Em sequência à publicação das entrevistas do programa Pernambuco em Perspectiva, que vai ao ar na TV Tribuna, aos sábados, às 11h30, os especialistas em inovação discutem sobre o cenário da tecnologia em Pernambuco.
Já faz algum tempo que Pernambuco é vanguarda ao adotar a inovação alinhada à aceleração de negócios até na formação de um sítio tecnológico bem no coração da capital. Apesar disso, o potencial que ainda não foi explorado é enorme.
Esse tema foi abordado no recente episódio do programa Pernambuco em Perspectiva, que teve como convidados Marcelo Carneiro Leão, diretor do Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (Cetene) e Mariana Pincovski, diretora executiva do Porto Digital. Eles analisaram a situação atual da área de tecnologia no Estado, a necessidade de investimento do setor privado, a importância da criação de uma política pública de ciência e tecnologia e o investimento em capital humano para fortalecer o setor.
Com mediação de Fabiana Pirro e Francisco Cunha, o programa é realizado numa parceria entre a Revista Algomais e a TV Tribuna, com direção de Leo Crivellare e produção de Rafael Dantas e Inácio França. A série de debates abrange temas estratégicos para o futuro do Estado.

Fabiana Pirro – Pernambuco já foi referência em inovação tecnológica no Brasil. Onde estamos hoje nesse cenário nacional e global?
Mariana Pincovski – Sim, e isso tudo começou no Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco, um centro de excelência de formação de capital humano, isso, muitos anos atrás. E daí foi que surgiu o Porto Digital e agora nós contamos essa história de 25 anos desse distrito de inovação que hoje é considerado o maior distrito de inovação da América Latina. Então, começamos com essa alavanca, esse motor da Universidade Federal de Pernambuco e nós iniciamos, Fabiana, lá no ano 2000 com apenas duas empresas e hoje nós contamos com 541 empresas aqui dentro desta ilha (Bairro do Recife).
Marcelo Carneiro Leão – Em relação à questão da inovação, tanto em Pernambuco como no Brasil, nós temos uma superação a ser feita. Hoje, o Brasil é o 13º maior produtor de papers, de periódicos, mas ele é apenas o 50º no ranking de inovação. Então, esse é o grande conflito, o grande dilema, e nós precisamos, de fato, transformar as invenções que são realizadas nas universidades, nos institutos de inovação, para que esse conhecimento possa impactar a produção e chegar na sociedade. Esse é o grande desafio e Pernambuco tem condição de ser um dos players mais importantes do Brasil nesse processo de superação em inovação.

Francisco Cunha – Marcelo, no que diz respeito à ação e à tecnologia para o desenvolvimento, como é essa preocupação nossa em relação ao desenvolvimento de Pernambuco? Existe alguma política já definida ou que deveria ser definida para vincular uma coisa a outra, ou seja, quais são as prioridades do Estado e o que é que está se fazendo em termos de desenvolvimento tecnológico e ciência para suportar esse desenvolvimento?
Marcelo Carneiro Leão – Nacionalmente, existe uma Política Nacional de Inovação, que faz exatamente esse caminho de transformar conhecimento em algo concreto para a sociedade. Atualmente, o Estado de Pernambuco tem feito uma série de ações e editais, tentando trazer esse conhecimento. São os editais normalmente ofertados pela Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe), mas eu acho que ainda de forma muito pontual e muito embrionária. O grande desafio é construirmos uma política pública que, de fato, aproxime as cadeias produtivas do Estado de Pernambuco à ciência. Nós podemos, e eu não tenho a mínima dúvida e vou defender isso sempre, embarcar ciência, embarcar tecnologia, embarcar inovação nas cadeias produtiva do Estado.

Fabiana Pirro – Mariana, o que exatamente está em jogo quando falamos da ciência, tecnologia e inovação como motores do desenvolvimento?
Mariana Pincovski – Nós, dentro do Porto Digital, e aí pegando um pouco o seu gancho, Marcelo, por meio da Doca, que é a nossa plataforma de inovação aberta, inovação corporativa, nós temos aproximado a cadeia industrial com os nossos programas de inovação. Utilizamos bastante do fundo Inovar e foi a primeira iniciativa do Porto Digital para atrair a indústria tradicional, em que elas trazem seus problemas, as suas dores, a dor da indústria tradicional.
E com uma série de especialistas, pesquisadores e designers, nós decodificamos esses problemas e soltamos dentro do nosso distrito de inovação. Nós fazemos uma articulação, porque às vezes a própria cadeia sequer sabe decodificar seus problemas para chamar as startups para tentarem solucionar, são problemas que estão ficando cada vez mais complexos. O Porto Digital atua nessa interface para decodificar esses problemas, soltar dentro do nosso distrito de inovação e gerar valor. Então, é gerar valor agregado dentro da cadeia produtiva e gerar também novos clientes para as startups que estão presentes aqui dentro do nosso distrito.

