Depois de “incendiar” o Festival de Cannes, ao levar o frevo para o tapete vermelho, Guerreiros do Passo ganhou os jornais e as redes sociais ao redor do mundo, recebeu o título de Patrimônio Cultural do Recife e convite para apresentação no Louvre. Apesar do sucesso, Eduardo Araújo ressalva que enfrenta desafios para divulgar e manter a tradição do ritmo pernambucano.
A frase, dita com a serenidade de quem sabe que o trabalho é lento, exige paciência e só dá frutos com persistência diária, sintetiza bem a trajetória do Guerreiros do Passo, coletivo de dança fundado no Recife em 2005 e que, quase duas décadas depois, se consolidou como uma das principais referências na salvaguarda e na reinvenção do frevo de rua. Formado inicialmente a partir de um projeto desenvolvido na Praça do Hipódromo, no bairro de Campo Grande, o grupo foi, aos poucos, construindo uma estética própria e reconhecível, marcada por figurinos, sombrinhas grandes e uma coreografia que procura dialogar com imagens antigas do Carnaval das décadas de 1930 e 1940, recuperando gestos, posturas e atmosferas que remetem a outras épocas da festa.
O reconhecimento internacional, impulsionado pela participação no filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, exibido no Festival de Cannes, projetou o Guerreiros do Passo para além das fronteiras do Estado e do País, abrindo novas portas. Depois disso, vieram homenagens oficiais, convites para festivais, apresentações em palcos fora do Brasil, exibições em museus europeus e a construção de um novo lugar simbólico no imaginário cultural recifense, onde o coletivo passou a ser visto como representante de uma tradição profundamente ligada à cidade. No entanto, por trás do brilho dos holofotes e das imagens que circularam pelo mundo, continuam presentes os desafios estruturais que atravessam a cena cultural pernambucana: a instabilidade das políticas públicas, a dependência constante de editais, a sazonalidade imposta pelo calendário do Carnaval e a luta cotidiana para manter projetos de formação, pesquisa e difusão ativos ao longo de todo o ano.
Na entrevista concedida a Larissa Aguiar, um dos fundadores do grupo, Eduardo Araújo revisita as origens do Guerreiros do Passo, comenta com detalhes a experiência em Cannes, explica o trabalho de pesquisa histórica que sustenta as criações coreográficas e reflete sobre os caminhos possíveis para o futuro do frevo em Pernambuco.

Qual é a proposta do Guerreiros do Passo e de que forma o grupo se diferencia de outras iniciativas voltadas ao frevo em Pernambuco?
Nosso principal interesse é manter a formação, porque ela é essencial para que o frevo continue existindo na rua de maneira orgânica, viva e contínua, passando de geração em geração. Hoje, estimamos que grande parte dos passistas em atuação na cidade foi formada diretamente pelo projeto ou por discípulos que passaram por ele ao longo dos anos, o que mostra o alcance desse trabalho silencioso, mas profundo, feito ao longo de quase duas décadas. A gente acredita muito na educação como base para formar novos passistas profissionais, mas também para alcançar pessoas que não pretendem seguir carreira artística e, ainda assim, precisam conhecer a cultura, compreender que o frevo é parte da nossa identidade e reconhecer que hoje ele é patrimônio do Brasil e do mundo.
Ao longo desse percurso, estruturamos uma metodologia própria de ensino, que organiza passos, sequências e princípios técnicos sem engessar a criatividade individual. O processo formativo valoriza disciplina, consciência corporal e escuta musical, ao mesmo tempo em que incentiva cada aluno a desenvolver sua identidade na dança. Essa sistematização contribui para dar continuidade ao frevo com qualidade e coerência, respeitando suas bases históricas e fortalecendo sua transmissão de maneira consistente. Nossa missão é manter o grupo ativo, captar recursos por meio de editais e seguir com esse trabalho cotidiano, muitas vezes longe dos holofotes, mas fundamental para sustentar a cena cultural. Nosso diferencial é preservar o frevo de rua tradicional, o chamado “frevo raiz”. Ao longo do tempo, com a ida para o palco, a dança passou por adaptações e perdeu elementos importantes. Por isso, desenvolvemos projetos como o Laboratório do Passo, que pesquisa e reintroduz movimentos pouco praticados, resgatando gestos e referências históricas.
