Outros olhares do Recife, nas lentes de Tales Pedrosa – Revista Algomais – a revista de Pernambuco

Outros olhares do Recife, nas lentes de Tales Pedrosa

*Por Rafael Dantas

A imagem acima ilustrou o cartaz do I Simpósio de Estudos sobre o Recife: Repensando a cidade, que aconteceu no mês passado. O registro é do historiador Tales Pedrosa**, que apresentou no dia de lançamento do evento uma série de outras fotografias que relatam essa metrópole sob outros olhares e contrastes. Os prédios históricos dividindo a paisagem com o precário e com os populares na sua sobrevivência diária pelas ruas. Um tecido urbano e humano. São instantes que revelam reflexões sobre o espaço e principalmente acerca de quem vive nele.

O evento promovido pelo RecLab (Laboratório de Estudos e Ensino sobre o Recife), que ocorreu na UFRPE e tinha um caráter acadêmico, reuniu não apenas pesquisas, mas representantes de várias instituições e movimentos que atuam na região metropolitana do Recife. A história, o presente e os insights para o futuro da cidade foi tratado pelas diversas vozes presentes no evento, sejam da universidade ou não. É nesse contexto que as imagens de Tales Pedrosa dialogam com várias temáticas que perpassam pela habitabilidade na RMR.

Publicamos abaixo o texto lido pelo geógrafo Tales Pedrosa no simpósio e algumas dessas imagens que dialogam com as reflexões e contradições dessa cidade que encanta pela sua memória e beleza, ao mesmo tempo que expõe de forma muito crua as cicatrizes da desigualdade social e econômica.

A cidade é um imenso texto que precisa ser lido, interpretado

Quando iniciei esse texto que apresenta e narra um pouco sobre minhas fotografias, lembrei de uma citação de Sandra Pesavento que diz assim: “os estudos de uma história cultural urbana, se aplicam no resgate do discurso, imagens e práticas sociais de representação da cidade” . A cidade é um imenso texto que precisa ser lido, interpretado. Nosso trabalho aqui é coletar e costurar esses fragmentos de representações sobre o espaço. Para isso, é preciso que entendamos que a cidade é uma prática empírica, pessoal e intransferível. É um espaço repleto de contradições, sociais, urbanísticas, entre várias outras. Por isso, é possível dizer que cada habitante vive em uma cidade diferente, a cidade muda de acordo com seus círculos sociais e com suas experiências.


Portanto, vivemos uma cidade que é, simultaneamente, única e múltipla, ou como traz o título, uma multicity. A transição entre essas múltiplas cidades não envolve uma viagem, mas uma simples troca de elementos. Cada elemento escolhido, cada porção que compõe o todo, possibilita novas oportunidades de análise, novos olhares. O encontro (o confronto) com a cidade ocorre quando estamos em um lugar desconhecido, por isso é necessário que a gente se faça de estranho à própria cidade em que vivemos. Justamente para que possamos enxergar o “novo”, aquilo que só percebemos quando escovamos a história a contrapelo.



O espaço urbano é algo de extrema complexidade em que se manifestam uma intrincada série de fenômenos de interação. As imagens que se produzem desse ambiente são o resultado de um processo que envolve tanto o meio, quanto aqueles que por ali circulam, por isso tais imagens podem variar de forma significativa a partir da perspectiva de diferentes observadores, que por sua vez, selecionam, organizam e dotam de sentido aquilo que observam.


Existem lugares ou momentos em que devemos levantar o nosso olhar, dirigir os olhos para baixo, buscar outras cidades dentro da cidade. Esse espaço esvaziado ou cheio de pessoas revela e esconde uma infinidade de elementos. Andamos “automaticamente” pelas ruas, presos em nossos problemas, não observamos o entorno, a pressa e a poluição visual vão embaçando a vista e acabamos mergulhados numa espécie de limbo. As coisas passam despercebidas. As cidades nos possibilitam um sem-número de estímulos, são monumentos, prédios, intervenções urbanas que cruzamos a todo momento em nossos deslocamentos. É importante experienciar a cidade com os sentidos mais aflorados, tentar desbravar a floresta de símbolos de que a cidade é composta.

Para finalizar, gostaria de citar Italo Calvino, onde ele diz “de uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas” (CALVINO, 1990, p.44). Não podemos dizer que um aspecto da cidade é mais verdadeiro, importante que outro; são pontos de partida para a investigação que cada pesquisador pretende realizar. Cada vez que observamos, novos elementos surgem, novas perspectivas que nos fazem conhecer e reconhecer a cidade. Então, a partir daí, surge uma nova cidade.

*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)

**Tales Pedrosa é mestre em história pela UFRPE e fotógrafo (https://www.instagram.com/taleslpedrosa)

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