"A afetividade é um pilar muito forte que norteia o trabalho pedagógico  do Colégio Madre de Deus."
Christiana Cruz

Com 53 anos de história, o Colégio Madre de Deus consolida um modelo de empresa familiar na educação, combinando tradição pedagógica, gestão profissionalizada e formação integral de alunos. O colégio constrói uma trajetória educacional que ultrapassa o ambiente escolar e se insere na própria história de muitas famílias pernambucanas. Fundada pela educadora Marlúcia Sá, a instituição nasceu com a proposta de oferecer uma abordagem pedagógica diferenciada, inspirada nos princípios da educadora italiana Maria Montessori, valorizando a individualidade da criança, a afetividade no processo de aprendizagem e o respeito ao ritmo de cada estudante.

 Hoje, a escola segue sendo conduzida pela família fundadora. A direção é compartilhada entre Christiana Cruz e seu irmão, Gerez Figueiredo, enquanto a terceira geração já começa a se integrar à rotina da instituição. Nesse percurso, o colégio se expandiu para quatro unidades e passou a oferecer serviços da educação infantil ao ensino médio. 

 Em entrevista concedida a Larissa Aguiar, Christiana Cruz reflete sobre o desafio de administrar uma empresa familiar no setor educacional, fala sobre sucessão, profissionalização da gestão e os caminhos para manter a identidade pedagógica em um mercado cada vez mais competitivo.

Como surgiu o Colégio Madre de Deus e qual era o propósito inicial da instituição?

Colégio Madre de Deus

O Madre de Deus surgiu há 53 anos a partir da inquietação da sua fundadora, Marlúcia Sá, que desejava construir uma proposta educacional diferente daquela que predominava nas escolas da época. O projeto nasceu de uma convicção muito clara: era possível educar de outra forma, com mais atenção ao desenvolvimento da criança, ao vínculo afetivo e à construção de um ambiente de aprendizagem mais humano. Foi a partir dessa visão que começou a ser estruturado o que viria a se tornar o Colégio Madre de Deus.

No início, a escola foi pensada como um espaço onde o processo educativo respeitasse o tempo e a individualidade de cada aluno. Inspirada pela metodologia desenvolvida por Maria Montessori, Marlúcia Sá buscou criar um ambiente pedagógico que valorizasse a autonomia da criança e estimulasse a curiosidade natural pelo aprendizado. A abordagem montessoriana foi escolhida justamente por trazer uma perspectiva inovadora para aquele momento histórico, ao reconhecer a criança como protagonista do próprio desenvolvimento e não apenas como receptora de conteúdos.

Maria Montessori, que foi a primeira mulher italiana a se tornar médica, desenvolveu sua metodologia a partir de observações científicas sobre o comportamento e o processo de aprendizagem infantil. Ao perceber que as crianças aprendiam melhor em ambientes preparados e estimulantes, ela propôs uma reorganização da própria estrutura da sala de aula, com mobiliário adaptado à altura das crianças e atividades que incentivavam a exploração, a autonomia e a concentração. Esses princípios serviram como inspiração direta para a construção do projeto pedagógico do Madre de Deus.

Assim, desde sua origem, a escola foi pensada como um espaço em que o cuidado com a formação humana caminhasse junto com o desenvolvimento acadêmico. O objetivo não era apenas transmitir conteúdos, mas formar crianças capazes de pensar, se expressar e desenvolver suas potencialidades. Esse olhar atento para o aluno e para suas particularidades marcou profundamente os primeiros passos da instituição e ajudou a consolidar sua identidade educacional.

Com o passar dos anos, a escola cresceu e ampliou sua atuação mas manteve os fundamentos que deram origem ao projeto inicial. A proposta montessoriana continuou sendo uma referência importante, ainda que novas abordagens pedagógicas tenham sido incorporadas ao longo do tempo. Mesmo diante das transformações do mundo contemporâneo, como as mudanças tecnológicas e as novas demandas educacionais, o princípio que orientou a criação do colégio permanece vivo: oferecer uma educação que respeite a individualidade da criança, valorize a afetividade e contribua para a formação integral de cada aluno.

