Filme de Kleber Mendonça Filho mobiliza o público pernambucano, fortalece a identidade cultural, reativa o Cinema São Luiz e reacende debates sobre o futuro do Centro da cidade.
*Por Rafael Dantas
O Agente Secreto já levou mais de 2,2 milhões de pessoas às salas de cinema. Na sua trajetória nas telonas, o filme cheio de pirraça já faturou mais de 60 troféus, incluindo os prestigiosos Globo de Ouro e Festival de Cannes. Se a obra de Kleber Mendonça Filho impressiona plateias internacionais, com quatro indicações ao Oscar, os efeitos no público pernambucano acontecem em muitas dimensões. Trata-se de uma conexão visceral que ultrapassa a tela e se entranha na identidade, na memória e no orgulho de quem se vê refletido nesse enredo e na paisagem que o cerca.
O trauma do período da ditadura militar é nacional, mas a enigmática perna cabeluda, a folia carnavalesca do frevo e as imagens do Centro do Recife, em um período de muito mais vitalidade, são alguns dos ingredientes desse roteiro que entrelaçam memórias e sentimentos muito peculiares aos pernambucanos. Tanto nos que viveram aquela época quanto nas gerações mais jovens que não testemunharam aquele tempo mas caminham hoje por um Centro decadente, atravessado por fantasmas e permanências. Um espaço onde passado e presente seguem em disputa.
O encantamento dos pernambucanos por O Agente Secreto está ligado a um sentimento de pertencimento e orgulho, na análise do pesquisador Paulo Cunha. Professor aposentado da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e docente da Pós-Graduação na Unicap (Universidade Católica de Pernambuco), ele considera que há um núcleo cinéfilo que faz coro ao sucesso da obra, mas destaca sobretudo a adesão de um contingente mais amplo, que acompanha a trajetória do filme por reconhecer nele uma produção feita em Pernambuco que alcançou visibilidade internacional. “O público mais geral está acompanhando e achando curioso que Pernambuco tenha sido o local de produção de um filme com uma trajetória tão impactante no mundo”, afirma.

"O público mais geral está acompanhando e achando curioso que Pernambuco tenha sido o local de produção de um filme com uma trajetória tão impactante no mundo." Paulo Cunha
Esse envolvimento se alimenta tanto da memória das filmagens nas ruas quanto da repercussão em premiações. Um fenômeno que transforma a obra em mais um símbolo de afirmação cultural do Estado. “Desde a época das filmagens, as pessoas comentam, lembram das ruas interditadas e de terem visto atores circulando pela cidade”, observa. Segundo o pesquisador, esse encantamento tem ainda um efeito cultural relevante, ao aproximar o cinema do cotidiano das pessoas e reforçar a relação entre a cidade e sua representação na tela. Ao se reconhecer nos espaços e nas histórias exibidas, parte do público passa a enxergar o filme não apenas como entretenimento, mas como expressão da identidade urbana.
Para explicar o encantamento emocional dos pernambucanos com O Agente Secreto, a psicóloga Josefina Campos toma de empréstimo um termo da psicologia analítica, elaborado pelo psiquiatra Carl Gustav Jung: a função transcendente. Ela explica que “se trata de um movimento psíquico que ocorre quando aspectos profundos e inconscientes da psique são içados e, como resultado, tornam-se disponíveis à consciência, permitindo maior integração na personalidade. Esse é um fator importante para ampliar o senso de si mesmo e isso é uma função que a arte em geral promove, mas que esse filme, pela profusão de imagens e lacunas, cumpre com maestria”.