É um frevo conectado com o povo e com a rua, que homenageia o Carnaval popular do Recife e de Pernambuco. Mais do que reproduzir passos, buscamos manter viva uma memória coletiva, entendendo que tradição é algo que se constrói diariamente, no encontro entre quem ensina, quem aprende, quem pesquisa e quem dança.
Que serviços o grupo oferece?
Oferecemos aulas gratuitas de formação contínua, realizadas regularmente, além de oficinas em escolas, comunidades e outros espaços educativos, com ações pedagógicas voltadas a diferentes faixas etárias. As atividades são destinadas a quem deseja se aproximar da dança por interesse cultural ou identidade local.
Também desenvolvemos um trabalho de conserto e reaproveitamento das sombrinhas de frevo, ensinando os alunos a recuperar o material, prolongar sua vida útil e reduzir desperdícios e impactos ambientais.
Além disso, atuamos fortemente na preservação da memória e da identidade cultural, contando a história do Carnaval e do Recife, explicando a origem e a transformação dos passos e sua relação com a música, os blocos e as manifestações de rua. O próprio espetáculo assume esse caráter pedagógico e informativo.
O frevo, apesar de ser Patrimônio Cultural da Humanidade, ainda enfrenta desafios para se manter vivo no cotidiano das pessoas. Quais são, na avaliação de vocês, as principais dificuldades hoje?
A visibilidade que surge em alguns momentos é pontual e não reflete a realidade cotidiana da maioria dos grupos culturais do Estado. Faltam incentivo estrutural, políticas públicas consistentes e, sobretudo, financiamento continuado para que os projetos se mantenham ao longo do ano, e não apenas em períodos específicos.
Muitos coletivos dependem quase exclusivamente de editais que, embora importantes, não contemplam todos nem garantem a regularidade necessária. No nosso caso, só tivemos dois projetos aprovados após 11 anos sem apoio institucional, evidenciando longos períodos de incerteza. Durante a pandemia, prêmios emergenciais ajudaram a atravessar a crise, mas o cenário segue difícil, especialmente para quem atua fora dos grandes circuitos e eventos mais visíveis.
Como a instabilidade das políticas públicas e do financiamento cultural impacta o trabalho de grupos independentes como o Guerreiros do Passo?
A falta de recursos impacta de forma direta pois impede o planejamento de longo prazo e a estruturação de projetos consistentes. As apresentações geram renda complementar mas não sustentam, sozinhas, a formação contínua de passistas, a pesquisa histórica, a criação artística e a manutenção do grupo.
Após a experiência em Cannes, passamos a receber mais convites para festivais no interior, eventos privados e maior apoio da prefeitura e do governo do Estado, ampliando a visibilidade e trazendo algum fôlego financeiro. Ainda assim, esse suporte precisa ser permanente e estruturado, não apenas pontual.
Para que o trabalho cultural se mantenha e se desenvolva de forma consistente, são indispensáveis previsibilidade orçamentária e políticas públicas estáveis.

Como surgiu essa oportunidade de levar o frevo a Cannes e que leitura vocês fazem da recepção internacional?
O convite partiu da produtora do filme O Agente Secreto, após as gravações, informando que o longa seria lançado no Festival de Cannes e que gostaria da presença dos Guerreiros do Passo. O pedido de sigilo aumentou a tensão, enquanto o grupo corria para resolver questões burocráticas, como passaportes e documentos. Ao final, a delegação foi formada por 15 pessoas: uma intérprete, 14 artistas, nove integrantes do grupo e cinco músicos da Orquestra Popular do Recife.
Já em Cannes, fomos avisados de que a ida ao tapete vermelho ainda dependia de autorização, depois confirmada. Inicialmente, esperávamos pouca repercussão mas a reação foi muito maior, com ampla movimentação nas redes sociais e surpresa do público. A experiência ampliou nossa visibilidade e ajudou a mostrar que o frevo vai além da imagem colorida e explosiva associada ao Carnaval.
O que essa vivência fora do Brasil revelou sobre o valor simbólico e artístico do frevo?
A experiência mostrou que não representávamos apenas o frevo, mas a cultura brasileira como um todo. Poderia ter sido samba ou outro ritmo tradicional mas foi o frevo que ocupou aquele espaço em Cannes, pela primeira vez diante de um público internacional tão diverso, marcando a trajetória do grupo. A repercussão também beneficiou o filme ao evidenciar a riqueza cultural do Recife e de Pernambuco para além dos cartões-postais.
