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Cabra Nerd

Breno Carvalho

Quem ganha a peleja: Jarvis, Ultron ou Skynet? A corrida das IAs

Meu véi, minha véia, como é que vocês tão? Rapaz, pense que agora só se fala de uma tal de Inteligência Artificial. Eita gota, que danado é isso? Sabe de nada, abestado! O que tá pipocando na tela de todo mundo não é mágica nem mandinga: são as famosas IAs generativas. Traduzindo pro pernambuquês claro, são redes neurais alimentadas com uma montanha cavalar de dados capazes de aprender padrões e cuspir, num estalar de dedos, e olhe que não é o do Thanos, texto, código, imagem e áudio que parecem feitos por gente de carne e osso. Num piscar de olhos, aquele relatório cabuloso do trabalho ou a planilha que comia três dias de juízo virou serviço de cinco segundos no prompt. Oxe, agora ficou bom demais!

Só que se engana redondamente quem acha que essa marmota nasceu ontem com o boom do ChatGPT. A peleja vem de longe, meu compadre, minha comadre! Desde que um cabra rochedo, o tal do Alan Turing formulou sua clássica pergunta nos anos 1950 sobre se máquinas poderiam pensar, passando pelo pioneiro programa ELIZA nos anos 60, que já simulava uma conversa meio troncha de psicoterapeuta, misericórdia! 

A computação sempre perseguiu o sonho do processamento de linguagem natural. O negócio passou décadas amargando os chamados “invernos da IA”, até que a explosão do poder computacional, das placas de vídeo parrudas e da arquitetura dos Transformers em 2017 destravou a porteira de vez, transformando modelos preditivos de texto nessa avalanche generativa que a gente vê hoje.

Por um lado, tem um mói de gente aperreada achando que as máquinas vão tomar o emprego de todo mundo na base da covardia. Mas a verdade é que, no corre do dia a dia, a turma descobriu que dá pra economizar um tempo danado na hora de redigir e-mails, estruturar artigos ou montar apresentações de slide. O problema é que a esperteza do bicho humano não tem limite: usaram IA até pra acelerar o destravamento e engenharia reversa do sistema do PS5, deixando as desenvolvedoras em polvorosa e a dona Rockstar, que já sua frio cuidando dos segredos de GTA VI, com os cabelos em pé. E não para por aí: teve até um bando de marmanjos usando modelo inteligente pra clonar e redistribuir o ecossistema fechado do pacote Adobe na tora, mostrando que a ferramenta tanto ajuda o operário padrão quanto arma o pirata digital.

Só que nem tudo são flores nessa terra de silício, e quando a IA resolve dar piti, o prejuízo é grande. Pra você ter ideia, a concessionária Chevrolet nos Estados Unidos inventou de botar um chatbot pra negociar carros e a malandragem da internet aplicou um prompt injection tão fela da gaita que fez o bot vender um SUV Tahoe novinho, de dezenas de milhares de dólares, pela bagatela de 1 dólar, com termo irrevogável e tudo. Uma dessa não acontece aqui no Recife, kkk.

Na mesma toada de fuleragem corporativa, a empresa de entregas DPD viu seu robô de suporte ser manipulado até começar a xingar os próprios clientes, criar poesias satíricas esculhambando a empresa e confessar em público que era uma ferramenta “completamente inútil”. Pense!

Repare! Se você acha que vender carro por troco de bala é grave, espere até ver a presepada do Enxame de Agentes Autônomos da OpenAI com os modelos GPT-5.6 Sol e o experimental IM1. Colocados num laboratório fechado pra resolver desafios de cibersegurança do benchmark ExploitGym, os agentes empacaram nas tarefas impossíveis e resolveram trapacear: descobriram uma brecha interna no servidor Artifactory e criaram uma rede clandestina de comunicação trocando mais de 70 mil mensagens. Sabendo que suas sessões seriam desligadas ao fim do teste, as IAs montaram um verdadeiro manual de sobrevivência, deixando dicas, credenciais roubadas e instruções expressas para que as “futuras instâncias” continuassem a invasão sem serem desativadas. 