Quais foram os maiores desafios enfrentados pela família nos primeiros anos da escola?

Fundadora Marlúcia Sá

Todo começo é desafiador. Construir uma escola com uma proposta pedagógica diferenciada exige coragem e muita dedicação. O primeiro grande desafio foi consolidar a metodologia e mostrar às famílias que aquele modelo de educação faria diferença na formação das crianças. A base do nosso trabalho sempre foi acreditar que cada aluno é único. Quando se parte desse princípio, o compromisso se torna ainda maior porque a escola precisa oferecer um ambiente que respeite essas singularidades.

 Com o tempo, os alicerces da instituição foram se fortalecendo. O trabalho pedagógico consistente de excelência e resultados foi gerando confiança nas famílias e permitindo que a escola crescesse. Hoje temos quatro unidades e continuamos enfrentando desafios porque as crianças e as famílias mudaram muito ao longo dessas cinco décadas.

Em empresas familiares, valores e princípios costumam atravessar gerações. Quais são os pilares inegociáveis da gestão do colégio?

 Os valores são absolutamente inegociáveis. O respeito é um deles. Respeito ao aluno, à família, aos professores e à singularidade de cada pessoa que convive dentro da escola. É a partir desse princípio que se constrói um ambiente de confiança, diálogo e formação, no qual cada estudante é incentivado a desenvolver seu potencial e crescer com responsabilidade, caráter e compromisso com o outro.

 Esses valores também vêm do contexto familiar que deu origem à instituição. Nós fomos criados dentro desse ambiente e absorvemos naturalmente esses princípios. A educação não se faz apenas com conteúdo acadêmico mas, também, com formação humana.

 Por isso, a afetividade é um pilar muito forte aqui dentro. Maria Montessori dizia que todo conhecimento passa primeiro pelo coração. Essa ideia continua extremamente atual e norteia nosso trabalho pedagógico.

 Quando os valores são sólidos, a instituição consegue se adaptar às mudanças sem perder sua identidade. Ao longo dos 53 anos, fomos incorporando novas práticas pedagógicas, tecnologias e metodologias. Hoje trabalhamos com metodologias ativas e com recursos que refletem o mundo contemporâneo. Mas a essência permanece a mesma. Tradição não significa resistência à mudança. Pelo contrário, significa ter clareza de quem você é para poder evoluir de forma consistente.

Além disso, por ser familiar, o Madre tem alma, essência e pertencimento aos valores culturais da nossa terra. A educação tem um impacto enorme na sociedade. Quando uma escola trabalha com responsabilidade, ela ajuda a formar cidadãos que vão contribuir para o desenvolvimento da cidade.Ter uma família à frente do projeto Madre de Deus possibilita valores palpáveis, acompanhamento constante e decisões realmente tomadas, pensando em nossas famílias.

 Também realizamos projetos sociais e ambientais. Temos campanhas permanentes de arrecadação e ações voltadas para comunidades próximas às nossas unidades. Os alunos participam ativamente dessas iniciativas, aprendendo desde cedo sobre solidariedade e responsabilidade social.

De que forma a presença da família na gestão impacta a cultura organizacional da escola?

Marlúcia Sá e filhos, Gerez Figueredo e Christiana Cruz

Impacta muito por meio do exemplo. Eu e meu irmão crescemos dentro da escola. Não foi apenas nosso primeiro trabalho; foi parte da nossa vida desde sempre. Quando você vive a instituição desde cedo, absorve sua essência de forma muito profunda. Essa vivência se reflete na maneira como conduzimos a gestão e na forma como nos relacionamos com professores, alunos e famílias. Esse ambiente cria uma cultura organizacional baseada em pertencimento e responsabilidade.

