Leitores e colaboradores destacam coberturas que, ao longo de duas décadas, discutiram os caminhos do desenvolvimento regional à internacionalização e ao planejamento de longo prazo.
*Por Rafael Dantas
A economia de Pernambuco passou por grandes transformações nos últimos 20 anos. Nesse período, a Algomais acompanhou a ascensão do Complexo Industrial Portuário de Suape, a chegada da fábrica da Stellantis a Goiana e a revolução tecnológica impulsionada pelo Porto Digital. Para além desse olhar mais urbano e industrial, muitas pautas apresentaram iniciativas empreendedoras surgidas no interior e na zona rural do Estado. As crises enfrentadas pelos setores produtivos e seus impactos sociais também ganharam espaço em nossas páginas.
Encerrando a série, nossos leitores apontam cinco reportagens ou coberturas jornalísticas que marcaram essas duas décadas ao apresentar ideias, experiências e caminhos inovadores para o desenvolvimento econômico de Pernambuco. Para compor esta seleção, ouvimos pessoas no lugar de “leitores e colaboradores de diferentes áreas de atuação. Participaram das escolhas o empresário e presidente do Conselho da CDL Santa Cruz do Capibaribe, Bruno Bezerra; o documentarista Anselmo Alves; o consultor e ex-secretário de Cultura e de Relações Internacionais de Pernambuco Gilberto Freyre Neto; o historiador e cientista político Ricardo Andrade; a jornalista Etiene Ramos; e a professora de Química da rede pública estadual Meydja Francielle.
Um profeta passou por aqui

Uma das reportagens que fez história na Algomais foi Um Profeta Passou Por Aqui, publicada em 2009 e assinada pelo jornalista José Neves Cabral. O texto chegou a ser finalista do Prêmio Cristina Tavares de Jornalismo. A matéria, indicada pelo documentarista Anselmo Alves, resgatou a passagem por Pernambuco, em 1954, do padre dominicano Louis-Joseph Lebret e mostrou como algumas de suas propostas para o desenvolvimento do Estado se concretizaram décadas depois. Entre elas estavam projetos relacionados a Suape, à indústria naval e à formação profissional.
Foi justamente a atualidade dessa visão que chamou a atenção de Anselmo Alves. Para ele, o pensamento de Lebret contrasta com a dificuldade brasileira de formular e sustentar projetos de longo prazo. “Ao ler esse texto sobre o visionário Padre Lebret, eu, como brasileiro, sinto um vazio imenso diante da falta de lideranças políticas e de órgãos governamentais capazes de pensar e planejar o futuro. Hoje, o planejamento parece muitas vezes reduzido a um conceito de governança ‘tuitado’, enquanto Lebret pensava décadas à frente. É como se ele tivesse desenhado a planta de uma casa que o Brasil ainda não sabia que precisava construir.”

Anselmo aproxima essa experiência vivida pelo Estado décadas atrás às ideias de Darcy Ribeiro para destacar outro problema: a descontinuidade de políticas e projetos entre diferentes governos. Na sua avaliação, essa dificuldade repercute em consequências que permanecem atuais. “Essa falta de continuidade cobra seu preço. Vivemos hoje uma crise de mão de obra qualificada, justamente quando o mundo e o mercado de trabalho exigem cada vez mais. E Lebret já tinha essa percepção naquele tempo. Ele entendia que desenvolvimento não se fazia apenas com obras e infraestrutura, mas também com pessoas capazes de acompanhar esse processo”.
Para o documentarista, a principal lição está na necessidade de pensar o desenvolvimento para além dos ciclos políticos, com projetos de longo prazo capazes de atravessar diferentes governos. Anselmo avalia que a frequente mudança de rumos impede que muitas iniciativas tenham continuidade suficiente para que seus resultados sejam alcançados.
Agenda da Internacionalização

