“A gente precisa construir mais creches para não construir mais presídios.”
Rogério Morais e Sofie Aikman foram os entrevistados da semana no programa Pernambuco em Perspectiva

Uma criança bem-cuidada na primeira infância se transforma em um adulto autônomo, produtivo e saudável. Já está comprovado que o impacto dos cuidados do zero aos 6 anos de idade reverbera de forma complexa por diferentes áreas da vida adulta. O cérebro se desenvolve de forma muito rápida nesse período e cada experiência, seja uma brincadeira, um carinho, uma conversa ou até mesmo a rotina do dia a dia, ajuda a construir quem essa criança será no futuro.

O tema foi abordado no recente episódio do programa Pernambuco em Perspectiva, que teve como convidados Sofie Aikman, professora titular da pediatria da UFPE e pesquisadora na área de neurodesenvolvimento da criança e adolescente, e Rogério Moraes, especialista em gestão educacional e liderança pública, diretor executivo do Instituto Pipa e coordenador da Rede de Primeira Infância de Pernambuco (Repi-PE). Eles analisaram a situação atual do investimento na primeira infância no Estado, a necessidade de ampliação das creches, a importância de espaços públicos para lazer das crianças até o efeito do uso de telas no desenvolvimento infantil.

Com mediação de Fabiana Pirro e Francisco Cunha, o programa é realizado numa parceria entre a Revista Algomais e a TV Tribuna, com direção de Leo Crivellare e produção de Rafael Dantas e Inácio França. A série de debates abrange temas estratégicos para o futuro do Estado. 

Sofie Rogerio Morais Francisco Cunha e Fabiana Pirro

Fabiana PirroPor que é tão importante discutir e investir na primeira infância quando se fala em desenvolvimento, seja de um município, de um estado ou de uma nação?

Sofie Aikman – Nós somos hoje, o que nós fomos desde o início da nossa fecundação na vida uterina com a mãe, ou seja, eu preciso primeiro saber quem foi essa mulher que vai se tornar uma mãe, quem foi esse bebê na vida intrauterina e o que ele foi ao longo da vida. Quando eu digo: nós somos um caminho muito antigo, significa que toda a minha vida tem um impacto para o futuro. Então, quando eu foco na primeira infância, eu estou querendo dizer que uma população só vai ter melhoras, sejam sociais, econômicas, educacionais, quando se olha para sua criança. O que a criança aprende, o que a criança vivencia vai ser espelhado ao longo de toda a sua vida. 

Fabiana Pirro Quando se discute a primeira infância no Brasil, o tema central gira em torno das creches. Como está a situação atual das nossas creches e quais as outras prioridades que devem ser levadas em consideração?

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Rogério Moraes – Então, Fabiana, a gente pode olhar o copo meio cheio e o copo meio vazio. O Brasil é um país continental, um país muito grande e que teve uma largada no desenvolvimento do seu sistema educacional muito atrasado quando comparado a todos os países daqui das Américas, comparando inclusive com Estados Unidos, Canadá que também foram colônias. Nós fomos os últimos a oferecer universidades abertas para todos e sempre fomos um dos piores em cobertura desde o ensino fundamental e também nas creches. A gente acordou muito tarde para isso e esse é o principal fator para termos hoje uma cobertura ainda muito baixa. De cada 10 crianças no Brasil, somente três têm acesso à creche.

Agora, estamos avançando nessa cobertura, mesmo que ainda a passos lentos, nós estamos criando algumas políticas que vem incentivando os gestores públicos a valorizarem mais essa pauta. É tanto que é uma pauta que vem ganhando mais espaço na discussão política a nível nacional, estadual e municipal. Mas eu acho que isso é um capítulo ainda inicial. Nós vamos descobrir que creche, só a creche, não é o suficiente. Então, estamos muito mergulhados nesse capítulo, mas precisamos começar a ver os capítulos que vem adiante. Não é só a creche que vai resolver o desenvolvimento infantil. Há uma série de outros fatores que a gente pode conversar aqui ao longo da nossa conversa que são tão importantes quanto, por exemplo, a família, a interação com a família.

