“O empreendedor brasileiro foi criado com aversão ao risco”

O empreendedorismo dinâmico é a capacidade de criar e desenvolver negócios inovadores que identificam oportunidades e oferecem soluções para as necessidades da sociedade. Esse tipo de empreendedorismo busca crescimento, geração de empregos e desenvolvimento econômico, utilizando criatividade, tecnologia e novas formas de gestão para se adaptar às mudanças do mercado.

Esse tema foi discutido no mais recente episódio do programa Pernambuco em Perspectiva, que teve como convidados a CEO da Mídias Educativas, empresa do Porto Digital,  Laís Xavier, e o administrador de empresas com especialização em gestão cultural pela escola francesa Agecif, Gilberto Freyre Neto. Na conversa, eles debatem sobre o empreendedorismo dinâmico no Recife, o polo criativo que Pernambuco busca ser, e o cenário ideal para empreender no Estado.

Com mediação de Fabiana Pirro e Francisco Cunha, o programa é realizado numa parceria entre a Revista Algomais e a TV Tribuna, com direção de Leo Crivellare e produção de Rafael Dantas e Inácio França. A série de debates abrange temas estratégicos para o futuro do Estado. 

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Fabiana PirroLaís, qual o ambiente de negócios que Pernambuco deve ter para favorecer o empreendedorismo dinâmico? 

Laís Xavier – Eu acho que a gente construiu esse ambiente lá atrás no começo de Porto Digital, que é quando tivemos o pilar da academia, o pilar das empresas, o pilar dos negócios. Uma estrutura, obviamente, governamental que deu apoio para que isso surgisse. Então, temos o governo apoiando, a academia fornecendo bons recursos, portanto, é um ambiente promissor para se desenvolver o empreendedorismo dinâmico, embora haja problemas a serem resolvidos.

Empreendedorismo

Fabiana PirroGilberto, a pergunta agora é inversa. Que características mais atrapalham a vida do empreendedor e quais precisam ser combatidas? 

Gilberto Freyre Neto – Pernambuco nasce como um território muito criativo. Quando a cana-de-açúcar chega aqui é uma inovação absurdamente importante. Não existia um adensamento de produção de açúcar como foi desenvolvido aqui há 500 anos. Pernambuco é criatividade e inovação desde sempre, não fazemos muito essa referência. Mas, somos um povo muito rico de oportunidades para construir as coisas. Inovação, criatividade, conhecimento, muita ciência aplicada. Isso faz parte da estrutura que cria um ambiente favorável. A ausência disso ou o desequilíbrio disso cria um déficit que a gente precisa de alguma maneira suplantar, não é?

E hoje existem a diversidade de oportunidades, a integração com os problemas globais, a existência do próprio Porto Digital com sua capacidade de ver além das nossas fronteiras. Mas  é fundamental que isso se articule com políticas de fomento, cada vez mais integradas ao mundo globalizado, porque as fronteiras de Pernambuco não são mais as que estão dentro do território brasileiro.

O nosso futuro está apontando para a costa ocidental africana que ainda não atravessamos, mas já deveríamos. Metade da população brasileira tem origem genética, nos últimos 500 anos, de povos africanos escravizados que aqui vieram e nós ainda não fomos capazes de visualizar essas parcerias. Olha a quantidade de coisa que pode acontecer nos próximos anos com a ampliação dos nossos olhares, a capacidade de nos integrarmos a uma dinâmica, conseguir olhar além das nossas fronteiras e suplantar essa muralha Atlântica, transformando essas oportunidades em verdadeiras pontes para que a gente consiga chegar ao continente africano. É um PIB que vai crescer absurdamente nos próximos 50 anos. Precisamos utilizar aquilo que temos de melhor, as características culturais do povo brasileiro, a capacidade inventiva de suplantar esses desafios que nos são impostos pelo nosso cotidiano. Tudo isso favorece a criação de um ambiente muito resiliente para a gente se projetar além das nossas fronteiras. 