"Há um movimento psíquico que ocorre quando aspectos profundos e inconscientes da psique são içados e se tornam disponíveis à consciência, permitindo maior integração na personalidade. É uma função que a arte promove e que esse filme cumpre com maestria." Josefina Campos
Em outras palavras, significa que o filme não apenas desperta emoções mas ajuda o espectador a organizar internamente aquilo que muitas vezes estava difuso ou adormecido. Ao trazer à superfície memórias, afetos e conflitos ligados à cidade, à história e à identidade, a narrativa permite que esses conteúdos sejam reconhecidos e integrados à consciência. O encantamento, portanto, não é só estético ou narrativo, mas psíquico. Ao se ver refletido na tela, o público amplia a compreensão de si mesmo e do lugar que ocupa na própria história.
“A cena do Carnaval em frente ao cinema São Luiz é praticamente o ponto máximo do filme, onde alegria e tristeza, vida e morte, tensão e descontração, se fundem numa estranha conciliação de paradoxos, como só o Carnaval sabe fazer. Um momento com uma carga emocional arrebatadora”, exemplifica a psicóloga. Josefina aponta ainda que a própria participação do grupo Os Guerreiros do Passo, um Patrimônio Cultural Imaterial da Cidade do Recife, é uma importante representação dessa memória afetiva e cultural do recifense.
AUTORRECONHECIMENTO NAS TELONAS
O sotaque local, vários rostos conhecidos, expressões pra lá de populares – afinal, raparigou ou não raparigou? – e os espaços onde a vida acontecia, e ainda acontece, ocuparam um lugar nas telonas que para o público mais amplo cabia apenas a cidades como Paris, Nova York ou Londres. Não que o Recife nunca tenha sido exposto à sétima arte. Muitos filmes do próprio Kléber Mendonça Filho fizeram isso, como Aquarius e Retratos Fantasmas. A produção local já é reconhecida pelos cinéfilos como uma das melhores do País há muito tempo. Mas nenhum outro havia atingido tal popularidade, a ponto de virar tema do Carnaval e até assunto de bar.

Os lugares das locações de O Agente Secreto têm se tornado roteiro de visitas turísticas e o próprio Cinema São Luiz registrou um aumento de público. Isso sem esquecer do sucesso de vendas da camisa da troça Pitombeira. Meio que, como na lenda do Toque de Midas, em que tudo que era tocado pelo rei da mitologia grega se tornava ouro, as diversas referências pernambucanas, pirraçadamente colocadas nas cenas, ganharam status ou aumentaram o que já tinham.
“Há uma identidade cultural e geográfica que se inscreve com abundância e isso é preponderante para o senso de pertencimento experimentado pelo público, especialmente do Nordeste, de Pernambuco e do Recife, em diferentes camadas de identificação. Símbolos caracteristicamente locais, como o Cinema São Luiz (protagonista geográfico), o tubarão (cuja incidência de ataques é uma realidade no Recife), a La Ursa (brincadeira pitoresca do Carnaval local) e a citação de mangaba (fruta regional) vão se intercalando nas cenas e promovendo familiaridade. Num episódio emblemático de suspense é usada a trilha sonora da Banda de Pífanos de Caruaru”, elenca Josefina.

A psicóloga, inclusive, estudou no Ginásio Pernambucano, locação para o departamento onde trabalhou o personagem Marcelo/Armando. “Os símbolos culturais podem funcionar como catalisadores de autoestima porque conectam o indivíduo a algo maior que ele: a sua ancestralidade, a sua história, os seus valores. A consciência de ‘eu faço parte’, potencializa a experiência do ‘si mesmo’ como algo valioso”.
Esse movimento de autorreconhecimento não surge de forma isolada, mas integra uma tradição consolidada da produção audiovisual do Estado. Quem ressalta isso com orgulho é o artista pernambucano Silvério Pessoa. “Ao longo da sua história, o cinema produzido em Pernambuco vem ampliando o olhar lançado sobre a cidade e sobre a própria trajetória do seu povo. Foi assim com Lírio Ferreira e Paulo Caldas, em O Baile Perfumado, com Cláudio Assis, Hilton Lacerda e com filmes como Cinema, Aspirinas e Urubus [de Marcelo Gomes]. Sempre houve essa paisagem como essência. O Agente Secreto faz isso com o Recife. As pontes, o Cinema São Luiz, os casarões antigos. Quando as pessoas se veem na tela, elas se reconhecem. E isso desenvolve autoestima, orgulho de fazer parte dessa história.”

