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Cinema e conversa

Wanderley Andrade

Curta pernambucano elegível à disputa por indicação ao Oscar

O narrador de Os Arcos Dourados de Olinda vangloria-se diante do mapa da América do Sul exibido na tela: “A parte mais importante do Brasil, é claro, é Pernambuco, e a parte mais importante de Pernambuco, é Olinda”. Nada mais justo que a nossa boa (e cheia de razão) megalomania pernambucana. O curta do cineasta pernambucano, Douglas Henrique, segue essa linha muito bem humorada no intuito de contar a lenda do primeiro McDonald’s a falir no Brasil, para ser mais exato, em Olinda, e do que poderíamos chamar de Guerra Fria em proporções menores ocorrida em solo pernambucano no início dos anos 2000.

A narração de Giordano Castro, do grupo de teatro Magiluth, dá o tom de sarcasmo e bom humor ao curta, totalmente construído com imagens de arquivo. Paralelamente à grata notícia do fim dos planos capitalistas do Ronald MacDonald para as terras olindenses, Giordano narra os pormenores da acirrada disputa eleitoral entre a candidata comunista Luciana Santos (PCdoB) e a candidata de direita Jacilda Urquisa (PMDB).

Após ser exibido no 31º É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, onde conquistou todos os prêmios da edição, incluindo o de Melhor Documentário, o curta se qualificou para concorrer a uma vaga na 99ª edição do Oscar. É Pernambuco fazendo bonito mais uma vez no cenário do cinema mundial.

Entrevistei o cineasta pernambucano Douglas Santos, que contará detalhes do projeto e da campanha que está em curso para, quem sabe, uma possível indicação ao maior prêmio do cinema mundial.

– Você conseguiu juntar numa mesma história McDonald ‘s, Guerra Fria e disputa eleitoral em Olinda, de forma inteligente e muito bem humorada. Como surgiu a ideia para o doc? 

O filme surgiu em meio a pandemia de 2021. Eu estava em busca de algum projeto que contasse uma história de Pernambuco que não fosse tão popular. Eu buscava alguma coisa para ser um primeiro filme e acabei lembrando de uma história que eu ouvia de amigos dos meus pais e de amigos da escola quando eu era mais novo, de que Olinda havia sido a primeira cidade a falir o McDonald’s, assim como contam outras lendas de que o Recife teve o maior shopping da América Latina, de que tem a maior avenida em linha reta, coisas que são meio megalomania pernambucana de ser o primeiro, o maior e o melhor. Comecei a investigar no Google e descobri que não existia nenhuma foto sobre essa história, o que me chamou muito a atenção. Quando comecei a pesquisar, encontrei outra história que dizia que Olinda seria também a primeira cidade a eleger uma prefeita comunista, desde que o Brasil voltou à democracia. Era o ícone do capitalismo, o McDonald ‘s, que representava essa ideia dos Estados Unidos e um símbolo de um comunismo a nível local, representando o que seria uma ideia de Guerra Fria tardia. 

– O filme é todo costurado com imagens de arquivo. Como foi juntar todo esse material e selecionar o que seria importante para contar a história?  

Digitalizamos cerca de cinquenta horas de material do partido de Luciana Santos, além de muitas fotos do arquivo público, de jornais, arquivos pessoais de funcionários e pessoas que tiveram alguma relação com a McDonald ‘s, era muita coisa, principalmente vídeos. Nosso orçamento era muito limitado. Comecei a decupar esse material no intuito de ter uma base para o roteiro e a montagem. Às vezes o que tínhamos não funcionava na montagem com a narração, então tínhamos que voltar e revisar os arquivos e tentar encontrar outras soluções. Foi o trabalho mais exaustivo do filme, ficar mexendo e revisitando esses arquivos várias vezes.

Os Arcos Still 2

– Como tem sido a recepção nos festivais fora do Brasil? 

A princípio, estreamos o filme no Festival do Rio e, logo depois, fomos a um festival internacional, o Bogoshorts, na Colômbia, um festival de curtas. Ficamos muito felizes de estar selecionados junto com filmes muito bons da época e de ganhar o prêmio de Melhor Documentário Internacional. O público foi bem receptivo com o filme em Bogotá, interagiu muito bem. Em seguida, fomos à Havana e Portugal, com sessões sempre cheias. Os latino-americanos, em específico, sempre se conectam muito bem, provavelmente por enfrentarmos as mesmas dificuldades relacionadas à influência externa. Acabei de exibir o curta na França, no festival de cinema latino-americano Biarritz Amérique Latine. Foram duas sessões lotadas em que o público riu e interagiu bastante.

– O doc está elegível para a 99ª edição do Oscar. Quais caminhos, além de exibições em festivais mundo afora, seriam necessários para que essa indicação se concretize? Como anda a campanha do filme? 

Começamos a campanha há pouco. A ideia foi aproveitar o engajamento do filme que foi bem orgânico. Desde que estreou no Festival do Rio, as pessoas abraçaram a proposta do filme, e entendemos isso como uma oportunidade de fazer uma campanha a princípio pelo Brasil, conversando com o público nacional, que está bem engajado nas redes sociais, principalmente nos últimos dois anos com as campanhas do Oscar para longa de Melhor Filme Internacional. Iremos agora em outubro e, de forma mais intensa, no mês que vem, faremos ações pontuais no Brasil e em outros festivais internacionais. Na próxima semana exibiremos na Bélgica e também nos EUA. Nossa maior missão é fazer com que os votantes do Oscar assistam. Entre 70 e 80 documentários se qualificam para essa etapa, o que resulta numa lista de 15 pré-selecionados. 

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