“A literatura é um grito de dor”

Cinco anos após ter sido acometido por um AVC, depois de dois anos de pandemia e completando 75 anos em 2022, Raimundo Carrero segue produzindo e respirando literatura. A escrita e a leitura estão na sua rotina na sala de sua casa. Vários livros nas mesinhas ao lado da poltrona onde ele mergulha no seu universo ficcional, ao lado de quadros e lembranças da sua longa carreira. Com uma caminhada profissional assumindo os papéis de jornalista, professor, gestor público, autor de peças, contos e romances, ele retoma nos próximos dias a sua oficina de literatura, que é reconhecida nacionalmente. Foi nesse período de preparação dos encontros literários e da produção de um novo livro que ele conversou com Rafael Dantas sobre o momento cultural do País, sua trajetória e os planos que ainda fazem seus olhos brilhar. Entusiasmo, aliás, foi a palavra que ele, que é vencedor de alguns dos maiores prêmios da literatura brasileira, mais repetiu ao longo deste bate-papo sobre sua carreira, sobre o momento atual da literatura e sobre o projeto do que poderá ser seu último livro.

No início da entrevista, entregamos para Carrero uma reprodução da sua primeira reportagem, de 24 de dezembro de 1969, no Diario de Pernambuco.

Você lembra da sua primeira matéria assinada no Diario de Pernambuco?

De cabeça é difícil.

A primeira reportagem assinada foi essa aqui.

Rapaz, onde é que você arrumou isso? Isso é muito importante para mim. Foi esta matéria que me fez entrar no Diario de Pernambuco. Dezembro de 1969. Eu estava estagiando. Você está me causando uma emoção incrível agora. Evaldo Costa (diretor do Arquivo Público de Pernambuco) lutou para localizar isso e não conseguiu.

Quando você pensou em começar a escrever?

Um dia eu decidi ser escritor. Eu já escrevia, mas decidi ser escritor. Quando eu era ainda adolescente, pensei: vou escrever contos. Mas o que é um conto? Fui na Companhia Editora Nacional, era a maior do Recife na época, na Rua Imperatriz. E me venderam Antes do Baile Verde, de Lygia Fagundes Telles. Eu comprei, fui para casa, comecei a ler, me entusiasmar e aquilo foi muito bom. Então, eu sempre fui muito ousado, quando comecei a ler mais e escrever.

Como foi o seu começo no jornalismo?

Um dia pensei: eu preciso trabalhar. Aí eu fiz um concurso na Companhia Brasileira de Vidros, era uma vaga especializada para contador e eu fui reprovado. Na ansiedade de entrar no mercado de trabalho, descobri que o Banorte periodicamente realizava uns concursos para atrair funcionários para o banco. Eu fiz e passei, mas no psicotécnico terminei reprovado. Na prova oral, a moça disse: “o senhor não tem espírito nenhum para bancário. Se o senhor quiser tentar, eu aprovo e o senhor entra. Mas…” Eu respondi que não queria um emprego para o resto da vida, mas para entrar no mercado de trabalho. Ela me disse para procurar outra coisa, deixou em aberto e perguntou: “Vá tentar a sua área de atividade. Qual é a sua área de atividade?”. Eu disse que gostava de escrever. Ela disse para eu procurar Ariano Suassuna, Hermilo Borba Filho… Daí comecei a achar que poderia ser jornalista.

Como foram os primeiros passos no jornalismo?

Eu me candidatei ao estágio no Jornal do Commercio. Era um estágio até bem-feito. Mas o JC estava entrando na primeira grande crise financeira da empresa e quase quebrou. Ainda assim, fiquei uns três meses. Quando terminou o período, estava aprovado, mas não tinha emprego. Desci a escada e fui ao Diario de Pernambuco. Também disseram que não tinha estágio. Mas mesmo assim, todos os dias eu ia para lá e ficava de meio-dia até umas 3 da tarde, conversando, ouvindo, sabendo como se fazia o jornal. E o Dr. Antônio Camelo chamou o chefe de reportagem, Ivancil Constantino, e mandou me dar uma pauta. Comecei a entrar em crise porque não conseguia trabalho, fazer estágio, nem escrever. Só publicavam umas coisinhas, bobagens. Eu pensei que estava ficando velho e não tinha feito nada, mas só tinha 20 anos. Mas na minha cabeça já era muito. Então apareceu a Santinha, em Alagoa Nova, uma criança que dizia que estava vendo Nossa Senhora.

Como de candidato a estagiário você mergulhou nessa história?