Economia Criativa

Francisco CunhaO que é que caracteriza a economia criativa de Pernambuco como um diferencial que possa constar do seu planejamento de longo prazo?

Gilberto Freyre Neto – Imagina, Chico, que durante o nosso ciclo evolutivo no Brasil, temos a influência de uma diversidade de povos. Isso nos dá uma matriz bem complexa de oportunidades e de valores de ciclos de aprendizado, de línguas, de culturas diferentes do que a tradicional mistura das três raças poderia nos ofertar. Temos no ciclo histórico uma quantidade enorme de raízes aqui que foram plantadas e que hoje formam o povo pernambucano, o povo nordestino,  o povo brasileiro.  Imagina transformarmos isso em oportunidades para atravessar essas fronteiras. Do mesmo jeito que a gente se projeta como fundador de Nova York –  o nosso mito de formação de uma cidade que hoje é muito maior que a nossa –  imagina que a gente pode transformar esse mito para uma realidade. 

Como é que não atravessamos esses espaços e criamos um ambiente de desenvolvimento que nos favoreça como território criativo, porque de fato nós somos? Se a cana-de-açúcar em Pernambuco se transformou em nosso ativo, durante 300 anos, e nós financiamos a partir dele o desenvolvimento de um país, de uma nação, como a nação brasileira,  imagina se conseguimos transformar essa energia naquilo que a geopolítica está mostrando pra gente, que não existem mais fronteiras!

Podemos transformar isso numa grande oportunidade para um mercado gigantesco que é o continente africano, que está a 3, 4, 5 horas de voo, e hoje tem 300 milhões de habitantes (portanto mais que a massa continental brasileira) à nossa disposição com um PIB que vai crescer absurdamente, vai ser uma vez e meia o PIB brasileiro nos próximos 50 anos. E ainda não fazemos negócios com os povos africanos que estão olhando para gente e, muitas vezes, nos demandando. Então, imagina diminuirmos essa resistência, colocando o empreendedorismo de oportunidade para ocupar esses quadros, fazer com que  a capacidade empreendedora pernambucana atravesse essas fronteiras.

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Francisco CunhaHermeto Pascoal uma vez disse que Pernambuco é a província mais rítmica do Brasil. Ele que era um gênio da improvisação, da criatividade. O que você fala em relação ao diferencial é justamente nesse sentido, ou seja, fazer dessa peculiaridade um diferencial importante do Estado para poder, digamos assim, empacotar o seu empreendedorismo e em especial a sua economia criativa. É isso?

Gilberto Freyre Neto – É exatamente isso. Veja, temos uma identidade cultural com países africanos que olham pra gente como irmãos mais velhos e nos idolatram dentro daquilo que conseguimos chegar como civilização. No olhar deles para conosco, nós somos o futuro que eles desejam.  E eles olham para a gente como parceiros e não como competidores, não como colonizadores, mas como parte do mesmo. Ou seja, é uma cultura que seria muito bem-recebida na costa ocidental africana, porque há um desejo de uma relação mais forte, mais estruturada conosco. E isso, acho, é um papel que Pernambuco não pode abrir mão de liderar. 

Laís Xavier – Entendo que a gente tem uma similaridade no sentido de que estamos no estado periférico de um país periférico na periferia do mundo que é o Hemisfério Sul. E a gente tem essa característica muito parecida em relação ao continente africano como um todo. Partindo disso, acho que a gente tem uma gama de oportunidade imensa, porque aqui a gente tem os problemas, aqui a gente visualiza as necessidades de operação, de construção, de transformação. Nessa perspectiva, a gente tem um solo superfértil para empreender, para desenvolver, para transformar, porque qualquer transformação que a gente consiga fazer aqui, sob o ponto de vista tecnológico, a gente tem um impacto imenso. Então, pensar numa transformação baseada em tecnologia, no solo fértil do empreendedorismo, tem muita característica parecida. 

Porto Digital

Fabiana PirroLaís, um dos territórios com mais oportunidades no campo do empreendedorismo dinâmico em Pernambuco é o Porto Digital, onde você atua. Como esse polo fomenta novos empreendedores?