Francisco Cunha – Esse trabalho de vinculação é contínuo ou é algo que já se inicia de alguma coisa? Seria necessária uma política pública voltada para isso e fazendo a vinculação mais estreita em relação à tecnologia e à atividade produtiva e mais do que isso, tecnologia, atividade produtiva e vetor de desenvolvimento?
Marcelo Carneiro Leão – Em relação a isso, eu acho que é importante separarmos política de Estado e política de governo. Eu vejo, nos últimos anos, políticas de governo. O governo entra e saí, nós precisamos criar, de fato, uma política de Estado que leve isso com uma perenidade maior. Quando falamos em incorporar ciência nas cadeias produtivas, estamos falando de projetos e de programas de PDI, Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação. Isso precisa de uma política de Estado.
Mariana Pincovski – Esse ponto que Marcelo levantou é bastante relevante, porque isso é um pouco a dor também que sentimos nos nossos programas de empreendedorismo. Nós agora temos o Nerd, que é a nossa plataforma de negócios do Porto Digital, em que nós temos programas desde a pré-incubação, que é a fase que a gente chama ainda de ideação, em que os empreendedores ainda não têm o CNPJ, mas têm a ideia. Então, por meio dos nossos programas de formação, na pré-incubação, eles começam a modelar o seu plano de negócio, tiram aquela ideia da cabeça, colocam no papel e vão passando pelos estágios.
Para a gente conseguir o investimento privado, que eu concordo plenamente com Marcelo, é muito mais fácil, porque você já tem empresa que já tem um produto ou um serviço consolidado, já tem notas fiscais emitidas, nós falamos: “já tá validado pelo mercado”. Mas esse início da cadeia é muito difícil de conseguir tracionar. E aí dependemos muito da política de governo. A inovação, de fato, vem dessas startups ou às vezes dos espinhos dessas gigantes de mercado. Precisa ter uma política de Estado para que novas startups surjam. Temos alguns exemplos, como a Neurotech, como a Tempest, então como é que vamos fazer para que novas Tempests, novas Neurotechs nasçam? Só para você ter uma ideia da magnitude disso, a Tempest foi uma empresa adquirida pela Embraer. Já a Neurotech foi adquirida pela Metz.

Francisco Cunha – Pelo o que eu entendi, existe a necessidade evidente de vinculação, via política pública, entre pesquisa e desenvolvimento estadual, já que o nosso foco é o desenvolvimento de Pernambuco. No seu entendimento, Marcelo, você qual o papel das instituições tradicionais de pesquisa no Estado, como por exemplo, o Itep (Instituto de Tecnologia de Pernambuco) e o IPA (Instituto Agronômico de Pernambuco)?
Marcelo Carneiro Leão – Acho que a sua pergunta, Francisco, tem dois eixos importantes. Primeiro, a gente precisa considerar o que já foi o IPA e o que é o IPA hoje. O IPA, há 50 anos, era um dos maiores centros de pesquisa do Brasil de desenvolvimento de soluções para a agropecuária. Hoje, eu acho que o IPA precisaria ser reestruturado, a mesma coisa para o Itep. Porque da forma como está hoje, eu acho que o contributo não vai ser tão grande. Precisam, de fato, se repensar e se reestruturar para tentar contribuir com esse desenvolvimento.
E aí o outro eixo que eu queria puxar da sua pergunta, Francisco, eu acho que serve para o governo estadual, o atual e os futuros: nós precisamos incorporar nos seus processos decisórios, nas suas equipes, a academia, as instituições de pesquisas. Então, eu já fiz uma proposição quando tive uma reunião com a governadora, quanto com o prefeito, da possibilidade de se criar um grande conselho consultivo de Ciência e Tecnologia e inovação do Estado de Pernambuco, onde fosse ouvido. Porque não adianta só a gente propor na academia, propor no Porto Digital, mas quem vai operar essas políticas é o Estado. E, portanto, é importante que essas pessoas, esses grupos possam ter assento nas formulações das políticas e nas decisões dessa área.