"O Agente Secreto [traz] o Recife, as pontes, o Cinema São Luiz, os casarões antigos. Quando as pessoas se veem na tela, elas se reconhecem. E isso desenvolve autoestima, orgulho de fazer parte dessa história." Silvério Pessoa
RECONEXÃO COM A CIDADE, COM O SÃO LUIZ E COM O COLETIVO

O curador do Cinema São Luiz, Pedro Loureiro Severien, considera que O Agente Secreto tem provocado no público pernambucano um movimento de reconexão com o cinema como experiência coletiva, fortalecimento da autoestima cultural e revalorização do Centro do Recife e do Cinema São Luiz. Para ele, o filme atua como ferramenta de imaginação social, mostrando que a cidade é viva e pode ser reinventada a partir da cultura.
A produção de Kleber Mendonça leva pessoas de volta ao Cinema São Luiz e à sala de rua, rompendo com o consumo isolado de telas e streaming, segundo Severien. As críticas e os valores revelados no filme trazem uma mensagem contra o isolamento e a fragmentação provocados pelas redes sociais, segundo o cineasta.
“O filme consegue fazer o inverso desse movimento das redes sociais. Ele leva as pessoas para uma experiência coletiva dentro da sala de cinema. É uma forma de lutar contra essa maré de fragmentação, de isolamento e de consumo individual de imagens”, declarou Severien.
Como está de frente ao Rio Capibaribe, a uma ponte de distância da Avenida Guararapes e encravado no coração da cidade, o São Luiz e o filme que o tomou como um dos protagonistas induzem todos a olharem para o espaço urbano, que foi esvaziado, ao mesmo tempo em que, aos trancos e barrancos, tem ainda muito movimento econômico e cultural. “O Centro do Recife continua pulsando, ele tem esse potencial de reinvenção”, apontou o cineasta. “O cinema funciona como uma janela para um horizonte de possibilidades.”

A janela, inclusive, observada por Wagner Moura de frente para a Avenida Guararapes, expõe o que hoje é o grande desafio de recuperação da região. Enquanto o Bairro do Recife ganhou uma dinâmica muito forte nos 25 anos de operação do cluster tecnológico do Porto Digital e a Boa Vista ainda mantém um mix de moradia, comércio e serviços, o esvaziamento foi mais cruel com o Bairro de Santo Antônio e o vizinho São José. Ambos muito retratados nas cenas do filme.
Ao reacender a memória de um Centro pulsante, o filme também ilumina os desafios atuais da região. O presidente do Porto Digital, Pierre Lucena, avalia que o filme contribui para reposicionar o olhar sobre as áreas centrais da cidade. “Durante o filme, a gente vê o Centro cheio, lotado de gente, que não é mais desse jeito, principalmente naquela área retratada. É muito bom que Kleber Mendonça Filho tenha dado essa visibilidade para as nossas áreas centrais. Nesse caso, ele mostra como o Centro era. Isso torna fácil às pessoas compararem como os centros estão agora, e isso não é só do Recife. Mas ele mostra a quantidade de pessoas andando por essas áreas centrais e isso é bem relevante neste momento em que a gente quer mostrar o Recife como um todo”.
Esse olhar para os bairros centrais da cidade pode ter surgido agora, mas já é um esforço antigo. Universidades, organizações da sociedade civil e instituições como a Câmara de Dirigentes Lojistas do Recife e o Porto Digital dispõem de estudos, eventos e aporte de recursos na região. No poder público, há investimentos em curso, como na própria revitalização do Cinema São Luiz e de outros prédios centrais como do Liceu de Artes e Ofícios, do Diário de Pernambuco, pelo Governo do Estado. E a Prefeitura do Recife se mobilizou para transformar o antigo complexo de Cinemas Trianon/Art Palácio, que receberá um campus do Instituto Federal de Pernambuco e uma sala de exibição, além de incentivar o plano de revitalização da própria Av. Guararapes.

"No filme, a gente vê o Centro lotado de gente, que não é mais desse jeito, principalmente naquela área retratada. É muito bom que Kleber Mendonça Filho tenha dado essa visibilidade para as nossas áreas centrais". Pierre Lucena
O Gabinete do Recentro, que atua com uma série de iniciativas nesse território histórico da capital pernambucana, já reconhece o impacto do filme no olhar para a região central da cidade. “O Agente Secreto gerou um grande impacto e visibilidade para mostrar os atrativos e as belezas do nosso Centro, repercutindo diretamente no interesse da população em conhecer melhor a nossa história”, avalia a secretária Ana Paula Vilaça.
ADMIRAÇÃO QUE GERA EXPECTATIVAS NO PODER PÚBLICO
Para o pesquisador de cinema Paulo Cunha, o impacto do filme pode ir além do campo cultural e alcançar a esfera das políticas públicas e do urbanismo. Ele percebe, principalmente, entre os estudantes, uma expectativa de que o sucesso da obra desperte a atenção dos órgãos responsáveis pelo espaço urbano em relação às áreas degradadas do Centro do Recife. Nesse sentido, o cinema funcionaria como uma vitrine simbólica da cidade real, revelando tanto sua potência estética quanto seus problemas estruturais.
“Existe uma esperança de que o filme termine resvalando numa outra instância: a dos órgãos públicos que cuidam do espaço urbano”, afirma. Segundo o pesquisador, ao colocar essas áreas novamente em evidência, a obra de Kleber Mendonça pode contribuir para ampliar os debates sobre a reocupação do Centro histórico.