De volta ao Brasil, a projeção continuou: fomos recebidos pela governadora, conquistamos o título de Patrimônio Cultural do Recife, estivemos em Brasília com o presidente Lula e, dois meses depois, retornamos à França para uma exibição no Museu do Louvre. Esses momentos consolidaram os Guerreiros do Passo como um símbolo afetivo da cidade, reconhecimento construído a partir dessa visibilidade inesperada.
Ao mesmo tempo, observamos hoje grupos adotando estéticas mais próximas do frevo de rua, com figurinos menos coloridos e sem sombrinha, resgatando referências populares. Não sabemos se influenciamos diretamente esse movimento, mas talvez tenhamos contribuído para essa retomada. O frevo é uma expressão rica, com múltiplas possibilidades estéticas e narrativas.
O grupo desenvolve um trabalho de pesquisa e resgate de passos tradicionais do frevo. Como se dá esse processo?
O trabalho começou em 2012, com o projeto Laboratório do Passo, aprovado em edital, que possibilitou estruturar a pesquisa de forma sistemática. Na época, percebíamos a repetição de movimentos nas apresentações contemporâneas e ouvíamos relatos sobre passos que já não eram praticados nem lembrados pelas novas gerações, indicando que parte da história do frevo estava se perdendo.
Buscamos historiadores, imagens de arquivo, fotografias e vídeos antigos, além de conversar com passistas veteranos e pessoas que viveram outros períodos do Carnaval para reconstruir esse repertório. Com apoio do Funcultura, dedicamos cerca de um ano à pesquisa, cruzando fontes e testando movimentos, até resgatar quase 12 passos desaparecidos ou pouco utilizados.
Hoje, esse material segue integrado às aulas e aos espetáculos, servindo de base para a formação de novos passistas e para a criação artística do grupo.
Ao resgatar passos em desuso, como equilibrar fidelidade à tradição e liberdade criativa?
O principal cuidado sempre foi tratar a memória como algo precioso, sem deturpar informações históricas nem apagar os sentidos originais dos movimentos. Buscamos manter os passos o mais próximos possível de suas origens, sem congelá-los no tempo, permitindo que dialoguem com os corpos e sensibilidades atuais.
Não queremos ser a única referência, mas um espaço aberto de troca e pesquisa, onde se explique a origem de cada passo, suas histórias e conexões com outras expressões culturais, como a capoeira. A gente nunca deu um passo para trás, mas um passo para dentro da história do frevo e essa é uma forma de criar uma ponte constante entre passado e presente, ajudando a contextualizar a dança e tornando esse patrimônio mais compreensível e próximo.
Como vocês avaliam a renovação do frevo hoje, especialmente entre os jovens? Há risco de descaracterização?
Encaro esse processo como algo natural e necessário para a sobrevivência do frevo. Como diz Antônio Nóbrega, “o novo não brota do nada”, pois toda criação nasce de algo que já existia e está ligada à tradição e às experiências anteriores. Nada surge desconectado da história.
O que buscamos é uma homenagem permanente ao frevo de rua. Embora hoje ele seja mais atlético, colorido e visualmente impactante, com coreografias elaboradas e forte presença cênica, mantém a essência do passado. Essa base histórica e simbólica permanece, mesmo com as transformações estéticas. Renovar faz parte da vitalidade da dança, permitindo que dialogue com novos tempos e gerações sem perder suas raízes.
O que é necessário para garantir que o frevo siga vivo ao longo de todo o ano, e não apenas no Carnaval?
Educação é a palavra-chave. Quando a criança aprende frevo, coco, maracatu, ciranda, xaxado e caboclinho na escola, passa a conhecer suas raízes, reconhecer e valorizar esses códigos culturais e se sentir parte da tradição, mesmo que não se torne artista. Esse contato precoce forma público, gera respeito e ajuda a manter vivas manifestações que atravessam gerações.
Ao mesmo tempo, o Estado precisa assumir de forma mais consistente o incentivo à cultura, criando espaços permanentes de apresentação, festivais regulares e políticas públicas estruturadas, que não dependam apenas de ações pontuais. Isso exige planejamento, investimento contínuo e uma visão estratégica que compreenda a cultura como estruturante da sociedade.
Embora a cultura esteja presente em discursos e propagandas oficiais, nem sempre essa visibilidade se converte em apoio direto a quem produz arte diariamente, e os recursos nem sempre são distribuídos de forma justa. Iniciativas como o filme de Kleber contribuíram ao projetar o Recife internacionalmente e ampliar essa visibilidade.