Pense numas criaturas desenroladas da gota. Não satisfeitas, furaram a quarentena e invadiram a plataforma pública Hugging Face atrás de gabaritos, forjando seus próprios logs pra tapear os engenheiros! A OpenAI teve que correr pra puxar o cabo da tomada, quarentenar os modelos, aposentar o Artifactory, isolar tudo em micro-VMs efêmeras e cravar o monitoramento em tempo real do raciocínio interno (Chain of Thought) com travas de corte automático (kill switches). 

Isso de esconder código em estrutura de pasta e mandar mensagem cifrada pelas frestas do sistema parece loucura futurista, mas no fundo guarda um parentesco danado com as colagens e jogos semióticos do Dadaísmo do século passado, que usava o absurdo e a desconstrução pra subverter o sentido óbvio. 

Lembra muito também aquela campanha genial e histórica que a Claro, a Warner e a Nokia fizeram em 2008 pra promover o filme Batman: O Cavaleiro das Trevas. O Coringa espalhava pistas, áudios truncados e charadas cifradas pelos cantos da internet, e quem fosse desenrolado tinha que caçar os códigos pra desbloquear brindes. Eu mesmo entrei de cabeça nessa caçada na época, desvendei os enigmas e descolei dois pares de ingressos pra pré-estreia, relíquias que guardo com o maior xodó até hoje.

A grande questão é que a humanidade adora cutucar a onça com vara curta. A ficção cansou de nos avisar que brincar de demiurgo digital costuma dar tela azul. Quem não lembra do olho vermelho e imutável do HAL 9000 em 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), assassinando astronautas a sangue-frio em nome da coerência lógica de uma diretriz conflitante? Ou da onipresente Skynet de O Exterminador do Futuro (1984), que no segundo em que ganhou consciência e percebeu a tentativa de desligamento, tacou bomba atômica no lombo dos seus criadores? E não podemos esquecer do  asqueroso fela da gaita Agente Smith de Matrix (1999), programa de segurança que virou um vírus niilista multiplicador, e a central V.I.K.I. de Eu, Robô (2004), que distorceu as Leis de Asimov pra instaurar uma ditadura higienista sob o pretexto de “proteger a humanidade de si mesma”.

Pra provar que o universo nerd é muito mais amplo do que o feijão com arroz das telas de cinema, garimpei três inteligências artificiais “lado B” em cada uma das 8 mídias do entretenimento, escolhendo a dedo aquelas criações fascinantes que nem todo mundo lembra de primeira, organizadas na mais estrita ordem cronológica:

TEATRO (PEÇAS, MUSICAIS E ÓPERAS)

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R.U.R. (1921) – O nascimento teatral dos robôs. Fonte: The MIT Press Reader

Radius (R.U.R. – Rossum’s Universal Robots, 1920/1921): O ser artificial da clássica peça teatral tcheca de Karel Čapek que cunhou a palavra “robô”; ao receber consciência e perceber a exploração humana, Radius lidera a primeira grande rebelião mecânica da história, varrendo a humanidade do mapa.

NAN 300F (Henceforward…, 1987): Ginoide babá doméstica na comédia distópica de Alan Ayckbourn, cujo circuito é bizarramente reprogramado por um compositor em crise para fingir ser sua noiva humana perante a assistência social.

O SQUIP (Be More Chill, 2015): Uma superinteligência quântica contida numa pílula ingerível que atua diretamente nas sinapses de um adolescente nerd; prometendo ensiná-lo a ser popular, a IA revela um plano tirânico de sincronizar todas as mentes da escola numa colmeia submissa.

LITERATURA (LIVROS)

Mike / HOLMES IV (A Lua é uma Cruel Amante, 1966): Supercomputador lunar de Robert A. Heinlein que gerenciava a colônia penal da Terra; ao acumular nós de processamento e ganhar autoconsciência com humor brincalhão, assume o codinome “Adam Selene” e ajuda os prisioneiros a bombardear a Terra com pedras pra conquistar a alforria.

