100 Anos Do Congresso Regionalista De 1926 E A Formação De Um Pensamento Sobre O Nordeste - Revista Algomais - A Revista De Pernambuco
100 anos do Congresso Regionalista de 1926 e a formação de um pensamento sobre o Nordeste
No alto, a abertura do Primeiro Congresso Regionalista na Faculdade de Direito do Recife, com Netto Campello (diretor da faculdade), Odilon Nestor e Gilberto Freyre. Foto: Revista de Pernambuco, em 1926

*Por Rafael Dantas

H á 100 anos acontecia no Recife o Congresso Regionalista do Nordeste. Organizado por Gilberto Freyre, esse encontro de intelectuais, que aconteceu na Faculdade de Direito do Recife, faz um contraponto a muitos ideais do modernismo brasileiro que bebiam de “estrangeirismos” e menosprezam as raízes culturais. A obra que nasce desse evento, o Manifesto Regionalista, valoriza as nossas tradições na culinária, na arquitetura, nas artes e defendia o desenvolvimento do País a partir do fortalecimento da sua articulação regional. Reflexões e provocações que ecoam ainda hoje no Brasil.

O movimento regionalista, segundo o historiador e professor da UFPE, George Cabral, é uma contraposição ao que emergiu na Semana de Arte Moderna, em 1922, realizada em São Paulo. “Ele vai afirmar, sobretudo, os valores historicamente construídos em nossa região em contraposição àquilo que os nossos pensadores consideravam como estrangeirismos, como imposições de modismos que nada tinham a ver com a nossa tradição histórica. Esse movimento propõe que o Brasil se voltasse às suas raízes históricas, buscando aquilo que havia de positivo nelas para a sobrevivência e para a elaboração de uma civilização nos trópicos”.

George Cabral
Para George Cabral, o movimento regionalista é uma contraposição à Semana de Arte Moderna de 1922, porque afirmava valores historicamente construídos no Nordeste e se contrapunha aos “estrangeirismos”, vistos como imposições de modismos sem ligação com a tradição da região.

Em outras palavras, era um posicionamento firme para renegar tudo o que havia de imposições europeias sobre a cultura local que nada tinham a ver com um país tropical. Não é por acaso, por exemplo, que há no livro – publicado anos após o Congresso – uma valorização radical da cultura alimentar e, mesmo, da nossa arquitetura. Freyre critica o fato de os tradicionais cafés da cidade não incluírem em seus cardápios os pratos típicos da região, que corriam o risco de desaparecer, caso não fossem reconhecidos e preservados.

“Gilberto Freyre e as pessoas que participaram no movi - mento procuravam valorizar esses elementos que estavam sendo sistematicamente des - valorizados, com o argumen - to de que eram coisas arcaicas e que deviam ser substituídas por tendências europeias”, explica George Cabral.

O Mestre de Apipucos destacava nesse livro que o Brasil já era uma combinação, uma mistura, especialmente o Nordeste. No congresso de 1926, ele já defendia que a região era a principal “bacia” em que estavam combinadas as misturas de sangue e de valores portugueses, indígenas, espanhóis, franceses, africanos, holandeses, judeus, ingleses, alemães e italianos.

Gilberto Freyre jovem
Gilberto Freyre

UMA REUNIÃO DE INTELECTUAIS

Apesar de Gilberto Freyre ser uma figura central desse movimento, vários são os intelectuais do Nordeste que o integram. O artista plástico José Américo de Almeida e o escritor José Lins do Rego são apontados como alguns dos colaboradores paraibanos. O jurista, diplomata e escritor Pontes de Miranda é um representante alagoano desse movimento. O escritor e historiador Câmara Cascudo é um dos integrantes do Rio Grande do Norte.

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A maioria dos nomes listados, no entanto, são mesmo de Pernambuco. Alguns dos principais escritores e artistas locais foram Cícero Dias, Luís Jardim, Barbosa Lima Sobrinho. Manuel Bandeira foi citado como um poeta solidário ao movimento.

No Congresso, é criado também o Centro Regionalista do Nordeste que teve como presidente o advogado, escritor e professor Odilon Nestor, anfitrião das reuniões. A Província foi o jornal em que se prolongou o regionalismo proposto pelo congresso, que recebia as contribuições de vários desses intelectuais. O próprio Diario de Pernambuco foi também o veículo onde foi publicado parte do manifesto.

