*Por Bernardo Peixoto
O ano de 2025 foi um período em que a principal virtude do setor não esteve na expansão acelerada, mas na capacidade de adaptação a um ambiente econômico ainda restritivo, marcado por juros elevados, crédito caro e um consumidor mais atento ao próprio orçamento. Os números ajudam a contar essa história, mas é na leitura conjunta deles que se compreende, de fato, o que foi o ano para quem empreende em Pernambuco.
Até outubro, o comércio varejista ampliado no Estado registrou crescimento acumulado de 0,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. À primeira vista, o percentual pode parecer modesto. E ele é. Mas, diante das condições macroeconômicas observadas ao longo de 2025, o resultado indica resiliência. O comércio seguiu vendendo, manteve suas portas abertas e preservou empregos, ainda que operando com margens mais apertadas e decisões cada vez mais prudentes.

A trajetória mensal do varejo ao longo do ano deixa isso evidente. Houve oscilações frequentes, com avanços pontuais e recuos em sequência, reflexo direto da sensibilidade do consumo ao custo do crédito. Para o empresário, isso se traduziu em giro mais lento de estoques, maior dependência de datas comemorativas e dificuldade para planejar investimentos de médio e longo prazo. O consumo não desapareceu, mas tornou-se mais seletivo e contido.
No setor de serviços, o cenário foi ainda mais desafiador. A retração acumulada de 0,1% até outubro em comparação ao mesmo período de 2024 indica um setor operando muito próximo do limite do equilíbrio. Serviços mais ligados à renda das famílias e ao consumo cotidiano sentiram primeiro os efeitos da restrição financeira, enquanto segmentos como transportes e serviços auxiliares ajudaram a amenizar o resultado geral. Na prática, isso significou empresas adiando contratações, renegociando contratos e concentrando esforços na manutenção das atividades.
Em contraste com esse quadro, o turismo apresentou desempenho positivo. O crescimento de 3,7% comparado ao mesmo período de 2024 no volume das atividades turísticas ao longo de 2025 mostrou a relevância do segmento para a economia pernambucana. O turismo tem funcionado como um amortecedor importante, impulsionando as regiões com maior vocação turística. Ainda assim, é preciso reconhecer que, embora relevante, ele não é capaz de compensar sozinho a perda de dinamismo de outros segmentos.
Outro ponto que merece atenção é o avanço do endividamento e da inadimplência. Com juros elevados por um período prolongado, as famílias passaram a destinar parcela maior da renda ao pagamento de dívidas, limitando o consumo e impondo restrições adicionais à atividade econômica. Para o comércio e os serviços, isso representa um sinal claro de alerta para os próximos ciclos.
A expectativa para 2026 ajuda a explicar por que o crescimento observado em 2025 foi tão contido. O boletim Focus, do Banco Central, indica que, mesmo com a inflação em trajetória de desaceleração, o IPCA projetado para 2025 é de 4,33%, com recuo para 4,06% em 2026, a taxa básica de juros deve permanecer elevada. A Selic esperada para o final de 2026 subiu para 12,25%, com expectativa de manutenção em 15% no início do próximo ano.
Na prática, isso significa que a economia segue operando com o freio acionado. Para o comércio, juros altos encarecem o crédito ao consumidor, reduzem compras parceladas e inibem a aquisição de bens de maior valor. Para os serviços, dificultam investimentos, expansão e geração de empregos. Mesmo no turismo, elevam custos operacionais e limitam novos projetos. Esse descompasso entre inflação em queda e juros persistentemente elevados cria um ambiente de postergação de decisões, no qual empresários preferem aguardar a assumir riscos.

O balanço de 2025 mostra que o comércio pernambucano não atravessou um ano de crise, mas de contenção. O setor demonstrou capacidade de resistência, mas carece de condições mais favoráveis para voltar a crescer consistentemente. Avançar na redução do custo do crédito, fortalecer o ambiente de negócios e oferecer maior previsibilidade econômica serão fatores decisivos para 2026.
As recomendações aos empresários, no momento de crédito caro, são a parcimônia, observar oportunidades de linhas de crédito vantajosas para investimentos e expansões, além de acompanhar o ritmo do mercado de trabalho e estar atento às mudanças institucionais, principalmente no campo da Reforma Tributária.
Aos consumidores, as recomendações são: planejamento do orçamento familiar e qualificação profissional. A disponibilidade fácil do crédito, muitas vezes, induz ao consumo intempestivo e sem planejamento, o que prejudica o consumo a longo prazo e, muitas vezes, retira esses consumidores do mercado de crédito. Já a qualificação profissional é o melhor indutor de incremento da produtividade e, consequentemente, de aumento da renda dos trabalhadores.
*Bernardo Peixoto é presidente da Fecomércio-PE

