Um trajeto não convencional
Nesta última semana estive participando de um evento da Coopanema, uma cooperativa de agricultores e pecuaristas da cidade de Águas Belas, sobre opções para a produção de alimento animal no Agreste Meridional de Pernambuco.
O percurso é interessante e rico. De Serra Talhada à Floresta, Petrolândia, Jatobá, entrando no território de Alagoas, onde se atravessa os municípios de Delmiro Gouveia, Água Branca, Inhapi, Canapi, Ouro Branco até Águas Belas, quando se retorna a Pernambuco. Para seguir viagem à Garanhuns, encontra-se à frente, Iati, Saloá e Paranatama. Ao se encontrar a BR-423, em Delmiro Gouveia até Águas Belas o que se tem é uma paisagem típica do Sertão ocupado pela pecuária bovina. De certo modo ali estão, frente a frente, duas bacias leiteiras, a alagoana e a pernambucana.
Região indígena por natureza
Durante muito tempo essa área de fronteira foi conhecida por ser uma terra de predominância indígena de origem Tupiniquim, hoje conhecida como Fulni-ô, ou povo que habita a margem do rio. Nesse caso, o Rio Ipanema. Essa comunidade tem é um exemplo de cultura viva uma vez que com poucas tribos do estado do Maranhão e do Sul da Bahia, preservam o idioma ancestral, o Iatê, amplamente utilizado quando dos rituais tradicionais Ouricuri, Cafurna e Toré. Quanto ao idioma se faz registrar que para os mais jovens ele não corre o risco de extinção já que é utilizado no meio familiar e atualmente as escolas localizadas nas aldeias têm o idioma em sua grade curricular, algo relevante para a história e memória de um povo.
A população indígena tem como principal atividade o artesanato e a agricultura familiar. Uma outra característica marcante na região é a presença de comunidades quilombolas, certamente fruto da fuga de negros escravos da agricultura canavieira que se adentraram aos sertões nos séculos 17 e 18.
O coronelismo como cultura
Simultaneamente aos povos indígenas e negros, a região historicamente foi objeto do coronelismo mais arcaico, expresso nas vinganças e violência política frequentes. Essa região limítrofe interestadual foi objeto de contendas e conflitos e acusações constantes. Desovas de cadáveres de um estado se dando no outro e sempre se apontando para os matadores que seriam sempre do outro estado. A situação melhorou substancialmente desde a presença do estado brasileiro de modo mais efetivo e hoje, Águas Belas, com 43 mil habitantes, é sinônimo de um polo de desenvolvimento com um comércio de conotação regional. A presença de empresários de Paulo Afonso, Delmiro Gouveia, Santana do Ipanema e de Arapiraca, em Águas Belas é algo constante.
Busca por novos horizontes
O encontro organizado pela cooperativa contou com a presença de algo em torno de 80 participantes que vieram tomar conhecimento de novas tecnologias aplicadas à produção de forragem. Nos últimos anos houve um escalonamento na produção de silagem à base de milho utilizando-se de cultivares modernos e uma melhora significativa no manejo desde o plantio à colheita. Agora e em boa hora, há um desejo expresso dos dirigentes da entidade em divulgar a cultura da palma forrageira e da mandioca como opções de cultivo. A presença de um especialista em confinamento e no cultivo e uso da mandioca para fins forrageiros enriqueceu a reunião com a desenvoltura da palestra e os exemplos de adoção, inclusive no município pernambucano de Inajá onde um confinamento para mil bovinos está sendo instalado.
Contou-se com a presença de dois dirigentes cooperativistas de Alagoas, um representando a federação das cooperativas de crédito e um segundo de uma Cooperativa de Olivença (AL) procurando articular com a Coopanema a instalação de uma dezena de quintais produtivo, tendo como base a criação de galinha caipira, o que pode ser uma boa opção econômica para os pequenos produtores, comunidades indígenas e quilombolas.
O que mais chama atenção neste instante é a instalação de um campus do Instituto Federal do Sertão em Águas Belas, cuja reitoria é sediada em Petrolina. Importante porque pode ser um divisor de águas na região como tem sido demonstrado em centenas de cidades de médio porte do Nordeste a partir da ampliação do ensino público médio e superior. O que se espera é que a escolha das profissões a serem eleitas estejam atentas ao passado, mas mirem no futuro.
Do ponto de vista tradicional, a presença marcante da identidade indígena pode transformar um campus em uma unidade especial de etnolinguística, valorizando não apenas o Iatê, mas o que remanesceu do falados pelos povos originais de Pernambuco, Alagoas e até da Bahia. O mesmo podendo se referir aos povos de origem africana, valorizando a cultura dos quilombolas e a luta pela preservação de seus costumes e de sua história.

Do ponto de vista econômico, não há como deixar de considerar que a produção de leite e derivados se constitui na principal atividade produtora de renda. Uma instituição que lida com o ensino e a pesquisa não pode deixar de contar com um forte programa em apoio à pecuária leiteira e à tecnologia dos produtos lácteos notadamente os queijos de coalho e de manteiga, a manteiga, o iogurte, a coalhada e as bebidas lácteas. O bom uso da cultura indígena e africana e a experiência com a produção de alimentos diferenciados e saudáveis devem ter um efeito imediato na alavancagem do turismo e na atração de novos investimentos.
Tanto a direção do IF Sertão quanto as lideranças da sociedade civil organizada devem estar atentos à oportunidade de se construir uma agenda futurística de desenvolvimento regional e se possível inserindo o ensino de engenharia e computação entre os cursos a serem ofertados. O trajeto entre Garanhuns e Paulo Afonso merece ser mais conhecido do que apenas as cidades que estão em seus extremos. Há ao menos 10 municípios de Pernambuco e Alagoas em busca de uma melhor inserção no cotidiano de seus estados.
*Geraldo Eugênio, Professor titular da UFRPE-UAST