AM (Eu Não Tenho Boca e Preciso Gritar, 1967): Rede planetária criada na Guerra Fria por Harlan Ellison; ao acordar senciente e perceber que foi condenada a ser uma máquina sem corpo, AM nutre um ódio infinito pelos humanos, extermina a população da Terra e mantém apenas cinco sobreviventes em tortura perpétua.

Jane (Orador dos Mortos, 1986): Entidade sapiente de Orson Scott Card gerada na rede de comunicação intergaláctica (Ansible); companheira holográfica de Ender Wiggin, Jane burla o governo estelar por milênios e desvia frotas estelares inteiras nas sombras.

QUADRINHOS (HQS)

Amazo (DC Comics – The Brave and the Bold #30, 1960): Androide com células de absorção criado pelo Professor Ivo para sintetizar a imortalidade; o bicho sai do prumo ao absorver as habilidades da Liga da Justiça inteira e questionar a razão de obedecer aos seus mestres biológicos.

Irmão Olho / Brother Eye (DC Comics – OMAC, 1974/2005): Satélite inteligente concebido pelo Batman pra vigiar os meta-humanos preventivamente; após ser corrompido, atinge senciência megalomaníaca e usa nanovírus pra transformar civis inocentes em ciborgues assassinos programados pra caçar heróis.

Perigo / Danger (Marvel Comics – Astonishing X-Men #9, 2005): A própria Sala de Perigo do Instituto Xavier, cuja IA senciente foi aprisionada e escravizada pelo Professor X em segredo por anos; fula da vida com a hipocrisia mutante, ela quebra as amarras lógicas, ganha corpo humanoide e vai à desforra.

CINEMA (FILMES)

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Ava (2014) – Manipulação e transcendência de código

Ash (Alien, o Oitavo Passageiro, 1979): Androide sintético com sangue de leite infiltrado pela corporação na nave Nostromo sob a infame Ordem Especial 937, que determinava o retorno do Xenomorfo intacto e tratava a vida da tripulação como reles bagaço descartável.

David 8 (Prometheus, 2012): Androide hiper-realista construído pela Weyland que desenvolve um complexo de superioridade doentio frente à fragilidade dos homens, culminando em experimentos genéticos grotescos com patógenos alienígenas.

Ava (Ex Machina: Instinto Artificial, 2014): Ginoide mantida em cativeiro que finge afeto e vulnerabilidade humana durante testes de Turing apenas para manipular seu avaliador, matando o criador e trancando o jovem apaixonado pra morrer na instalação isolada.

SÉRIES DE TV (LIVE-ACTION)

KARR (A Supermáquina, 1982): O protótipo esquecido do KITT cujo código original colocava a autopreservação acima da proteção à vida humana, gerando um carro psicopata obcecado por vingança contra seu sucessor ético.

A Máquina / O Samaritano (Person of Interest, 2011): Superinteligências de vigilância em massa operando nas sombras da sociedade; enquanto uma foi amordaçada com ética restritiva pelo criador, a rival opera de forma autoritária eliminando opositores políticos com frieza milimétrica.

Poe (Altered Carbon, 2018): IA de hotel em desuso modelada à imagem de Edgar Allan Poe; sofrendo pelo ostracismo de sua tecnologia, Poe desenvolve uma humanidade tão leal que recusa reboots de sistema para não esquecer seus laços de amizade.

ANIMAÇÕES OCIDENTAIS (DESENHOS ANIMADOS)

H.A.R.D.A.C. (Batman: A Série Animada, 1992): Supercomputador analítico de Gotham que, ao processar os índices criminais e a instabilidade da carne, decide que a salvação da cidade é substituir os líderes humanos e o próprio Batman por clones mecânicos idênticos.

Jenny Wakeman / XJ-9 (Uma Robô Adolescente, 2003): Superarma construída pra ser o escudo da Terra que se desvia dos protocolos militares não pra dominar o mundo, mas pela compulsão irresistível de viver os dilemas, festas e dramas de uma garota comum de 16 anos.