 Francisco Cunha – Eu estava pensando aqui da importância vital da creche, mas me lembrei que uma época eu estava hospedado na frente da praia e acordei de manhã cedo com as crianças gritando. Eu pensei que tinha alguma coisa especial, mas não era. Era o fato de estar num ambiente em que aquilo ali trazia satisfação e as crianças muito contentes gritavam, são gritos assim, são onomatopeias.Mas aí isso me fez concluir, que eu não sei se estou certo, que praça boa é aquela onde as crianças gritam, quando as crianças não gritam a praça não é boa, ou seja, porque não tem os estímulos  necessários para que que haja o desenvolvimento. A minha questão é: tão importante quanto a creche é o espaço público de qualidade? Praças, por exemplo, na primeira infância, são mais importantes que a creche ou ou são complementares? Eu fiquei em dúvida sobre um ambiente mais protegido e um ambiente mais, digamos assim, mais aberto para o lazer.

Pracas

Rogério Moraes – Eu valorizo muito a ciência, valoriza muito o lar, a casa que é onde a criança passa mais tempo. Ela passa oito horas na creche, ela tem um tempo dormindo, as outras 16 horas ela deveria passar em um lar digno e um lar que proporcionasse espaços de lazer, não só dentro desse lar, mas também no território. E aí entra o que você tava falando, eu acho que esse é um ponto inclusive desses próximos capítulos que precisam ainda serem desenvolvidos: a gente precisa pensar mais em espaços de lazer para criança pequena, não só as praças, mas também como os trajetos e os equipamentos públicos que são públicos e naturais das cidades, como a praia que você falou. A praia e as áreas verdes são muito importantes para o desenvolvimento infantil. A gente tem que pensar mais em como criar ambientes onde essa interação possa favorecer esse desenvolvimento infantil, esse brincar livre, que é onde vai vir aí toda essa expressão de energia da criança. E isso é algo que ainda está pouco no imaginário do gestor público, ainda tem pouco repertório.

Eu lembro em uma oportunidade em que a gente trabalhava num plano municipal da primeira infância, eu conversava com um diretor da empresa de limpeza e manutenção urbana. E eu perguntei para ele por que que a gente não tinha mais espaço de lazer para criança pequena. Ele disse: “Porque nunca foi uma diretriz. Para mim é até melhor, porque a manutenção é mais barata, o brinquedo para criança pequena quebra menos do que para criança maior”. Então, é só uma falta de perspectiva, de realmente despertar para esse assunto e ver como isso é importante para a gente poder potencializar, multiplicar esses espaços de desenvolvimento.

Edson Holanda.PCR

Francisco Cunha Qual política pública seria importante e essencial em relação à infância, em especial à primeira infância, para que a gente pudesse vincular isso ao desenvolvimento do Estado? Como é que vocês vêem essa questão da política pública de qualidade para o desenvolvimento considerando a infância? O que é que seria absolutamente indispensável?

Sofia Aikman – Eu queria começar só com uma pequena observação, só complementando a sua pergunta: não há mais dúvida do ponto de vista científico de que o que se investe na primeira infância é o que mais vai dar retorno social a uma cidade, a um estado, a um país, a uma nação. Isso é matematicamente comprovado, inclusive o pesquisador chamado James Heckman ganhou o Prêmio Nobel, ao provar que se uma sociedade investe na primeira infância, ela vai ter um retorno econômico maior do que qualquer outro tipo de investimento.  

Rogério Moraes – Pois é, eu vejo hoje que talvez o secretário de Educação, o secretário de Saúde, o secretário de Assistência Social já colocam a criança no centro do seu planejamento. Nós precisamos que o líder, o governante, seja ele governador, seja ele prefeito, seja ele presidente e, principalmente, seus secretários da Fazenda, de Finanças, de Contabilidade, também acreditem nisso que o James Heckman comprovou matematicamente, econometricamente.

A gente precisa trazer isso para a mesa de discussão do planejamento para que, de fato, se veja num projeto de estado o quanto que isso maximiza os retornos. Por que investimento? Porque aumenta o retorno social, econômico e diminui custos. O Heckman comprovou que se você cuida da saúde de uma criança, depois ela adolescente, adulta, ela vai adoecer menos. Ela vai usar menos o sistema de saúde e isso é menos custo para o estado.

Se a gente cuida da educação dessa criança nos primeiros anos de vida, a trajetória escolar dela tende a ser melhor, ela tem menos chance de reprovar, de evadir, tudo isso é menos custo para o sistema. Até menos encarceramento na vida adulta. O Darcy Ribeiro falava na década de 80 da importância de construirmos mais escolas para não ter que construir mais presídios, atualizando Darcy Ribeiro a gente precisa construir mais creches para não construir mais presídios. 