Laís Xavier – Antes de responder, preciso contar o que é esse Porto Digital. O Porto Digital é esse ecossistema, baseado num território que compreende a Ilha do Recife Antigo, o bairro de Santo Antônio e o bairro de São José. O ecossistema é formado por empresas, que têm suas representações institucionais, e também pelo núcleo de gestão do Porto Digital e pelo governo. Nesse ambiente todo mundo, cada um com seu chapéu diferente, com sua perspectiva diferente, faz ações específicas para o desenvolvimento.

Sobre o ponto de vista de empreendedorismo, a gente tem lá a Ponte, que é a Associação dos Empreendedores, tem um novo espaço agora que é o Nerd, que é do Núcleo de Gestão do Porto Digital, que são espaços que promovem o desenvolvimento e a criação de empresas. Nós temos espaços como o Open Innovation, que são recursos que o governo usa para desenvolver empresas e soluções tecnológicas, levando em consideração que o governo diz qual é o problema. E nós vamos lá tentar resolver. Acho que esse é o melhor jeito, inclusive, de conseguirmos resolver os problemas de governo, porque antes nós tínhamos editais que diziam como é que comprava a solução e nos encaixávamos dentro da solução.

De uns tempos para cá, com essas novas leis de startup, a gente consegue promover a mudança. O governo diz: “O problema é esse”. Eu digo: “Opa, tem um ambiente fértil aqui, a gente tem um conjunto de empresas que consegue fazer cooperação, consegue fazer meet days, consegue fazer encontros em comunidade, construção de novos negócios”. Então, olhando para o Brasil inteiro, nós temos outros ecossistemas pujantes, como em Santa Catarina, em São Paulo, que são um bom lugar para fazer negócio. Mas aqui nós temos uma peculiaridade importantíssima: todas essas entidades estão alinhadas. A gente não tem esse ambiente aliado de compartilhamento dentro dos outros ecossistemas. Eu acho que por a gente estar na região periférica de um lugar periférico, a gente tem que se juntar, para se fortalecer e construir vários tipos de iniciativas. 

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Fabiana PirroGilberto, fora de territórios muito específicos, como do Porto Digital, o empreendedorismo acontece mais pela necessidade. Como estimular na população o empreendedorismo por oportunidade? 

Gilberto Freyre Neto – Eu acho que o pernambucano é extremamente empreendedor, mas é a capacidade de empreendedor cultura, que é a faísca que transforma a vida das pessoas. Você não é um eterno empreendedor se o seu negócio não escala para um determinado padrão e portanto você precisa desenvolver a capacidade de governança. Essa é uma fronteira que precisamos ultrapassar. O ciclo de desenvolvimento empreendedor tem toda uma dinâmica, que vai até um certo grau de maturidade, que, quando se atinge,  precisamos de outros modelos de governança que nos deem estabilidade e o longo prazo visível para que a gente vá criando a escalabilidade do nosso negócio.

Traduzindo isso para o nosso cotidiano: imagina que o pernambucano vive o desafio do empreendedorismo de oportunidade porque a oferta de recursos impõe a ele a capacidade de sobreviver a partir de uma determinada competência que ele vai desenvolvendo. E isso está no feirante, no cozinheiro, numa série de profissionais, que em Pernambuco, por tradição, ocupa os seus espaços para garantir a sobrevivência de sua família. E esse ambiente precisa ter uma suplementação de capacidade educacional para que aquele camarada que acorda de manhã cedo e produz algum tipo de atividade, é remunerado por ela e traz a feira para casa, paga a escola das crianças, cria o seu ambiente de desenvolvimento, possa ter, de forma efetiva, um ambiente saudável de desenvolvimento. 