Essa discussão também se conecta à defesa dos cinemas de rua como elementos fundamentais da vida urbana. Para Paulo Cunha, a perda de salas tradicionais representa não apenas um dano cultural, mas um sintoma da decadência das áreas centrais. “Não existe cidade agradável de viver, com qualidade de vida, sem cinema de rua. As cidades mais agradáveis mantêm seus cinemas de rua, porque isso é sinal de que elas estão vivas e com vida cultural ativa”.
O Recentro, por exemplo, criou o projeto Placas Afetivas do Cinema, sinalizando os prédios que abrigavam as salas dedicadas à sétima arte do passado. “Essa iniciativa permite que as pessoas possam fazer circuitos para conhecer onde funcionavam os antigos cinemas", destaca Ana Paula Vilaça.
O caso do Cinema São Luiz, preservado como exceção, ilustra uma contradição, na análise de Paulo Cunha. Embora o equipamento, que passou para a gestão do Governo do Estado, resista, o entorno enfrenta problemas de iluminação, segurança e circulação.
EFEITOS NO PÚBLICO EXTERNO
Segundo Pedro Loureiro Severien, O Agente Secreto ultrapassa o impacto artístico e começa a produzir efeitos concretos na forma como o Recife é percebido também fora do Estado. Para ele, o filme ajuda a inserir a cidade no imaginário de quem ainda não a conhece, funcionando como uma vitrine cultural semelhante ao papel que o cinema exerceu historicamente para outras metrópoles. Esse processo, explica, amplia não apenas a curiosidade turística mas, também, o interesse cultural pelo Recife.
Esse movimento já pode ser percebido a partir do Cinema São Luiz, que se tornou um ponto de visitação motivado diretamente pelo filme. De acordo com Severien, jornalistas e visitantes estrangeiros passaram a frequentar o espaço para conhecer o local retratado na obra e compreender sua importância histórica e cultural. Para ele, trata-se de um exemplo de como o cinema pode atuar como ferramenta de projeção internacional da cidade e de valorização de seus bens culturais.
“Isso já está acontecendo, esse impacto turístico e de interesse cultural. Desde o lançamento do filme, a gente passou a receber repórteres da França, dos Estados Unidos, da Europa, pessoas que vêm ao Cinema São Luiz para conhecer esse espaço e relatar essa experiência. A gente está muito habituado a ver filmes sobre cidades como Paris ou Nova York, que se tornam icônicas justamente porque estão no centro do poder midiático. Quando o filme mostra o Recife, ele cria esse deslocamento, faz com que a nossa cidade também passe a existir nesse imaginário, antes mesmo de as pessoas estarem fisicamente aqui”, afirmou Pedro Severien.

Com esse foco nos visitantes que vieram ao Recife na folia de momo, o Gabinete do Recentro promoveu durante o Carnaval a Blitz do Agente Secreto, na Praça Dom Vital. “Essa ação teve os personagens [de O Agente Secreto] e uma exposição de carros antigos, para a gente reviver o clima do filme, que trouxe grande visibilidade para a cidade. Sem dúvida, estamos na torcida para o Oscar, que atrai ainda mais turistas e o próprio recifense para conhecer o nosso Centro”, afirmou Ana Paula Vilaça.
Independentemente de receber ou não as estatuetas do Oscar, O Agente Secreto já fez história. Representa o ápice de um cinema pernambucano centenário que, mesmo atravessando crises sucessivas, renasce em novos ciclos. Se servir de entretenimento já seria uma contribuição social gigante, a movimentação econômica gerada pela cadeia cinematográfica, os debates urbanos que dela eclodem e os sentimentos de apropriação da cidade talvez sejam conquistas ainda mais duradouras.