Gilberto Freyre chega a afirmar que o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisa Social, que daria origem anos após à Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco), é “de algum modo, filho ou neto do Movimento Regionalista”.

Fundaj Antigamente
Gilberto Freyre afirmou que o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisa Social, que daria origem anos após à Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco), é “de algum modo, filho ou neto do Movimento Regionalista”

Apesar de ser uma articulação de intelectuais e do enraizamento desses debates em publicações e na criação de instituições, segundo o relato do sociólogo, no prefácio da edição de 1955 do Manifesto Regionalista, o encontro tinha um “tom de conversa”, “inacadêmico” e acompanhado de sequilhos e doces regionais, preparados por “mãos de sinhás”.

Curioso notar, em tempos que falamos tanto hoje em polarização, que o Manifesto Regionalista incluiu na mesma discussão pessoas de pensamentos muito diversos. Gilberto Freyre cita que participaram “homens politicamente de ‘esquerda’ como Alfredo Morais Coutinho’ e da extrema ‘direita’ como Carlos Lyra Filho”.

Apesar desse tom, o historiador e professor da UPE Johnnys Alencar lembra que o movimento recebeu críticas ao ser considerado um projeto político disfarçado. “Apesar de dizer que era um grupo ‘apolítico’, o Manifesto propunha alterações na forma de organização do País, trocando os estados por regiões culturais. Para muitos, isso soava como um desejo de voltar a um passado político e social que já não existia mais, ignorando as transformações que estavam em curso no Brasil. Por isso, o movimento foi acusado de ser uma reação contra o progresso e as novas realidades urbanas”.

Independente das críticas que recebeu, como o próprio Freyre recebe muitas atualmente, há de se ressaltar o pioneirismo de tantas discussões e a forma como essas ideias foram concebidas. O escritor e jornalista Mário Hélio, inclusive, ressalta que o livro é fruto do movimento e do congresso e não o contrário. Ou seja,foram as discussões que nasceram nessa confluência de reflexões dos intelectuais que gerou o registro que temos hoje. “O Manifesto Regionalista é um produto editorial de 1952, publicado inclusive por uma editora chamada Região, cujo nome por si só mostra sua “filiação” a uma “genealogia”, que se prolonga ainda no Movimento Armorial e no Mangue Beat. As ideias centrais do Manifesto, que é um desdobramento do Congresso, não o contrário, são estas: a ação dos poderes públicos e particulares para enfrentar os problemas econômicos e sociais do Nordeste, onde se incluem a habitação, as estradas, o turismo, a valorização das belezas naturais e, nestas, por sua vez, estão reflexões sobre o meio ambiente, que implica em legislação e educação”.

O NORDESTE FORMULADO NO MANIFESTO REGIONALISTA

George Cabral ressalta que os estados da região viviam um contexto de perda de protagonismo no cenário nacional. Nessa época começa a se construir o ideal do Nordeste enquanto região, que ainda não era reconhecida uma divisão regional que caracterizava um conjunto de estados como temos hoje. “Isso só vem muito depois. Esse é um momento em que, diante do esvaziamento político e econômico desses estados, há uma afirmação da região como fundante do Brasil, onde estariam valores, tradições e costumes que melhor caracterizariam o País como nação e que movem esse movimento regionalista, tradicionalista, mas ao seu modo modernista”.

Admiradora confessa de Gilberto Freyre, a historiadora Mary Del Priore ressalta que o Manifesto Regionalista não é um texto ingênuo, nem um mero exercício de nostalgia. Ela ressalta que a proposta tampouco é uma reação provinciana ao modernismo centralizador que emergiu no Sudeste. Mas, nasce daquele debate uma “modernidade com lastro e atenção ao solo”. Um olhar que considerava a vida cotidiana do povo local e de sua cultura.

Manifesto Regionalista

“Nesse Manifesto, Gilberto Freyre propôs muito mais que a defesa do Nordeste: formulou um método de pensar o Brasil a partir de suas regiões reais, sociais e culturais, e não de abstrações administrativas ou modismos importados. Seu regionalismo não é separatista nem provinciano, mas profundamente nacional, ao afirmar que o País se constrói pela articulação viva de suas diferenças”, afirmou Mary Del Priore.

