Naná Sodré e Agrinez Melo ganharam o troféu de melhor atriz coadjuvante de 2014 pelo espetáculo Anjo Negro e a peça Ombela recebeu o Prêmio Especial pela Pesquisa em Matriz Africana.

Formado por atores negros, O Poste realiza um trabalho de pesquisa teatral voltada para as matrizes africanas.

Se por um lado os grupos têm o trabalho premiado, de outro, padecem com a falta de investimentos. “O mercado ainda hoje não dá muita importância para as ações afirmativas culturais, sobretudo, às artes cênicas”, lamenta Naná. Para manter o grupo e o espaço, ela conta que precisa submeter os trabalhos a editais e oferecer oficinas e cursos na casa, que também serve de sede para outras companhias. Da mesma forma, atores do Coletivo Angu fazem malabarismo para manter o galpão onde guardam o material usado no palco (cenário, figurino, etc). Marcondes Lima revela que o dinheiro fruto dos espetáculos é revertido em caixa para dar continuidade ao trabalho do coletivo. “Quando não é suficiente, temos que tirar do nosso próprio bolso”.

Mesmo com uma agenda cheia e viajando o País, o Magiluth também amarga com a falta de investimento. “Manter um grupo de teatro que trabalha com seis pessoas, pagar o aluguel da sede e ainda executar atividades burocráticas é um jogo árduo. Hoje somos muito mais que atores, trabalhamos também como produtores, gestores, carregadores, montadores de luz. Abdicamos de tudo que fazíamos para nos dedicarmos ao coletivo”, enfrenta Cabral.

*Por Paulo Ricardo Mendes

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