O setor se espalhou por muros, camisas e redes pelo Estado, deixando famílias endividadas, poucos empregos e lucros que vão para fora de Pernambuco.
*Por Assíria Florêncio
O endividamento em Pernambuco saltou de 43,57% para 50,91% nos últimos três anos, segundo dados do Serasa. O período corresponde ao intervalo entre a regulamentação das Bets, em dezembro de 2023, e a recente proibição. Além do índice de devedores, que cresceu 7 pontos porcentuais, aumentou também a quantidade das chamadas “bets legalizadas” no Estado. Das 188 autorizadas no país, 13 marcas estão associadas a cinco CNPJs registrados em Pernambuco que só fica atrás do Piauí, também com cinco CNPJs, mas com 14 marcas relacionadas.
Essas empresas se tornaram onipresentes. Os nomes saíram do digital e estamparam muros, faixas no Carnaval e no São João, uniformes de clubes de futebol e festivais. Ocuparam espaços exponencialmente maiores em propagandas nas redes sociais, em sites de notícias, na televisão e nas emissoras digitais emergentes. Isso sem contar no apelo fomentado pelos criadores de conteúdos e influencers com contratos milionários.

Apesar da escassez de dados que permitam quantificar com precisão o impacto das bets sobre a economia pernambucana, tal fator não significa “ausência de evidências visíveis e possíveis analogias sobre seus efeitos econômicos”, como explica o economista e professor da Universidade de Pernambuco, Sandro Prado.
A bet
No ano passado, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as bets, aponta o Boletim Fiscal dos Estados elaborado pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), divulgado no início de setembro. O valor, movimentado entre outubro de 2024 e março de 2026, equivale a uma média de R$ 4,7 bilhões por mês. Só em janeiro de 2025, cinco bilhões de beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3,7 bilhões para as contas das casas de apostas, divulgou o Tribunal de Contas da União (TCU).
A grande participação de famílias beneficiárias de programas sociais nas apostas, demonstra que o fenômeno alcança, “e muito, grupos de menor renda”, continua o economista. “Também há evidências de associação entre apostas e maior inadimplência, maior comprometimento financeiro e deterioração das condições de crédito. Dessa forma fica evidente que as apostas ultrapassaram o universo do entretenimento e passaram a produzir efeitos sobre o orçamento, saúde financeira e deterioração psicossocial das famílias brasileiras e pernambucanas.”

Pernambuco está exposto aos mesmos mecanismos econômicos identificados e estudados nacionalmente, afirma Prado. “Nós estamos falando de um problema econômico que afeta uma parcela significativa da população de baixa renda e dependente de políticas de transferência de renda” , afirmou Sandro.
Esse comprometimento da renda também é percebido pelo comércio. Para o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) do Recife, Fred Leal, o impacto das apostas não se concentra em um segmento específico, mas se espalha pelo consumo das famílias. “Não é que quem compra sapato deixa de comprar sapato. Nem que quem compra roupa deixa de comprar roupa. O que acontece é que as pessoas comprimem sua renda e se endividam para jogar. Elas deixam de consumir.” Segundo ele, a redução alcança o comércio como um todo. A alimentação tende a ser menos afetada por estar na base da pirâmide do consumo, mas também acaba comprimida quando parte da renda familiar é destinada às apostas.

O vício
Joaquim (nome fictício) conta que começou a jogar “às vezes”. Apostava em uma partida de futebol aqui, outra ali. Perdia e ganhava, mas nada que comprometesse seu dia a dia. Tudo começou a mudar quando, no início deste ano, passou a utilizar cassinos online com jogos similares ao “Tigrinho”. Acordar no meio da noite para jogar, segundo ele, foi o de menos. Durante dois meses, Joaquim deixou de pagar a parcela do carro financiado.
Dono de um pequeno estabelecimento na periferia de Jaboatão, Região Metropolitana do Recife, ele precisava administrar o aluguel do ponto, o pagamento do funcionário, a compra dos insumos, fazer caixa e tirar o próprio lucro. A organização mensal de casa ficou comprometida. Entre alimentar a si mesmo, a esposa e o filho no início da idade escolar e pagar a parcela do carro adquirido a muito custo, a adimplência do automóvel foi sacrificada. Ao perceber que colocava em risco o que vinha construindo desde 2018, decidiu parar. Recuperou parte do prejuízo e jura: “aprendi a lição”.