O texto do Manifesto faz críticas diretas à organização do País em estados. Ele é contundente na defesa da reflexão do Brasil a partir de suas regiões. A divisão administrativa após a queda do Império promoveria uma indesejada disputa entre os entes federativos. Com esses insights, Freyre antecipa a discussão do Pacto Federativo e de tantos problemas que surgiram a partir das “intrigas” regionais. A questão atual da Transnordestina ou os acalorados debates na Reforma Tributária, por exemplo, são concretizações dessas tensões.

“Com a República (…) as Províncias foram substituídas por Estados que passaram a viver em luta entre si ou com a União (…): sem saber conter os desmandos para-imperiais dos Estados grandes e ricos, nem policiar as turbulências balcânicas de alguns dos pequenos em população e que deviam ser ainda Territórios e não, prematuramente, Estados”, criticou Gilberto Freyre no manifesto.

“O conjunto de regiões é que forma verdadeiramente o Brasil. Somos um conjunto de regiões antes de sermos uma coleção arbitrária de “Estados”, uns grandes, outros pequenos, se guerreando economicamente (…). Regionalmente é que deve o Brasil ser administrado. E claro que administrado sob uma só bandeira e um só governo, pois regionalismo não quer dizer separatismo”, considera o sociólogo.

Johnnys Alencar
"Na verdade, defender essa tradição colonial era uma reação de intelectuais em torno desse movimento que viam o poder econômico e político do Nordeste patriarcal entrar em decadência diante da ascensão do Sudeste industrial." Johnnys Alencar

UM VALOR À SOCIEDADE TRADICIONAL DOS ENGENHOS

A ideia central do Manifesto Regionalista, na análise do historiador e professor da Universidade de Pernambuco, Johnnys Alencar, é a noção de que a verdadeira e mais autêntica identidade nacional não está nas novidades modernas mas, sim, no passado rural e colonial do Nordeste açucareiro. “Gilberto Freyre colocou dois mundos em conflito. De um lado, o Nordeste tradicional e os seus engenhos, sua arquitetura adaptada ao calor, sua culinária e suas ruas estreitas. Do outro lado, estaria o modernismo do Sudeste, sobretudo São Paulo e Rio de Janeiro, visto como uma importação estrangeira que despreza as raízes”.

O docente da UPE considera, no entanto, que é crucial entender que esse elogio ao Nordeste não era neutro. Johnnys destaca que ela partia de uma leitura conservadora e saudosista do passado, que elevava a cultura dos senhores de engenho como modelo enquanto silenciava conflitos e a violência daquele sistema. “Na verdade, defender essa tradição colonial era uma reação de intelectuais em torno desse movimento que viam o poder econômico e político do Nordeste patriarcal entrar em decadência diante da ascensão do Sudeste industrial. E essa visão tem uma influência profunda e duradoura na forma como lemos o Nordeste até hoje”.

A associação do Nordeste com a tradição é um dos elementos que contribuiu para a cristalização da imagem da região como um lugar que guarda a verdadeira cultura nacional. Sua comida, sua música e religiosidade são alvos dessa forma tanto do orgulho, como do imaginário de atrasos e estereótipos que se formaram. “O Nordeste passa a ser visto, muitas vezes, como um espaço parado no tempo, resistente à modernidade, em contraste com um Sul dinâmico e moderno”.

Mario Helio
Mário Hélio ressalta que das formulações postas no Manifesto Regionalista resultaram na criação da Sudene. O pequeno grupo de intelectuais antecipou parte da problemática regional do País, que ainda está nos debates das políticas públicas e nas pesquisas acadêmicas.

DEBATES CONTEMPORÂNEOS QUE EMERGIRAM DO REGIONALISMO

Vários debates e ações públicas e privadas contemporâneas têm pontos de conexão relevantes com as discussões desse movimento. Além do valor da cozinha regional, já mencionada e com grande valor do turismo regional, Mário Hélio destaca outro detalhe que não pode ser esquecido: a arquitetura e o urbanismo, com a proposição de vilas, parques, jardins. Portanto, quando o Recife de hoje começa a valorizar um pouco mais a ideia de praças e parques nada mais está a fazer que retomar uma proposta feita há um século. A defesa da identidade, da história/memória e do patrimônio (tanto o material quanto o imaterial) são também ‘teses’ centrais”.

