Companhia mineira ocupa o palco nos dias 1º e 2 de novembro com duas obras marcantes do repertório
O Grupo Corpo, de Belo Horizonte, traz ao Teatro de Santa Isabel, nos dias 1º e 2 de novembro, duas obras marcantes do seu repertório: Piracema, que comemorou os 50 anos de atividades da companhia em 2025, e Parabelo, de 1997.
A imagem dos peixes que vencem a correnteza para alcançar as nascentes dá sentido a Piracema. O movimento de avançar contra obstáculos e recomeçar o ciclo da vida serviu de metáfora para a trajetória da companhia Corpo. Com coreografia de Rodrigo Pederneiras e Cassi Abranches, a obra marcou também a chegada de Cassi à função de coreógrafa residente, ao lado de Rodrigo. A música original é de Clarice Assad, primeira mulher a compor uma trilha para o Grupo Corpo.
Completando o programa, Parabelo leva ao palco uma paisagem musical ligada ao sertão. Na trilha de Tom Zé e Zé Miguel Wisnik, cantos de trabalho e devoção convivem com o baião e contrapontos rítmicos, matéria que ganha no corpo jogo de cintura e forte marcação dos pés. O Grupo Corpo é apresentado pela Petrobras e conta com o patrocínio da Vivo, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
Concebidas em momentos distintos da trajetória do Grupo Corpo, Parabelo e Piracema mostram duas maneiras de transformar referências brasileiras em dança. Entre uma obra e outra estão quase três décadas de criação, atravessadas por uma linguagem coreográfica que permanece em movimento.

PIRACEMA
Nome que designa o movimento migratório dos peixes em direção às nascentes dos rios para a reprodução. Essa travessia, feita contra a corrente, foi escolhida como imagem para o cinquentenário da companhia, associando permanência e transformação, continuidade e recomeço.
A obra nasceu de uma proposta do diretor artístico Paulo Pederneiras: dividir os 22 bailarinos em dois grupos de 11 e entregar a Rodrigo e Cassi a tarefa de criar, separadamente, um balé inteiro. Durante o processo, um não acompanhava o trabalho do outro. “Não podíamos nem circular na área em que o outro grupo estava ensaiando”, conta Cassi.
Foi somente dois meses antes da estreia que os grupos assistiram ao trabalho um do outro e os coreógrafos começaram a reunir as duas concepções. “Nesse momento, foi uma emoção, choro, alegria”, lembra Paulo. Para Rodrigo, a combinação produziu “uma terceira via”: “Nossas visões têm características próprias, claro, sou mais intimista na movimentação, Cassi é mais explosiva e aberta”.
A composição de Clarice Assad se organiza em três grandes movimentos. Parte do tribal e de um ambiente natural intocado, passa pela polifonia sinfônica e chega ao eletrônico, urbano e contemporâneo. A compositora trabalhou com o percussionista Keita Ogawa e a New Century Chamber Orchestra, de São Francisco, além de participações especiais, entre elas a de seu pai, o violonista e compositor Sérgio Assad. A própria Clarice participa com harmonias vocais e incorporou, na terceira parte, ruídos e sons criados por inteligência artificial.
Para a cenografia, Paulo Pederneiras recobriu o fundo e as laterais do palco com 82.320 mil tampas de latas de sardinha montadas sobre uma rede. Sob a luz, a superfície metálica remete às escamas e aos cardumes. Paulo assina também a iluminação ao lado de Gabriel Pederneiras.
Os figurinos são de Susana Bastos e Marcelo Alvarenga, da Alva, em sua primeira criação para dança. A dupla trabalhou a partir das ideias de natureza e tecnologia, ora em conflito, ora em harmonia.
PARABELO
Sertanejo e contemporâneo, Parabelo estreou em 1997 com coreografia de Rodrigo Pederneiras e música de Tom Zé e José Miguel Wisnik. A trilha reúne cantos de trabalho e devoção, baião cadenciado e diferentes construções rítmicas. Rodrigo responde a esse universo sonoro com uma escrita coreográfica marcada pela mobilidade do tronco, pelo jogo de cintura e pela marcação dos pés.
A obra nasceu de um mergulho em referências do interior do Brasil, mas sem transformar essas referências em representação literal. Música, movimento, cenário e figurino constroem uma paisagem própria, em que elementos regionais são reelaborados pela linguagem da companhia.
A cenografia de Fernando Velloso e Paulo Pederneiras traz dois painéis de 15 por 8 metros com imagens de ex-votos de igrejas interioranas. Nos figurinos de Freusa Zechmeister, as malhas coloridas aparecem, na primeira parte, cobertas por um tule negro, com exceção das sapatilhas. Na parte final, o tule desaparece e as cores se revelam. A iluminação é de Paulo Pederneiras.