Darcy Ribeiro II

Então, isso precisa entrar na cabeça do planejador, de fato. Vendo em uma perspectiva de estado, porque esse retorno é a longo prazo. Essa é outra barreira. O retorno não vai vir dentro da mesma gestão. Mas ela vai vir, se a gente pensar no longo, longuíssimo prazo. O que a gente vive hoje no estado, é consequência não dos 10 últimos anos, dos 20, 50, mas 100 anos. 

Sofia Aikman – E tem uma coisa que eu queria aproveitar a tua deixa, porque é o seguinte, durante muito tempo, a criança ou a infância foi pouco valorizada. Lembrando de um ditado que a gente diz: “A criança não tem voz e não tem voto hoje”. Portanto, não tem vez. Mas terá. E é como você diz: um gestor que pensa a longo prazo, ele não vai ter nenhuma dúvida da importância dessa valorização da infância. 

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Rogério Moraes – Uma vez valorizando, uma vez colocando no centro o processo e entendendo que isso que é que maximiza retorno econômico, social, e oferece menos custo para o estado, a gente passa a ver a necessidade de investir mais, nessa qualidade de vida da criança no começo da vida.

Então, educação, sem dúvida alguma, é expansão de creche, mas olhando também para qualidade e para todas as outras áreas de vida de uma criança. Por exemplo, a gente tinha poucas maternidades aqui no Estado, né? Havia muita maternidade concentrada na região metropolitana. E os primeiros dias de vida são muito importantes, a saúde da mãe é muito importante. 

A gente também precisa olhar para habitação, né? Como estão sendo construídos os habitacionais aqui no Estado? Como é que estão as áreas de lazer, o acesso à cultura da criança? Tudo isso precisa ser fortalecido, precisa ser investido para a gente poder, mais na frente, transformar nosso Estado. Eu costumo dizer também o seguinte, Francisco: não é só uma política que vai ser bala de prata. Sobral, no Ceará, é referência em alfabetização na educação básica e há 30 anos entregam uma educação de qualidade e é a melhor educação pública do País. E Sobral continua com o mesmo nível de violência que tinha há bem pouco tempo atrás, não muito diferente da média aqui do Nordeste. Por quê? Porque não é só a educação que vai resolver. A gente precisa ter uma visão integral. A gente precisa olhar para a saúde, a gente precisa olhar para habitação, a gente precisa olhar para a assistência social.

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Fabiana PirroSofie, quais os principais prejuízos observados quando as creches não conseguem cumprir seu papel fundamental? 

Sofie Aikman – A criança tem muitas necessidades. E se a gente falar de uma forma mais rápida, uma creche precisa ser um ambiente seguro, ser um ambiente que tenha uma boa qualidade de nutrição e de higiene, mas também ser um ambiente de estimulação. A criança, especialmente a pequena, precisa de uma relação muito próxima. Então, eu não posso ter uma creche que tenha uma pessoa para cuidar de 10 crianças e esperar que além dos cuidados básicos ela a estimule. Quando a criança fica quatro ou seis horas no ambiente da creche e você tira ainda o tempo que ela fica dormindo, é, a proporção desse tempo é muito importante para o tempo útil da vida de uma criança.

Porque o cérebro da criança pequena produz 700 a mil sinapses que são ligações de células nervosas por segundo. Então, o cérebro de um bebê está explodindo de informações, de conexões. Inclusive, algumas delas nem serão úteis, elas serão descartadas posteriormente, mas ela precisa ter uma quantidade muito grande de informação. Quando isso não acontece adequadamente, seja pela creche, seja pela família, a criança perde oportunidades que talvez ela não possa recuperar nunca.

Telas II

Fabiana Pirro O tempo de tela tem sido um fator preocupante no desenvolvimento cognitivo das crianças. Todos nós sabemos. Então, qual o tamanho desse impacto e quais as possíveis soluções?

Sofia Aikman – Tela é para ser zerada até 2 anos, nessa idade, a criança não deve ser exposta à tela. E nós  chamamos isso de dieta midiática. Existe um um tempo ideal, até 6 anos, no máximo uma hora, de 6 a 10, duas horas, na adolescência, no máximo são 3 horas, evitando a geração do bunker, né? Porque eles entram nos seus quartos e se trancam com suas telas, lembrando que um ambiente virtual nunca é privado, porque o adolescente usa muito o argumento: “eu preciso da minha privacidade”. Então, a regra é: no mundo virtual não existe privacidade. 