O escritor lembra também que algumas das formulações postas no Manifesto resultaram na criação da Sudene. Mário Hélio considera que aquele pequeno grupo de intelectuais, que se reuniu no Recife em 1926, antecipou parte da problemática regional do País, que ainda está nos debates das políticas públicas e nas pesquisas acadêmicas. “A prática política e econômica no Brasil, em tempos de esforços de neocolonialismo, é de colonialismo interno, muitas vezes. O fortalecimento regional continua a ser a chave para a verdadeira federação, como já o sabiam os de 1926, e antes deles, os de 1824, os da Confederação do Equador”.

Outra discussão bastante atual, apontada por Johnnys Alencar é o dilema entre autenticidade e globalização. “Ainda hoje nos perguntamos: Como se conectar com o mundo sem perder a própria identidade? Embora não tenhamos uma resposta consensual para essa pergunta, elaboramos posturas e formas de ver essa relação quando discutimos a homogeneização cultural global tensionada pelas relações capitalistas e a luta pela valorização das produções locais, das línguas, dos saberes tradicionais”.

O historiador observa que o Movimento evocava também uma provocação que permanece atual: a tentativa de elaborar uma compreensão capaz de explicar o que une um país como o Brasil, marcado por grande diversidade. Segundo ele, tanto o Movimento quanto o Manifesto não encerraram essa questão e, mesmo com o foco no Nordeste, continuam estimulando reflexões sobre como compreender o Brasil a partir de suas diversidades regionais.

Com o tempo, o regionalismo formulado por Gilberto Freyre deixou de ser apenas um programa intelectual para se tornar uma ética do olhar perceptível nas artes contemporâneas, segundo Mary Del Priore. Ela aponta que no cinema nordestino atual, o regional já não aparece como paisagem decorativa, mas como experiência vivida.

Mary Del Priore Fotos
Mary Del Priore constata que no cinema nordestino contemporâneo
o legado de Gilberto Freyre é tratado de forma mais crítica e que as
heranças culturais, como o patriarcalismo, são problematizadas. “Trata-se
de um regionalismo sem inocência, que não suaviza o real”

“As cidades e o sertão surgem como personagens, carregados de memória, de conflitos silenciosos, de heranças que insistem. A casa, o bairro, o território já não simbolizam harmonia, mas tensão, ruína, permanência incômoda. Trata- -se de um regionalismo sem inocência, que não suaviza o real, mas o torna mais denso. Na fotografia, essa herança se manifesta na recusa do cartão-postal e do folclore fácil. O Nordeste é mostrado como território vivido, marcado por trabalho, religiosidade, migração, envelhecimento. Ruínas, corpos, gestos e silêncios revelam temporalidades longas, fazendo do espaço um arquivo sensível da história”, avalia a historiadora. Ela considera que esse regionalismo visual contemporâneo é desromantizado, entretanto permanece fiel à intuição freyriana de que o lugar molda identidades e afetos. As tensões aparecem também na literatura e na música. Um legado que reaparece de forma mais crítica.

Esse deslocamento do regionalismo, da exaltação da tradição para a problematização de suas heranças, ajuda a entender por que o Manifesto Regionalista continua sendo relido à luz do presente. “O que mudou desde Freyre é evidente. Onde antes se afirmava a tradição, hoje ela é interrogada. Onde se buscava harmonia, emergem conflitos. A casa patriarcal aparece em ruínas. A região já não é apenas matriz da nação, mas espaço de crítica e de resistência. Ainda assim, algo permanece. O Manifesto Regionalista venceu culturalmente, mesmo tendo perdido a inocência. Talvez seja por isso que continuo a voltar a Freyre, apesar das críticas que isso provoca. Não por fidelidade cega, mas porque ele nos ensinou algo que ainda faz falta: a olhar o Brasil sem abstraí-lo, a pensar a modernidade sem arrancá-la do chão, a reconhecer que nossas regiões não são atraso nem ornamento, mas formas complexas de viver o tempo”, reflete a historiadora.

Cem anos depois, o Manifesto Regionalista já não é apenas um documento de época, mas uma lente para compreender disputas que atravessam o Brasil até hoje. Ao defender que o País fosse pensado a partir de suas regiões, Gilberto Freyre ajudou a formular uma ideia de nação fundada na diversidade, ainda que marcada por limites e silêncios. Entre permanências e revisões, esses debates que nasceram entre os intelectuais da época seguem provocando: não como resposta pronta, mas como pergunta sobre quem somos e de onde falamos.

*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)

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