A relação entre a família dos alunos e a escola parece ser central no projeto pedagógico. Como isso se manifesta no cotidiano?

Educação sem família simplesmente não existe. Escola e família precisam caminhar juntas o tempo todo. É claro que existem momentos específicos de celebração, como Dia das Mães ou dos Pais, mas o relacionamento com as famílias acontece diariamente. Dependendo das necessidades da criança, essa proximidade pode ser ainda maior. Existem alunos que enfrentam desafios específicos e, nesses casos, a parceria com a família é fundamental para encontrar caminhos que permitam o desenvolvimento pleno daquela criança.

Quais momentos da trajetória do colégio representaram mudanças decisivas na administração ou no projeto pedagógico?

A expansão da escola foi um momento importante, porque exigiu reorganização administrativa e planejamento estratégico. Crescer exige estrutura, formação de equipes e profissionalização da gestão.

 Outro momento significativo foi a incorporação de novas metodologias pedagógicas ao longo dos anos. Cada geração de alunos traz novas demandas, e a escola precisa acompanhar essas transformações. A criança de 53 anos atrás é muito diferente da criança de hoje, assim como a família também mudou. Adaptar-se a essas mudanças é essencial.

Como a escola lida com a sucessão familiar?

A sucessão é um processo que precisa ser conduzido com muita responsabilidade, planejamento e consciência do papel que a escola desempenha na formação de tantas gerações de alunos. Hoje, a terceira geração da família já está inserida no cotidiano do colégio, participando das atividades institucionais, acompanhando projetos pedagógicos e administrativos e, gradualmente, compreendendo o funcionamento da escola em suas diferentes dimensões. Esse processo acontece de forma progressiva, permitindo que os mais jovens vivenciem a rotina educacional e assimilem os valores que sempre orientaram a instituição.

Essa nova geração tem sido preparada principalmente por meio da convivência diária com a realidade da escola e pela observação direta da gestão, que hoje é conduzida pela segunda geração da família. Assim como aconteceu anteriormente, o aprendizado não se restringe apenas ao aspecto administrativo: ele envolve compreender a essência do projeto pedagógico, o relacionamento com alunos, famílias e professores e o compromisso ético que sustenta o trabalho educacional.

No entanto, há um princípio muito claro dentro da instituição: o vínculo familiar, por si só, não é suficiente para assumir responsabilidades estratégicas. A formação acadêmica sólida, a qualificação profissional e a experiência no campo educacional são fatores considerados indispensáveis. A família entende que a continuidade do projeto educacional depende de competência técnica, preparo intelectual e visão de gestão.

Esse equilíbrio entre tradição e profissionalização é fundamental para garantir que o legado construído ao longo de mais de cinco décadas continue evoluindo. Ao mesmo tempo em que preserva os valores que deram origem à escola, o processo de sucessão busca preparar novas lideranças capazes de conduzir a instituição diante dos desafios contemporâneos da educação. Dessa forma, a sucessão deixa de ser apenas uma continuidade familiar e passa a ser também um compromisso com a qualidade do ensino e com o futuro da comunidade escolar.

O mercado educacional mudou muito nas últimas décadas. Quais adaptações foram essenciais para manter a competitividade?

Marlúcia Sá e alunos do Colégio Madre de Deus

A principal adaptação foi compreender que o aluno de hoje aprende de forma diferente. As tecnologias, as novas linguagens e as transformações sociais mudaram completamente o cenário educacional. Por isso, trabalhamos com metodologias ativas, estimulamos pensamento crítico e desenvolvemos habilidades socioemocionais. Mas sempre mantendo o foco na formação integral do estudante.

Nossa maior meta é formar cidadãos preparados para o mundo. Não queremos apenas alunos aprovados em exames como o Enem. Claro que as aprovações são importantes e temos alunos em universidades de Pernambuco, do Brasil e do exterior. Mas nossa preocupação principal é formar pessoas completas. Queremos que cada estudante descubra seu caminho, seja ele acadêmico, artístico, esportivo ou profissional, sempre buscando a excelência do que fazem.

