Além da perda de peso, medicamentos como Ozempic e Mounjaro podem influenciar a relação com a comida e os hábitos de consumo. Para o terapeuta Flama Elias, a popularização dessas substâncias também revela a busca por pertencimento social
As chamadas canetas emagrecedoras ultrapassaram os consultórios médicos e passaram a ocupar espaço nas conversas, nos hábitos de consumo e nas relações sociais. Medicamentos à base de agonistas do receptor do GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, ganharam popularidade pelos resultados no controle do peso e da glicemia. Mas, para além dos efeitos metabólicos, a expansão desse mercado também levanta questões sobre a maneira como as pessoas se relacionam com a comida, o próprio corpo e os grupos dos quais desejam fazer parte.
Na avaliação do terapeuta sistêmico, constelador familiar e hipnoterapeuta Flama Elias, o fenômeno precisa ser observado também pelo prisma do comportamento humano. Segundo ele, a procura por esses medicamentos não se limita aos objetivos de saúde ou à aparência física. Em determinados contextos, acompanhar a tendência pode representar uma forma de integração social.
“As canetas emagrecedoras chegam como uma porta de entrada para o pertencimento. O tratamento ganhou tanta força que muitas pessoas querem fazer parte desse universo de consumo e ter o que dizer nas rodas de conversa, em bares, aniversários e encontros sociais”, avalia Flama Elias.
A observação chama a atenção para um aspecto da popularização dos medicamentos: a possibilidade de que a decisão de utilizá-los seja influenciada não apenas por necessidades clínicas, mas também pelas expectativas sociais em torno do emagrecimento. Nesse cenário, a experiência individual passa a fazer parte de um fenômeno cultural mais amplo, marcado pela valorização de determinados padrões corporais e pela circulação de informações sobre tratamentos nas redes sociais e nos grupos de convivência.
Como o GLP-1 atua no organismo
O GLP-1 é um hormônio produzido pelo organismo, especialmente em resposta à alimentação. Ele participa da regulação da glicose, estimula a secreção de insulina de maneira dependente da glicose, retarda o esvaziamento gástrico e contribui para a sensação de saciedade. Os medicamentos que imitam sua ação ampliam esses efeitos e podem favorecer a redução do peso corporal.
A semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, e a tirzepatida, presente no Mounjaro, atuam em vias hormonais relacionadas ao controle metabólico e do apetite. A tirzepatida age tanto nos receptores de GLP-1 quanto nos de GIP. Os resultados variam conforme o medicamento, a dose, as características individuais e o acompanhamento realizado.
Para Flama Elias, compreender esse mecanismo ajuda a explicar por que o tratamento pode repercutir em outras dimensões da vida cotidiana. Ao alterar a fome, a saciedade e o interesse pela comida, os medicamentos podem modificar comportamentos que, durante muito tempo, estiveram associados a recompensas, hábitos familiares e momentos de socialização.
Sistema de recompensa e mudanças nos hábitos
A relação entre alimentação e prazer envolve circuitos cerebrais ligados à motivação, à aprendizagem e à recompensa. Comer não atende apenas a uma necessidade fisiológica. Em diferentes situações, a comida também pode representar conforto emocional, celebração, convivência e alívio temporário do estresse.
Os agonistas do GLP-1 vêm sendo investigados por seus efeitos sobre circuitos cerebrais envolvidos no apetite e na recompensa. Estudos apontam que esses medicamentos podem reduzir o desejo por determinados alimentos e influenciar comportamentos relacionados à ingestão alimentar. Entretanto, a extensão desses efeitos varia entre indivíduos, e ainda são necessárias pesquisas para compreender suas consequências a longo prazo.
“Os análogos do GLP-1 podem interferir nos mecanismos relacionados à motivação para comer e à percepção de recompensa. Isso ajuda a entender por que algumas pessoas relatam mudanças na relação com a comida e nos hábitos de consumo depois que iniciam o tratamento”, explica o terapeuta Flama Elias.