Francisco Cunha – Mariana, o Porto Digital tem incentivado mais startups e o desenvolvimento tecnológico mais digital, porque é da natureza do Porto. Há algo lá que em termos de pesquisa e desenvolvimento, que se aproxime do desenvolvimento da biotecnologia, porque hoje entendemos que essa é uma fronteira de conhecimento muito dinâmica: biologia e tecnologia.
Mariana Pincovski – Veja, como uma política dentro do Porto Digital não, mas algumas startups de dentro do nosso ecossistema estão tratando sobre esse tema. Muita parte de energia limpa também está sendo desenvolvida, mas não como um projeto pilotado pelo Porto Digital. Nós, atualmente, temos trabalhado em três grandes pilares, Chico. O primeiro deles, é essa reconstrução do tecido urbano central, com a revitalização desses imóveis históricos.
O segundo é a atração de novas empresas, tanto empresas de fora, multinacionais, como a criação de startups, por meio dos nossos programas de empreendedorismo. No nosso terceiro eixo, temos trabalhado de uma forma bastante enfática – que eu acho que vai muito com o que você falou – na questão da inclusão produtiva na área de formação de capital humano. Nós temos um programa, que daqui mais dois anos, em 2028, quatro mil jovens egressos de escola pública já terão passado pelos nossos programas de formação e grande parte deles já saem empregados antes mesmo de se formar. Então, nós conseguimos com que pessoas da periferia possam acessar esse distrito de inovação.
Se você entrasse no Porto Digital alguns anos atrás, ele era um distrito de inovação composto majoritariamente por homens brancos e de classe média. Hoje, você consegue ver uma população altamente heterogênea. Então, grande parte dos nossos estudantes são pretos e pardos. Todos eles vêm de um estágio de vulnerabilidade, mas o mais importante, Chico, é a entrada para o Embarque Digital por meio do Enem. Devido à nota de corte dentro da Universidade Federal de Pernambuco ser bastante elevada, dos cinco cursos mais concorridos da UFPE, três são da área de tecnologia. Então, a pessoa precisa tirar mais de 800 pontos no Enem para entrar. E aí, como é que a gente faz? Nós pegamos no Embarque Digital, com a seleção via nota do Enem, conseguimos pegar uma faixa de estudantes que tira entre 600 pontos e 700. Esses três grandes pilares é o que a gente hoje vem focando nessa última gestão do Porto Digital.

Francisco Cunha – Agora, além desses três pilares, vocês têm também o Festival Tecnológico, que é o Rec‘n’Play., que é o maior Festival Tecnológico em linha reta da América Latina?
Mariana Pincovski – Como um bom pernambucano, você até já incorporou o nosso slogan. E eu já faço um convite para vocês. O nosso Rec‘n’Play desse ano ocorrerá entre os dias 11 e 14 de novembro. E pegando também o gancho que eu achei brilhante o que Marcelo falou sobre deixar que a tecnologia seja acessível e ter que atender ao maior número de pessoas. E o Rec‘n’Play vem para mostrar isso. Se você vai para outros festivais de tecnologia dentro ou fora do Brasil, os tickets são muito caros e o Rec‘n’Play é completamente gratuito.
Marcelo Carneiro Leão – Eu vou dar um exemplo da importância desse tema e daquilo que falamos anteriormente da articulação de uma política de Estado. Por exemplo, hoje um dos rejeitos produzidos pelas empresas que fabricam jeans e tecidos é uma borra que provoca um problema ambiental seríssimo e é custoso para a sociedade. Hoje nós temos uma tecnologia no Cetene que transforma 100% dessa borra em nanofertilizantes. Nós agora estamos com um projeto financiado pela Finep, a gente vai colocar uma planta piloto lá. Eu estou dizendo isso porque foram ações pontuais de pessoas, a gente tinha que ter uma articulação maior para pegar exemplos de tecnologias que já temos aqui no Estado de Pernambuco para atuar nas cadeias produtivas.
Eu estava em Buíque, no Vale do Catimbau, onde temos um projeto lá, e conversando com o prefeito, eles gastam uma enorme quantidade de dinheiro para mandar o lixo, o resíduo sólido para Arcoverde, quando nós poderíamos pegar aquele resíduo com uma planta simples, transformar em biocombustíveis ou biofertilizantes para agricultura. Ele deixaria de gastar o dinheiro para transportar e geraria dinheiro, porque sim, gera um biocombustível. Mas isso vai acontecer em ações isoladas. O que está faltando é uma articulação e aí eu acho que é o papel do Governo do Estado, principalmente da Secretaria de Ciência e Tecnologia junto com o desenvolvimento econômico social, para buscar essas soluções a articular para gerar um desenvolvimento a longo prazo no Estado de Pernambuco.