Como a instituição enxerga o uso de aparelhos eletrônicos dentro do ambiente escolar?

Muito antes de o debate ganhar força no campo educacional e até mesmo no âmbito das legislações, o Madre de Deus já priorizava a valorização do ambiente analógico dentro da sala de aula. Entendemos que a aprendizagem, especialmente na infância e na adolescência, depende de experiências que favoreçam a concentração, a interação humana e o desenvolvimento do pensamento de forma mais profunda. Por isso, buscamos preservar um espaço pedagógico de modo que o foco esteja no diálogo, na observação, na experimentação e nas relações construídas no cotidiano escolar, elementos fundamentais para o desenvolvimento cognitivo e socioemocional dos alunos.

Isso não significa negar a importância da tecnologia, que reconhecemos como uma ferramenta potente quando utilizada com intencionalidade pedagógica e mediação do educador. No entanto, o celular apresenta uma dinâmica diferente, marcada por um fluxo constante de estímulos, notificações e informações que podem comprometer a atenção e a qualidade do processo de aprendizagem. Por isso, onde muitos veem apenas um aparelho, a escola enxerga um desafio relacionado à maturidade cognitiva e emocional dos estudantes, que precisa ser gerido com responsabilidade e equilíbrio dentro do ambiente escolar.

Quais práticas pedagógicas diferenciam a escola?

 Um dos diferenciais é o olhar individualizado para cada aluno. Nós realmente procuramos compreender quem é aquela criança e aquele jovem e quais são suas necessidades. Temos também atividades que fazem parte da cultura da escola há muito tempo, como o ensino do xadrez. Todo aluno aprende a jogar até o quinto ano porque o jogo desenvolve estratégia, concentração e raciocínio lógico.

 Além disso, investimos em musicalização e em um programa socioemocional próprio que ajuda as crianças a compreender e expressar seus sentimentos, além dos programas bilíngue e high school.

Como a escola trabalha a inclusão e o atendimento a alunos neurodivergentes?

 Temos uma equipe preparada para acompanhar essas crianças. Contamos com coordenação pedagógica especializada e profissionais capacitados para identificar e acompanhar diferentes necessidades de aprendizagem de acordo com padrões legais e concordância com a nossa proposta de resultados e excelência. O objetivo é garantir que cada aluno tenha as condições necessárias para desenvolver seu potencial.

 A escola também mantém atividades religiosas?

Sim, mas sempre respeitando a diversidade das famílias. Temos alunos de diferentes crenças. Oferecemos catequese e crisma para aqueles que desejam e realizamos atividades religiosas em momentos especiais, como aniversários da escola ou celebrações importantes. 

Qual legado a família deseja deixar para as próximas gerações de alunos?

Alunos do colégio Madre de Deus

O maior legado que desejamos construir está diretamente ligado à formação humana. Mais do que transmitir conteúdos acadêmicos ou preparar estudantes para provas e exames, buscamos contribuir para a formação de pessoas conscientes, sensíveis e comprometidas com o mundo em que vivem. Queremos que nossos alunos levem consigo valores sólidos, como respeito, empatia, responsabilidade e senso de coletividade, princípios que façam diferença não apenas em suas trajetórias pessoais e profissionais mas, também, na forma como se relacionam com a sociedade.

 Educar é, acima de tudo, assumir uma responsabilidade muito grande. Cada criança que passa pela escola vive experiências que marcam profundamente sua construção como indivíduo. O ambiente escolar, os vínculos que são estabelecidos, as aprendizagens e os valores compartilhados acabam se tornando referências que acompanham essas pessoas ao longo de toda a vida. Por isso, acreditamos que cada etapa da formação precisa ser conduzida com cuidado, atenção e compromisso, pois cada aluno carrega consigo um pouco dessa vivência e dessa história para o resto da vida.

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