Essas mudanças também despertam o interesse de setores econômicos ligados à alimentação. Se uma pessoa passa a sentir menos fome, reduz as porções ou perde o interesse por determinados alimentos, seu padrão de compras pode mudar. No entanto, estabelecer uma relação direta entre a expansão das canetas e perdas específicas de faturamento exige dados de mercado que considerem outros fatores, como inflação, preços, renda e alterações gerais nos hábitos de consumo.
O chamado “efeito Ozempic” tornou-se uma expressão utilizada para descrever possíveis impactos da popularização desses medicamentos sobre a indústria de alimentos e bebidas. O fenômeno sugere que uma mudança inicialmente associada à saúde individual pode repercutir em mercados e práticas de consumo.
A influência nas relações sociais
A alimentação também organiza parte importante da vida em sociedade. Almoços em família, encontros em restaurantes, comemorações e saídas para bares são ocasiões em que comer e beber funcionam como elementos de convivência. Quando o apetite diminui ou a relação com a comida se transforma, essas experiências podem adquirir outro significado.
Flama Elias chama a atenção para a possibilidade de que usuários reduzam algumas atividades sociais durante o tratamento. Essa mudança, porém, não deve ser interpretada como uma consequência inevitável do uso dos medicamentos. A frequência dos encontros depende de fatores individuais, sociais, econômicos e culturais, além de possíveis efeitos adversos, como náuseas e desconforto gastrointestinal.
O terapeuta também destaca a pressão exercida pelas tendências de consumo. Expressões como “se você não está tomando Mounjaro, está vivendo errado”, ainda que utilizadas em tom de brincadeira, ilustram como um tratamento médico pode se transformar em assunto de convivência e marcador de pertencimento.
Esse contexto merece atenção porque a popularização de um medicamento não significa que ele seja indicado para todas as pessoas. A decisão de iniciar o tratamento deve considerar critérios clínicos, riscos, contraindicações e acompanhamento profissional, e não a necessidade de acompanhar um grupo ou corresponder a um padrão estético.
Emagrecimento, comportamento e acesso ao tratamento
A expansão dos medicamentos à base de GLP-1 abre novas possibilidades para o tratamento da obesidade e de condições metabólicas, mas também traz desafios. O custo pode limitar o acesso, enquanto a circulação de informações incompletas favorece expectativas irreais sobre os resultados e incentiva o uso sem indicação ou supervisão adequada.
Para Flama Elias, a sociedade está diante de uma transformação que combina mudanças fisiológicas, comportamentais e culturais. Ele considera que a experiência com os medicamentos pode levar parte dos usuários a rever hábitos alimentares e refletir sobre a própria saúde. Essa possibilidade, contudo, não equivale a uma reeducação alimentar automática.
A manutenção do peso e a construção de hábitos sustentáveis dependem de diversos fatores, incluindo alimentação adequada, atividade física, sono, saúde emocional e acompanhamento multiprofissional. Além disso, os medicamentos podem provocar efeitos adversos e não substituem uma abordagem individualizada do cuidado.
O debate sobre a eventual ampliação do acesso pelo Sistema Único de Saúde (SUS) também precisa considerar evidências de eficácia, segurança, custo-efetividade, critérios de indicação e capacidade de acompanhamento. A disponibilidade desses tratamentos na rede pública depende de decisões e políticas específicas, não apenas do crescimento da procura.
Na perspectiva de Flama Elias, o fenômeno das canetas emagrecedoras deve ser entendido para além da balança. Ele envolve a maneira como as pessoas percebem o corpo, buscam aceitação e incorporam novas referências de saúde e comportamento. A popularização dos medicamentos pode modificar hábitos e conversas, mas o pertencimento social não deveria depender do uso de uma substância nem da adequação a um padrão corporal.
A chamada era do emagrecimento, portanto, traz uma questão que vai além da tecnologia farmacológica: como conciliar os avanços no tratamento da obesidade com escolhas conscientes, acesso responsável à saúde e relações sociais menos condicionadas pela aparência.