Na época, o Diário da Noite, que fazia umas matérias espetaculares, disse na manchete: Fanáticos sequestram a Santinha de Alagoa Nova. Aí o jornal começou a entrar em crise: vamos mandar alguém. Começou a ouvir os repórteres e ninguém quis. Daí me convidaram: “Você quer ir acompanhar essa história da santa? Não paga nada, não. Mas você abre o caminho”. Quando cheguei lá disseram que a Santinha não falava com ninguém. Fui na feira, comprei uma boneca bem grande e levei para ela. O jornal achou isso extraordinário. E foi manchete. Passei uma semana lá, uma semana fazendo matérias. A partir daí, eu já estava contratado, comecei a ser jornalista do Diário de Pernambuco. Cheguei no jornal em junho de 1969. E eu aproveitava e escrevia críticas literárias. Eu lia muito, na época, lia excessivamente para um rapaz que não tinha uma formação acadêmica, eu escrevia quatro a cinco artigos por semana.

Geralmente as pessoas falam com o Carreiro escritor. Mas antes de falarmos de literatura, quem foi o Carrero jornalista?

O Diario de Pernambuco se entusiasmava muito comigo porque apresentei uma massa de trabalho grande. Tinha uma disposição para o trabalho imensa, o que é uma coisa natural na minha vida. Eu sou entusiasmado e trabalhador. Não tinha nenhuma experiência de redação jornalística. Eu comprava na banca o Jornal do Brasil e a Última Hora, que eram os melhores jornais da época, acordava cedo no domingo, colocava os dois jornais na mesa e ia treinar. Ler o jornal, copiar o que eles faziam e criar como seria a minha redação. O jornal me pedia para fazer reportagens do dia a dia, o que se chama hoje Vida Urbana. Até que comecei a cobrir os setores de trânsito e telecomunicação. Isso em 1970.

Às vezes o jornal não tinha carro nem dinheiro para táxi. Eu ia andando e para mim não se constituía em nenhum problema me deslocar do Diario de Pernambuco para qualquer local a pé. Depois me chamaram para a editoria de polícia e fiz coberturas imensas. Eu deitava e rolava. Era uma época de censura, mas ela atingia mais questões políticas, não a área policial. Depois fui transformado em editor de cidades. Era o Vida Urbana. Ao lado disso, eu publicava semanalmente alguns artigos literários. Naquela época o jornal dava toda importância à literatura. Toda semana tinha um caderno literário com 12 páginas. Ao lado do escritor, nasceu também o jornalista. Depois fui chefe de redação e secretário noturno. Nenhuma dificuldade me impedia de trabalhar.

No final deste ano você chegará aos 75 anos, enfrentando uma pandemia e cinco anos após passar por um episódio de AVC. Como é a sua rotina hoje e o que você está produzindo?

Eu trabalho todos os dias. Agora mesmo aposentado, depois do AVC, trabalho todos os dias. Depois do AVC já escrevi cinco livros, não consigo parar hora nenhuma. Aqui eu sento (Carrero se arruma na poltrona perto da janela, pega o notebook que ele trabalha no colo), e vou escrever. Aqui (aponta para uma pilha de livros ao lado) tem meus livros quando preciso fazer alguma consulta. Também não deixei de fazer oficinas, que é uma coisa que faço com maior prazer.

Como você avalia o momento atual da literatura pernambucana e brasileira?

Eu acho muito boa. Em certos aspectos até melhor que em outros momentos. Jovens, pobres, sem eira nem beira que escrevem, têm acesso às editoras, publicam. São esses escritores que precisamos. Esses são importantes porque trazem a dor do País na sua intimidade. A intimidade da dor, não só a dor. Costumo dizer aos meus alunos, não escreva sobre a dor, mas o sentimento da dor. Viemos de uma educação em que tudo é feio. Se é bonito é porque tem muita riqueza. A literatura é vista como uma coisa de fascínio e não é. Você tem que optar entre a beleza e a crítica social. A crítica social é mais importante que a beleza.

Nos últimos anos, as suas obras mexeram com temas muito atuais da sociedade brasileira, como em Estão matando os meninos. Quais os temas que mais o incomodam atualmente e que estão mergulhados na sua escrita?

Primeiro a miséria e o tratamento que nós damos à miséria. Não tem sentido que para perseguir os bandidos os miseráveis tenham que morrer. Por que houve troca de tiro com a polícia e o menino morreu? Quando s e mata um operário, está matando a produção do País. Além do ser humano, está causando um prejuízo muito sério ao País. Escrevi esse livro (Estão matando os meninos) porque estava vendo a TV, sentado para descansar meia hora, daqui a pouco aparece um pai chorando, uma mãe chorando, uma família destruída por conta de uma bala. Nunca vi bala perdida pra gostar tanto de menino! Entrou na casa do pai. O menino estava lá atrás estudando. Teve um idiota que disse que a literatura era o sorriso da sociedade. Eu digo agora em A luta verbal (livro que ainda está em edição) que a literatura é um grito de dor. Quando um livro é escrito, a população inteira entra em erupção. É um vulcão. Se o livro não é um vulcão não serve para ser livro. Se um livro não coloca diante do leitor as dores, o sofrimento, a angústia do País não serve para nada.

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