Fabiana Pirro – E o que está faltando para sensibilizar essas pessoas?
Marcelo Carneiro Leão – Eu acho que está faltando que as pessoas que assumam os governos tenham essa disponibilidade. E aí eu acho que a Secretaria de Ciência e Tecnologia, que já vem há um bom tempo fazendo esse papel, porque acho que é uma secretaria que passa ao largo um pouco das mudanças de governos, porque sempre tem o envolvimento dos pesquisadores, mas ainda está muito focada no financiamento de projetos para produzir papers, para produzir até patentes, mas não está articulada com o setor privado.
Francisco Cunha – Acho que teríamos de implantar uma política de desenvolvimento integrada, fazendo a articulação entre demanda social, governo, capacidade de fazer e academia, direcionada pela coordenação do governo, para termos um resultado mais efetivo. Qualquer um desses sozinho não consegue fazer bem.
Marcelo Carneiro Leão – O Brasil precisa que a iniciativa privada se incorpore nesse processo. Só para vocês terem uma ideia, os principais países aplicam em torno de 4% a 5% do PIB em ciência, tecnologia e inovação, como Alemanha, China, Estados Unidos, Inglaterra.. O Brasil aplica 1.2%. As pessoas, às vezes, reclamam: “Ah, o governo precisa aumentar para chegar a 4% e 5%”. Mas no caso de China, Estados Unidos,dos 4,5% a 5%, 1,5% é do governo e o restante é da iniciativa privada. Se a média é 1,5%, e o governo brasileiro investe em 1.2%, então, está muito bem. Agora o que está muito ruim é o investimento da iniciativa privada em ciência, tecnologia e inovação. E aí você precisa convencer os empresários que aquilo vai ter retorno.
Fabiana Pirro – E a pergunta é exatamente essa, Mariana, existe resistência dos setores tradicionais à inovação? Como superá-las?
Mariana Pincovski – Eu acho que a pandemia ajudou muito nesse sentido o setor de tecnologia e de inovação, porque as empresas precisaram passar por um processo de transformação digital um pouco mais acelerado. Então, sentíamos um pouco mais de resistência no início e hoje o caminho é um pouco mais fluido, mas ainda longe de ser o ideal. A gente começou com nossos programas de inovação corporativa, até utilizando o recurso do fundo Inovar e aí foi quando a gente começou a fazer a primeira abordagem à indústria tradicional para investir nesse setor de tecnologia e inovação. Como o ritmo está muito acelerado, eu noto que essa resistência tem caído com o passar do tempo.

Fabiana Pirro – Na década de 60, o Padre Lebret sonhou alto ao prever uma montadora e um estaleiro em Pernambuco. Olhando para o futuro, se vocês tivessem que escolher três prioridades para transformar o Estado em um polo de inovação, quais seriam?
Mariana Pincovski – Investimento em capital humano em primeiro lugar, em segundo lugar é investimento em capital humano, e em terceiro lugar investimento em capital humano. Fabiana, e se você me perguntasse 10 prioridades, as 10 seriam investimento em capital humano.
Marcelo Carneiro Leão – Eu complementaria, para não repetir, que concordo que o principal investimento é em capital humano, mas eu acrescentaria articulação, governo, sociedade e interiorização do desenvolvimento. Nós vemos o êxito do Porto Digital no Recife, mas a gente precisa levar esse desenvolvimento para todo o Estado, seja Agreste, seja Sertão, respeitando as vocações e as cadeias produtivas desses locais. Então, capital humano, articulação do governo com a sociedade, interiorização da ciência e da inovação para o desenvolvimento social e econômico de Pernambuco.