Esse vício, chamado de ludopatia, é visto pelo advogado, filósofo e presidente do Instituto Brasileiro de Finanças Digitais, Rodrigo de Abreu Pinto, como uma “consequência do atraso”. Durante mais de cinco anos, o setor operou sem uma regulamentação específica. Ele explica que anteriormente existia apenas a exigência de uma autorização. “Então, empresas foram constituídas, principalmente no exterior, porque ainda não se tinha a obrigação de que fossem constituídas no Brasil, com o fim de explorar”, explica.
Rodrigo de Abreu Pinto considera que durante essa janela muitos dos problemas que a gente enfrenta hoje nasceram desse momento. “Quando a regulamentação chegou em 2023, ela já estava lidando com um problema muito maior do que deveria. Se tivéssemos sido mais conscientes e erguido o arcabouço regulatório, não tenho dúvidas de que os problemas de hoje, tanto do ponto de vista econômico, com o endividamento da população, quanto do ponto de vista de saúde pública, com o vício em apostas, não existiriam em igual medida”, detalhou.

Para quem enfrenta situação semelhante à de Joaquim, o Procon-PE mantém o Núcleo de Apoio aos Superendividados (NAS), com equipe multidisciplinar de orientação financeira, jurídica e psicossocial. O serviço gratuito auxilia na renegociação de dívidas, com base na Lei do Superendividamento (14.181/2021) e, também, acolhe consumidores com uso excessivo ou compulsivo de apostas. O atendimento é na sede do órgão, no Centro do Recife.
A partir do fim outubro, mês em que acaba o prazo para o encerramento das operações das bets, uma unidade móvel, em parceria com a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), levará a equipe a municípios do interior do Estado. Quando necessário, os casos também podem ser encaminhados à Defensoria Pública de Pernambuco.
Ambiente incentivou vinda das Bets
Pernambuco, explica Sandro Prado, tornou-se um território relevante para as empresas de apostas por uma combinação de fatores regulatórios, tributários e de infraestrutura empresarial.
Para compreender esse fenômeno, o economista cita a redução, em 2025, do Imposto Sobre Serviço (ISS) incidente sobre serviços relacionados às apostas: a alíquota passou de 5% para 2% na capital pernambucana. “A justificativa do projeto declarou que a medida tinha como objetivo atrair empresas de apostas por quota fixa e ampliar a arrecadação com a permanência dessas empresas.
Além do incentivo tributário, a disponibilidade de mão de obra qualificada na área de tecnologia e a força do ecossistema digital pernambucano contribuíram para tornar o Estado atrativo às empresas do segmento. “E como Pernambuco possui mão de obra qualificada, um ecossistema digital de relevância nacional, um mercado consumidor expressivo e uma forte presença do futebol e do entretenimento, segmentos nos quais as bets investiram pesadamente em publicidade, propaganda e patrocínio, o resultado foi a formação de um ambiente muito favorável à expansão desse mercado”.
Ganho para poucos
Apesar dessa disponibilidade de mão de obra qualificada, no final das contas, são poucos os funcionários que trabalham nessas empresas. Segundo o presidente do Instituto Brasileiro de Finanças Digitais, uma média de 20 empregados. Por ser um setor alicerçado em tecnologia e em plataformas virtuais, tende a gerar poucos empregos, número que pode ser ligeiramente maior a depender do porte da casa de apostas.
Esse fator é, inclusive, um dos argumentos para quem é a favor da proibição da atividade. “O impacto ‘positivo’ das bets na economia é muito restrito, seja em razão da pequena geração de emprego, seja em razão de acabar redirecionando verbas que iriam para outro setor e ficam canalizadas ali”, cita o advogado.
Segundo o Boletim do Comsefaz, a regulamentação das bets foi acompanhada por um forte crescimento das transferências via Pix de pessoas físicas para empresas classificadas no segmento de “artes, cultura, esporte e recreação”. A análise estima que, entre outubro de 2024 e março de 2026, as apostas responderam por uma transferência líquida média de R$ 4,7 bilhões por mês das famílias para o setor. De acordo com o relatório, esse montante representa uma “transferência expressiva de renda das famílias”, com potencial de afetar sua capacidade de honrar compromissos financeiros.