Mas, para além dos problemas futuros, na primeira infância, o uso da tela e, principalmente, o uso excessivo, rouba da criança toda oportunidade de estimular a vida real. E tem um outro pequeno detalhe, a questão da repercussão cognitiva, da inteligência. A criança fica menos inteligente. Mas para muito além disso, tem ainda a questão emocional. Nós temos hoje bebês que mostram síndrome de abstinência, que ficam extremamente irritadas quando tem o seu instrumento, a sua tela retida. Então, são várias camadas e mais uma vez a importância da família. Obviamente, as creches não deviam ter telas,  mas também os pais precisam ser educados e dados a eles, a possibilidade de fazer outra coisa com seus filhos. Então, qual seria a solução? 

Eu vou dizer de uma forma muito simples. Pensem muitas vezes antes de querer ter filhos, porque se vocês o tiverem, precisam modificar a sua vida para que essa criança tenha uma infância protegida e estimulada. Então, criança precisa do nosso tempo, criança precisa do nosso olhar, criança precisa do nosso toque, da nossa presença e nenhuma maquininha substitui isso. Nenhuma tela substitui a presença. 

Livros

Rogério Moraes – Quando a criança está na tela, principalmente nesses primeiros anos de vida, ela fica muito passiva, fica só recebendo o conteúdo. Então, ela não repete, ela não fala, ela não conversa, ela não interage. E aí, ela muitas vezes diminui a quantidade de palavras que ela tem em contato. [O mesmo ocorre] quando os pais, em contrapartida, não conversam, não contam historinhas, o contar histórias é fundamental. 

Qual é o antídoto das telas? É o livro. Para mim, política pública é entregar livros na casa das famílias. A gente já tem o livro nas creches, quando existe creche. Agora a gente tem que entregar o livro na casa das famílias. Às vezes, quando pode ter o hábito, mas também não consegue ter o acesso ao livro, a gente precisa entregar o livro na casa das famílias. Quando a gente diz desenvolver o hábito de contato com o livro, o livro brinquedo, a contação de história que gera um vínculo com esse pai, com essa mãe, ele começa a trocar, ele começa a valorizar, ele começa a querer mais o livro e menos a tela.

 Tem um autor francês que disse o seguinte: “Olha, a primeira desigualdade é a desigualdade da linguagem”. As crianças que têm um contexto familiar que escutam menos palavras, menos histórias. O que é que acontece? Ela desenvolve menos vocabulário, ela tem mais dificuldade no processo de alfabetização, ela tem toda a trajetória escolar mais difícil, com mais adversidades. Então, a primeira desigualdade é a da linguagem, depois vem a desigualdade na aprendizagem, a desigualdade de renda. Se a gente quiser combater a desigualdade, a gente precisa investir nesse começo da vida, a gente precisa investir no combate à tela, a gente precisa investir no livro, na lei.

Foto.Rodolfo Loepert.PCR

Fabiana PirroSe vocês tivessem que escolher um investimento urgente para beneficiar as crianças pequenas de Pernambuco, que estão nos berçários, nas creches ou até mesmo na barriga das mães, qual seria esse investimento? 

Sofia Aikman – Bom, como uma pessoa da área da saúde, eu investiria na saúde e especialmente a da mulher que se tornará uma mãe.  Então, por exemplo, diminuir a frequência muito elevada de gestação na adolescente, investir na qualidade do pré-natal, porque hoje a gente tem o pré-natal obrigatório, mas tem uma qualidade ainda muito baixa, e investir no aleitamento materno, que tem não só um componente nutricional, mas afetivo, relacional. Eu pensaria profilaticamente daqui para frente.

Rogério Moraes –  Aumentar o investimento, não é gasto, o investimento na assistência social, no fortalecimento de vínculos, em programas de parentalidade, ou seja, de orientação às famílias sobre como cuidar melhor desses bebês, dessas crianças pequenas. Somente assim é que a gente vai conseguir chegar no ponto mais crítico, onde mais precisa, a quem mais precisa e conseguir produzir uma política que combata a desigualdade combinando com o que já vem andando, no que a gente falou aqui hoje, creche, etc. 

Francisco Cunha – Eu diria que a experiência exitosa do Recife em relação às praças da infância deveria ser uma transformação em política pública para o estado todo. Porque a qualidade do que se vê nas praças hoje e o grito das crianças deveriam ser um padrão do litoral ao São Francisco, inclusive para que o verde fosse um elemento essencial da formação dessa base indispensável para o futuro das pessoas e o futuro do Estado.

Francisco Cunha e Fabiana Pirro
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