Temos algumas deficiências que têm a ver com educação continuada e profissionalizante, e uma burocracia excessiva no Brasil para fomentar atividades econômicas. Nós temos uma herança portuguesa, de 500 anos atrás, que ainda são as estruturas cartorárias. Ainda hoje temos uma estrutura extremamente burocrática. Isso se transforma do ponto de vista gerencial num custo absurdo para conseguir recursos de fomento para uma atividade econômica qualquer. E isso diminui a nossa capacidade de transformar em riqueza, aquilo  que a gente tem que é o tempo. Todo o resto a gente consegue conquistar, mas o tempo nos impede de atingir determinadas maturidades.

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Laís Xavier – Você falou do processo de governança, e quando nós estamos criando um empreendedorismo por necessidade, a gente não tem, de fato, uma profissionalização do empreendedor. Por isso, não conseguimos alcançar os passos e subir na escada do empreendedorismo enquanto profissionalização. Ser um bom executivo é entender que aspectos de governança vão te levar para o próximo passo. E sinceramente, acho que além das questões burocráticas, ainda temos pouco investimento em empresas com uma aquisição de risco maior aqui no Estado. Porque acho que todos os lugares do mundo que tiveram bons espaços empreendedores, que tiveram bons ecossistemas empreendedores, você tem uma estruturação de investimento.

Gilberto Freyre Neto – Você tocou no ponto que é importante a gente analisar: o empreendedor brasileiro foi criado com aversão ao risco. Buscamos alguém para correr risco no nosso lugar. Na maioria das vezes, buscamos aquilo que é público, do Estado. E aquilo que é público tem burocracia. E nós absorvemos a burocracia transformando isso em custo do investimento. Eu pego mais dinheiro para custear a burocracia que me é imposta, porque eu tenho aversão ao risco, né? Se eu tivesse condições de arriscar e apostar, eu teria o meu dinheiro disponível para investir naquilo que tem um certo grau de risco. Mas se der bom retorno, eu vou ganhar muito dinheiro. 

Mas aí eu vou para um banco, normalmente público, que tem uma taxa favorável, fomentada, eu puxo o Estado para dentro do meu negócio, o estado burocrático me transforma num custo mais alto do dinheiro, mas eu amplio a receita desse dinheiro para bancar esse processo. E isso cria uma menor disponibilidade de dinheiro, de recursos para outros projetos. É uma deseconomia.

Cinema Sao Luiz

Francisco CunhaA oportunidade de articular a tecnologia digital com a tecnologia emocional da economia criativa é um potencial, sem dúvida, que Pernambuco tem. A questão é como é que a gente aproxima mais ainda o Porto Digital do Cinema São Luíz, por exemplo?

Laís Xavier – Quando olharmos e vermos a periferia da cidade trabalhando, desenvolvendo, construindo economicamente o nosso Estado. É quando vamos dizer assim: conseguimos transformar conhecimento, educação, geração de oportunidade e desenvolvimento da economia local através do ambiente tecnológico. Hoje estamos vendo um pouquinho dessa transformação e daqui a 10 anos, Fabiana, vamos ver cada vez mais mulheres da periferia ocupando esse espaço, desenvolvendo e gerando, de fato, riqueza para o nosso Estado. 

Gilberto Freyre Neto – Nós fomos porto. O Recife foi o porto Atlântico mais importante do Século 16. Então, a minha projeção de poder ser, vamos dizer assim, como era no Século 16, é achar que o Porto Digital pode ser transcontinental. É achar que podemos ser um ponto geográfico de desejo do Brasil, do Saliente Nordestino, em que o Recife é aquele vértice importante que se projeta no Atlântico. E nós vamos ter do outro lado irmãos africanos olhando para gente também, querendo compartilhar essa identidade cultural que a gente tem aqui. Essa capacidade empreendedora, né? Essa vontade de acertar.

 E eu acho que nós temos potencial para isso. E aí eu não desmereço nada do que foi dito aqui nessa mesa, não. Pelo contrário, acho que  a ousadia é olharmos além daquilo que conseguimos visualizar hoje, olhando para dentro, porque normalmente não olhamos através do Atlântico. Vamos tomar banho de mar, com medo do tubarão, então a gente não vê o outro lado. E esse outro lado está pedindo pra gente se aproximar mais dele. 

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