Outubro Rosa
O tratamento depende do estágio da doença, das características biológicas do tumor e do risco de recorrência; histórico familiar também exige avaliação individualizada
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar mais de 78 mil novos casos de câncer de mama por ano no triênio 2026-2028. A doença é o tipo de câncer mais incidente entre as mulheres, excluídos os tumores de pele não melanoma, e representa cerca de 30% dos novos diagnósticos de câncer nesse grupo. Diante da confirmação da doença, além do impacto emocional, surgem dúvidas que precisam ser esclarecidas com a equipe médica. Uma delas é se toda paciente precisa fazer quimioterapia. A resposta é não.
O câncer de mama reúne diferentes subtipos, com características biológicas e comportamentos distintos. Por isso, mulheres com diagnósticos aparentemente semelhantes podem receber tratamentos diferentes. A definição da estratégia terapêutica considera fatores como o estágio da doença, o tamanho do tumor, o comprometimento dos linfonodos, o grau histológico, a presença de receptores hormonais e outros marcadores biológicos, além das condições clínicas da paciente.

“Não existe uma receita única. A decisão sobre a quimioterapia leva em conta o comportamento daquele tumor, o risco de recorrência, a extensão da doença e as características da paciente”, explica o oncologista clínico Rodrigo Arruda, integrante do Comitê Gestor da Oncologia Américas, instituição especializada em tratamentos oncológicos de alta complexidade no Brasil.
Dependendo do caso, o tratamento pode incluir cirurgia, radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia e terapias-alvo. A quimioterapia pode ser indicada antes da cirurgia, para reduzir o tumor, ou após o procedimento, para diminuir o risco de recorrência. Em situações selecionadas, especialmente em alguns tumores em estágio inicial e com menor risco de retorno, ela pode não proporcionar benefício suficiente para justificar seus efeitos adversos.
A decisão considera a estimativa de risco individual e, quando disponíveis e clinicamente indicados, testes genômicos capazes de auxiliar na avaliação do risco de recorrência e do possível benefício da quimioterapia. Esses exames não são necessários para todas as pacientes: sua indicação depende das características do tumor e do contexto clínico.
“Hoje conseguimos conhecer muito melhor cada tumor. Isso permite evitar tanto tratamentos insuficientes quanto tratamentos desnecessários. O objetivo é oferecer à paciente a estratégia mais adequada para o tipo e o estágio da doença que ela apresenta”, destaca Arruda.
Câncer de mama pode ocorrer mesmo sem histórico familiar
A ausência de casos de câncer de mama na família é outra questão que costuma gerar dúvidas. Embora a hereditariedade seja um fator de risco importante em determinadas situações, a maioria dos diagnósticos não está diretamente associada a uma predisposição genética hereditária conhecida.
Segundo o INCA, cerca de 5% a 10% dos casos de câncer de mama estão relacionados a fatores hereditários. Isso significa que a maior parte das pacientes não apresenta uma predisposição hereditária identificada. Ainda assim, a ausência de histórico familiar não elimina o risco de desenvolver a doença.
“É muito comum a mulher acreditar que, se não tem mãe, irmã ou outra parente próxima com câncer de mama, não precisa se preocupar. Mas a ausência de histórico familiar não elimina o risco. O câncer de mama é uma doença multifatorial, e a predisposição hereditária é uma situação específica, geralmente relacionada a alterações genéticas que podem ser transmitidas entre gerações”, explica o especialista.
O histórico familiar, porém, não deve ser ignorado. A ocorrência de câncer de mama em vários parentes, sobretudo em idade jovem, ou de determinados tipos de câncer na família pode justificar uma avaliação especializada e, em alguns casos, aconselhamento genético.
“Ter vários parentes com câncer de mama pode indicar uma predisposição hereditária e justificar uma avaliação mais detalhada. Mas é importante diferenciar duas situações: histórico familiar e predisposição hereditária. Ter parentes que tiveram câncer não significa necessariamente que exista uma mutação genética responsável pela doença. Já a identificação de uma alteração genética pode indicar um risco hereditário aumentado”, afirma Arruda.
A avaliação individualizada, portanto, é fundamental tanto para definir o tratamento após o diagnóstico quanto para identificar situações em que o histórico familiar ou genético exige acompanhamento específico.