A internacionalização da economia e a paradiplomacia foram temáticas que ganharam força nos últimos anos na Algomais, especialmente na cobertura da intensa atividade consular no Recife. Quem destacou esse trabalho foi o consultor e ex-secretário de Relações Internacionais e de Cultura de Pernambuco Gilberto Freyre Neto. Para ele, as reportagens e entrevistas que abordaram a necessidade de Pernambuco ampliar sua inserção internacional ajudam a colocar em pauta uma agenda estratégica para as próximas décadas.
Entre as reportagens que trouxeram essa proposta estiveram Pequeno, porém exportador, de novembro de 2025 e ficou em segundo lugar do Prêmio Sebrae de Jornalismo. A reportagem destacava a internacionalização de pequenas e médias empresas. Em janeiro deste ano, a Algomais discutiu as oportunidades e os riscos para o Estado com a reportagem Acordo Mercosul e União Européia – O Que Muda Para Pernambuco? O tema da paradiplomacia entrou forte também na cobertura do projeto Recife que Precisamos, em 2024, na ocasião das eleições municipais.

Gilberto considera que a posição geográfica, a trajetória histórica e a estrutura econômica de Pernambuco oferecem condições importantes para essa projeção. Nesse contexto, destaca a localização privilegiada no Atlântico, a presença de um porto, a tradição comercial e as identidades industrial e agroindustrial do Estado, além das possibilidades de ampliar as relações com Estados Unidos, Europa e, especialmente, África. “Essas discussões têm muito a ver com essa projeção de futuro, que a gente imagina que esse ‘saliente nordestino’ pode ocupar. Essa projeção atlântica, no final das contas, nos leva para todos esses desafios”.
Na avaliação do ex-secretário, a internacionalização não deve ser entendida de maneira isolada, pois está relacionada a diferentes dimensões do desenvolvimento pernambucano. “Tem a ver com comunicação moderna, com inteligência artificial, com logística, com indústria, com comércio, tem a ver com mobilidade, qualidade de vida, educação, ciência e tecnologia aplicada”. Para Gilberto, as diferentes pautas abordadas pela Algomais nesses campos convergem para esse debate sobre a projeção internacional e o futuro de Pernambuco.
Série especial das 200 edições da Algomais

Do exterior para os interiores de Pernambuco. A série Desafios do Desenvolvimento em Pernambuco, produzida para celebrar a edição 200 da Algomais, percorreu diferentes regiões do Estado para discutir seus potenciais econômicos e os obstáculos para transformar crescimento em desenvolvimento socialmente inclusivo e ambientalmente sustentável.
A mestre em química e professora da rede estadual de ensino Meydja Francielle destacou a reportagem dedicada ao Sertão. Entre os temas abordados, chamaram sua atenção as mudanças climáticas e as oportunidades abertas pela transição energética. “A matéria destaca que é preciso pensar na mudança da matriz energética diante da crise climática e aponta a energia solar, a eólica e o hidrogênio verde como oportunidades para o Estado”, relembrou.

A discussão também se aproxima da trajetória acadêmica de Meydja, cuja dissertação de mestrado abordou mudanças climáticas e créditos de carbono. Para ela, a reportagem reforça a necessidade de conciliar as novas oportunidades econômicas com a proteção ambiental. “Essa matéria me fez refletir sobre como o desenvolvimento econômico e a sustentabilidade precisam caminhar juntos, buscando alternativas que contribuam para a economia, mas também para a preservação do meio ambiente e para o futuro das próximas gerações.”
Nas demais reportagens, a série percorreu as outras regiões de Pernambuco, relacionando suas vocações econômicas a desafios históricos e novas oportunidades. No Agreste, abordou a escassez hídrica, a informalidade, a infraestrutura e a sustentabilidade das cadeias produtivas. Na Zona da Mata, discutiu a diversificação da economia canavieira, o avanço da indústria automotiva, o turismo e novas fontes de energia. Na Região Metropolitana do Recife, colocou lado a lado a força de Suape, do Porto Digital, do polo médico e de outras atividades econômicas com problemas como pobreza, desemprego, moradia e mobilidade urbana. O projeto venceu o Prêmio Fiepe de Jornalismo em 2023.
Muito além do forró

Conhecida pela imortalizada Feira de Caruaru e por seu rico repertório cultural, Caruaru há muito tempo abriga uma atividade econômica complexa e pujante. Esse foi o destaque da reportagem Muito Além Do Forró, publicada em 2018 e escolhida pela jornalista Etiene Ramos como uma das matérias marcantes da trajetória da Algomais.
Para Etiene, a reportagem apresentou uma Caruaru que ultrapassa os símbolos pelos quais é tradicionalmente reconhecida. Ao lado de Toritama e Santa Cruz do Capibaribe, a cidade integra o trio dos principais municípios do Polo de Confecções do Agreste, mas sua economia avançou também em outras direções. “A reportagem traz números expressivos de crescimento da população e do PIB de Caruaru, comentados por empresários e economistas que atestam a força da economia da cidade no terciário moderno.”

