*Por Manu Siqueira
“A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida”, já dizia Vinícius de Moraes. Quem é mulher, está disponível para relacionamentos e tem mais de 40 anos sabe que, talvez, hoje em dia, haja mais desencontros do que bons encontros pela vida. Portanto, quando isso acontece, é importante celebrar e aproveitar, ao máximo, o momento. Fiz uma listinha de micro-histórias de amor para te inspirar neste início de ano.
Amor à distância

Dizem que estar perto não é algo físico. E eu concordo muito com isso. Porém, relacionamentos à distância não são para todo mundo. Há aqueles que não os suportariam, inclusive. Há dez anos, uma amiga pernambucana estava em São Paulo, a passeio, e deu match com um homem bem mais velho do que ela em um aplicativo de paquera. Marcaram de se encontrar. Ela me contou que, assim que colocou os olhos nele, já sabia que iria rolar uma química boa. E rolou. E essa química continua rolando, mesmo ela morando no Recife, ele em São Paulo, e ambos se encontrando presencialmente a cada três meses.
Penso que relacionamentos à distância podem ser tão intensos quanto os presenciais. Eles se falam todos os dias, fazem videochamadas, cozinham e almoçam juntos através das telas. Sim, é preciso ter muita afinidade. Ela me conta, aos risos, que, além de uma boa conexão de internet, é necessária uma conexão real entre o casal, e isso se constrói com muita conversa, companheirismo, parceria, respeito, empatia e amor. Sem isso, dificilmente uma relação sobreviveria, seja morando na mesma rua ou em cidades diferentes.
Um amor italiano

Depois de passar alguns anos indo para a Itália nas férias, uma amiga foi apresentada a um italiano. A paixão foi quase imediata, mas a distância e o idioma eram grandes empecilhos. Apaixonados, decidiram namorar à distância e ficaram quase dois anos sem se encontrar presencialmente. Ela me conta que foi muito difícil para o casal controlar a ansiedade, a saudade e a vontade de sentir o cheiro, o beijo e o toque físico. Mas a espera valeu demais. Ela aprendeu o idioma, foi pedida em casamento em uma viagem que fizeram a Paris e hoje mora em Monza, na Itália, com o amor da sua vida. Eu tive o prazer de celebrar essa história em 2023.
Um amor de vizinho

Outra história bem curiosa é o amor que surgiu entre uma médica e seu vizinho, um administrador de empresas. É a típica história de que, às vezes, procuramos tão longe o que está muito mais perto do que imaginamos. Ela conta que tinha acabado de voltar de uma viagem entre amigas. Uma viagem perfeita. Estava feliz, radiante, emanando luz. Acredito muito que esse tipo de vibração possa ajudar a abrir novas possibilidades.
Pois bem, a paquera começou no elevador. Depois, o gatinho dela, cupido dessa história, insistia em entrar no apartamento do tal vizinho, provocando uma aproximação entre os dois. Aí começou a pandemia. Ela, nos plantões e vivenciando aquele estresse, se surpreendeu quando, um dia, chegou em casa e encontrou, na porta, um pudim feito pelo vizinho, acompanhado de uma cartinha desejando que ela estivesse bem naquele momento insano que todos estávamos vivendo. Como pequenos gestos podem surtir um efeito imenso na vida do outro, né? Essa atitude gentil e empática abriu as portas para que eles vivenciassem um relacionamento bonito e saudável.
Amor no trabalho

Às vezes, o amor nos chega de uma forma muito surpreendente. A partir de um fora, surgiu um grande amor, acredita? Ela trabalhava em uma empresa e percebeu que um colega não comia a mesma comida que todo mundo no refeitório. Foi até ele e, tentando puxar papo, perguntou o motivo. Recebeu uma resposta atravessada. Ele se sentiu invadido, pois era hipertenso e não queria que as pessoas soubessem. Ela ficou com muita raiva da forma rude como foi tratada.
Tempos depois, em uma viagem de trabalho, ela se perdeu do grupo em que estava e encontrou apoio e acolhimento justamente nessa pessoa. Dessa vez, ele foi tão atencioso, educado e gentil que ela ficou perplexa. Logo depois, ele saiu da empresa e a convidou para jantar. Estão juntos há 21 anos.
Date de uma noite

O cinema está recheado de filmes assim: paixões intensas, avassaladoras, que passam pela vida dos personagens como um raio ou, talvez, como um sol, iluminando o caminho para outras relações. Se você ainda não assistiu a Uma noite apenas, de 2010, com Keira Knightley, veja.
Pois bem, dates bons, intensos e cheios de vida podem durar apenas alguns dias, algumas horas ou uma noite inteira. Um colega conheceu um homem bastante interessante pelo aplicativo. Era Carnaval, e ele era turista. Estava em um camarote, enquanto o meu amigo subia e descia as ladeiras de Olinda. Com sinal de internet péssimo e algumas cervejas quentes, chega uma mensagem. O paulista se declarava e dizia que precisava muito dele no camarote. Meu amigo largou tudo e foi para lá.
Nem preciso dizer que os dois viveram uma paixão estarrecedora naquela noite. Quem quer demonstra, vai atrás, manda mensagem e mostra o que quer. Quem não quer, às vezes, nem precisa falar, pois as próprias atitudes já dizem tudo. Às vezes, em uma única noite, vivemos o que muitos não vivem em uma vida inteira.
No meio de tantos desencontros, detox e celibatos, essas histórias nos lembram que o amor não perdeu a delicadeza nem a capacidade de surpreender. Ele pode chegar tarde, vir de longe, estar pertinho, no trabalho, em uma noite qualquer ou no elevador de casa. Às vezes dura uma vida inteira, às vezes apenas o tempo necessário para nos transformar. Mas quase sempre cumpre um papel essencial: o de nos reconectar com a coragem de sentir novamente, e com a certeza de que, enquanto houver abertura e verdade, o amor sempre encontra um jeito de acontecer.
*Manu Siqueira é jornalista