E os danos, que recaem principalmente sobre as pessoas físicas, não ficam restritos a elas. O dinheiro localmente injetado neste setor não necessariamente retornará às empresas locais. Muito do lucro vai para fora, inclusive no futebol, um dos grandes beneficiários do advento.
A diferença de escala aparece nos contratos de patrocínio. Enquanto uma bet pernambucana firmou com o Corinthians um acordo que previa aporte de R$ 200 milhões por ano, a mesma empresa destinou cerca de R$ 6 milhões ao Náutico, além dos recursos envolvidos no acordo de naming rights. Outros clubes pernambucanos também fecharam contratos com empresas de apostas, mas em patamares bem inferiores ao acordo do clube paulista. No Sport, outra bet firmou um contrato de R$ 22 milhões. Já o Santa Cruz teve uma terceira empresa do segmento como patrocinadora master, mas o valor do acordo nunca foi divulgado.
A proibição das bets, e consequentemente desses contratos, leva os clubes a um novo cenário crítico ao futebol. Ainda em setembro, o Governo Estadual se reuniu com a Federação Pernambucana de Futebol (FPF) e com os representantes dos clubes locais. A governadora Raquel Lyra, reeleita no 1º turno das Eleições Gerais de 2026, prometeu estudar medidas para apoiar os times pernambucanos, “que são maiores que as bets”. Procurados, os três clubes de maior pujança no Estado afirmaram que, por ora, não vão comentar o assunto.

Quem perde
Entende-se, no final das contas, que as casas de aposta têm um efeito muito negativo sobre a atividade econômica, com exceção de alguns setores, explica Abreu. “Na verdade, somente uma área específica da economia ganhou muito nesse período. Estima-se que cerca de 15% a 20% das receitas do futebol, seja de patrocínio aos clubes diretamente ou às competições, vem das bets”, afirmou. “Infelizmente, com o restante da economia, o efeito não é positivo”, detalha.
O economista Sandro Prado argumenta ainda que o desafio não é “simplesmente” substituir as bets por outra fonte de dinheiro de uma hora para outra, mas reduzir a dependência criada em torno delas, de forma gradual. Em Pernambuco, as bets financiam propaganda, publicidade, clubes, eventos, atividades culturais, influenciadores digitais e outras atividades. “Novas estratégias para captar receita serão necessárias. Não podemos transformar o Estado em financiador desses eventos de forma definitiva. Podemos estimar a perda de receita e criar mecanismos temporários de substituição. O objetivo deveria ser trocar uma fonte de receita de alto risco social por um modelo mais diversificado e sustentável”, finaliza.
O prejuízo a algumas centenas de CNPJs, no entanto, fica pequeno em comparação a conta deixada aos milhões de CPFs. Além de gerar poucos empregos e serem um dos fatores do endividamento, as bets sugam da população verbas que seriam naturalmente direcionadas para outros setores, como o varejista. “Quando se tem a divulgação dos dados do Banco Central de que, em média, o brasileiro apostava R$ 20 bilhões por mês; e que, dos R$ 14 bilhões destinados ao Bolsa Família, R$ 4 bilhões iam para apostas, o setor varejista vem a público no mesmo momento denunciar isso”, continua Rodrigo.
A proibição da prática, porém, abre margem para o mercado ilegal. Os mecanismos de proteção ao apostador se desvanecem junto com o mercado regulado. A previsão do Instituto Brasileiro de Finanças Digitais é de que eles recorram ao meio clandestino, que deve crescer. “Nem toda a consequência positiva que a gente imagina vai vir nessa proibição. Muitas pessoas continuarão apostando nesse mercado ilegal”, completa.
Até o início de outubro, a consulta pública do Senado sobre a proibição da exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de loterias de apostas de quota fixa no território nacional ultrapassava meio milhão de votos. Destes, 480 mil são a favor da MP elaborada pelo Governo Lula.
Pernambuco chega ao fim desta era com uma conta que vai além das empresas de apostas. A proibição pode reduzir parte dos impactos econômicos e sociais associados às bets, mas também traz um novo desafio: impedir que os apostadores migrem para plataformas clandestinas. Ao mesmo tempo, clubes e outros setores que se tornaram dependentes desse dinheiro terão de buscar novas fontes de receita. No fim, mais importante do que decidir quem ganhou ou perdeu com as bets será evitar que a conta continue recaindo sobre quem apostou e sobre a economia pernambucana.
*Assíria Florêncio é jornalista