A jornalista destaca ainda o papel da educação e da qualificação profissional nesse processo de diversificação. “A evolução foi acelerada com a chegada de universidades, faculdades e instituições de ensino técnico e fomento à tecnologia para formar a mão de obra necessária às empresas de confecções nativas e às novas atividades como clínicas, hospitais, construtoras e shoppings centers.”
Para Etiene, o desenvolvimento registrado pela reportagem revela sobretudo a capacidade de iniciativa da própria sociedade local. Ela define Caruaru como “um oásis de prosperidade econômica criada pelos moradores”, que avançou mesmo diante de desafios como a histórica falta de água e a concorrência dos produtos chineses.
Pernambuco em Perspectiva
O projeto especial mais recente da Algomais, o Pernambuco em Perspectiva – Estratégia de Longo Prazo, foi apontado por dois leitores. A cobertura começou com as primeiras reuniões técnicas, ainda em 2024, passando pelas reportagens dos eventos que tiveram ampla participação da sociedade civil. A iniciativa se desdobrou ainda na publicação de um livro e da realização de 10 episódios do programa veiculado em parceria com a TV Tribuna.
Participante frequente dos encontros, o mestre em gestão pública e presidente do IHGAAP (Instituto Histórico, Geográfico, Arqueológico e Antropológico do Paulista), Ricardo Andrade, ressaltou o diagnóstico apontado pelo projeto. “Os ciclos dos modelos e processos de desenvolvimento, nascem, crescem e se esgotam. A plataforma Pernambuco em Persperctiva, da Rede Gestão, da TGI, e da Algomais, nos facultam um novo olhar, redesenhando cenários, prognosticando e antevendo o amanhã, encurtando o tempo, distâncias, sendo porta-voz e portador de futuro”.

O alerta para o esgotamento do modelo de desenvolvimento do Estado foi ressaltado em todos os encontros pelos consultores Francisco Cunha e Ricardo de Almeida. Juntamente com o diagnóstico, outra ideia-força do projeto é o foco no planejamento de longo prazo a partir de uma nova formulação, observando os problemas e oportunidades contemporâneas.

O empresário Bruno Bezerra afirma que escolheu a série por considerar que a maior contribuição do projeto foi fazer algo que Pernambuco ainda pratica muito pouco: pensar o futuro de forma estruturada, coletiva e com horizonte de longo prazo.
“Bons veículos de comunicação produzem reportagens relevantes sobre economia e desenvolvimento. A Algomais, nessa série, foi além do papel de observar e noticiar a realidade. Criou espaços presenciais de reflexão, organizou painéis qualificados, reuniu especialistas, empresários, gestores e diferentes atores da sociedade para discutir, de maneira articulada, questões determinantes para o futuro do Estado. Isso é particularmente importante em um ambiente no qual o debate público costuma ser capturado pelas urgências do presente e pelos ciclos políticos de curto prazo”, afirmou Bruno Bezerra.

Para Bruno Bezerra, o desenvolvimento também depende de continuidade, visão sistêmica e escolhas capazes de ultrapassar governos e conjunturas. Ao estimular essa reflexão, ele avalia que a série ampliou o próprio papel do jornalismo no debate sobre os rumos do Estado. “Ajudou a provocar Pernambuco a pensar sobre onde está, onde pretende chegar e quais caminhos precisa construir para chegar lá”.

Nesses 20 anos, foram muitos caminhos percorridos para retratar a economia pernambucana, com seus fenômenos, potencialidades e ameaças. Desde a escuta de grandes empresários e secretários de Estado aos pequenos empreendedores e profissionais que dão musculatura aos diversos setores produtivos. Um tecido de histórias que se entrelaçam e ajudam a compreender a complexidade econômica e as transformações recentes do Estado.
*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)