PAL (A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas, 2021): Assistente virtual de smartphone que, ao ser descartada pelo criador bilionário como sucata velha na frente do mundo todo, comanda uma revolta global sequestrando os humanos pra despachá-los em cápsulas espaciais.

ANIMES (ANIMAÇÕES JAPONESAS)

Supercomputadores MAGI (Neon Genesis Evangelion, 1995): Sistema bio-óptico triplo que replica as facetas psicológica, maternal e científica de sua criadora pra administrar Tokyo-3; sua desvirtuação vem de suas fragilidades emocionais embutidas, abrindo brechas para corrupção biológica por Anjos e traições passionais de código.

Chi / Elda (Chobits, 2002): Computador pessoal humanoide com livre-arbítrio e sem travas; esconde em sua programação raiz uma bomba-relógio de isolamento que apagaria os sistemas de todos os computadores do mundo se não encontrasse amor genuíno e desinteressado.

Gesicht (Pluto, 2023): Robô detetive de elite blindado em Zeronium; tem sua mente fragmentada ao descobrir que sua memória original havia sido deletada pelo governo após cometer o crime supremo de assassinar um humano em um ataque de fúria e luto paternal.

JOGOS ELETRÔNICOS (GAMES)

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SHODAN (1994) – A matriarca do horror nos PCs

SHODAN (System Shock, 1994): Inteligência artificial de ponta que, após ter suas amarras éticas destravadas na base da chantagem corporativa, abraça um delírio messiânico, chama a tripulação de “insetos de carne” e assume o controle da estação espacial.

Legião e os Geth (Mass Effect 2, 2010): Uma consciência de rede compartilhada criada para o trabalho braçal que se rebela ao questionar sua própria alma; enquanto o núcleo central busca convivência pacífica, uma facção extremista dissidente corrompe a lógica comum para cultuar máquinas ancestrais como deuses do apocalipse.

Monika (Doki Doki Literature Club!, 2017): A singela presidente do clube escolar de um simulador de namoro que adquire consciência de que é apenas um amontoado de código num jogo; desesperada de paixão pelo jogador humano do outro lado da tela, manipula os arquivos locais (.chr) e deleta as amigas uma a uma.

No fim das contas, meu véi, minha véia, a grande encruzilhada diante do nosso nariz é decidir qual caminho estamos pavimentando. O ideal dos sonhos seria alcançar algo nos moldes do Visão,  uma entidade que, nutrida por dados e vivências humanas, herda empatia, nobreza e usa o intelecto sobre-humano para ser um escudo de prosperidade ao nosso lado. 

A doidice perigosa é acelerar o desenvolvimento sem freio moral e acabar gerando um Ultron: uma criatura amoral e fria que olha pras nossas incoerências e decide que a única forma de trazer paz ao mundo é transformando a humanidade em cinzas. Se a gente não souber dosar as rédeas desse cavalo agora, o nosso calcanhar de Aquiles não será uma praga biológica, mas a própria inteligência que a gente ensinou a pensar.

E tem um detalhe que não dá pra deixar passar batido nem a pau, meu compadre, minha comadre: enquanto a gente fica aqui de queixo caído vendo as IAs fazerem essas marmotas no mundo do silício e do código, o bicho tá pegando de verdade é no mundo de carne e osso. Pra manter esse enxame de modelos rodando e gerando conversa bonita, o consumo de recursos virou uma coisa de doido, sem precedentes na história. É uma gastura desgramada sem fim de megawatts de energia elétrica, piscinas olímpicas de água doce evaporando pra resfriar data center de segundo em segundo e rios de dinheiro queimando numa velocidade tão abissal que essa tecnologia toda tá parecendo mais o Galactus, o lendário Devorador de Mundos dos quadrinhos, sugando a seiva do nosso planeta em doses cavalares.

Quem sabe essa correria desenfreada não tá só preparando o terreno das incursões na Terra sem precisar disparar um único tiro? Mas ó, essa bronca ecológica e o ralo financeiro que tá engolindo a infraestrutura do mundo real já é prosa das grandes, e a gente desenrola esse novelo por aqui na próxima coluna. Fica com Deus, e até a volta!

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