*Por Clarissa Duarte
Há tempos constatamos como um traço cultural a “superautoestima pernambucana”. A baiana também não fica por baixo. Estados que costumam representar a “brasilidade” para o mundo, especialmente por meio de suas ricas e múltiplas manifestações culturais. Da capoeira ao cinema autoral, passando pelos múltiplos ritmos como o frevo, o maracatu, o afoxé ou o samba de roda, é exatamente nesta época do ano que vemos esses nordestinos explodirem de alegria e regozijo por serem, sim, responsáveis autênticos por identidades únicas, resistentes e decoloniais, que fazem vibrar o País e o mundo.
Paradoxalmente, a consciência dessa riqueza cultural parece se desfazer ou se perder ao longo do ano, quando retomamos nosso cotidiano repletas(os) de dependências globais, de hábitos ambientalmente inconsequentes, em habitações socialmente segregadoras; práticas que esbanjam hostilidade com o que é histórico, coletivo, comum e público.

Continuamos a substituir jardins e quintais por concreto, a depender do carro para ir à padaria, a desejar que comunidades pobres se mantenham longe e isoladas de nós (mesmo que delas dependamos). Perpetuamos a segregação entre “casa grande” e “senzala”, não somente por meio da hostilidade dos muros e guaritas que separam o espaço público do espaço privado, mas especialmente quando tratamos a rua e o “antigo” como lixo, o lote e o “novo” como luxo. Eis uma de nossas principais e mais curiosas contradições: amamos a rua e o Centro no Carnaval, mas demostramos detestá-los em um dia banal.
Curiosamente (ou não!) muitas das disfunções e incoerências ora descritas foram abordadas, direta e indiretamente, em diversos filmes e documentários do aclamado cineasta recifense Kleber Mendonça Filho, como a segregação socioespacial da cidade, pautada por um modelo subdesenvolvido de desenvolvimento imobiliário, ou pelo massacre da memória urbana pelos tratores de uma construção civil que ainda não aprendeu a empreender e lucrar preservando.

Descobrir como virar a chave dessa “crise de pensamento”, de políticas e práticas privatistas, parece ser um dos principais desafios a enfrentar no contexto urbano e político recifense e brasileiro. Neste sentido, o audiovisual aparece como uma ferramenta múltipla, tanto de entretenimento, para divertir e ironizar, mas sobretudo pedagógica, para gerar dissonâncias e interrogações, provocar estranhezas e desconfortos que, mesmo por meio da crítica, nos fazem discutir, coletivamente, temas e pautas que costumamos ignorar.
Kleber há tempos enquadra e exibe as incoerências da sociedade e da política pernambucana como um recorte das contradições da sociedade brasileira, uma sociedade de “pobreza rica” e de “riqueza pobre”. Comunidades quase miseráveis que passam o ano fazendo economias para representar sua cultura popular nos quatro dias de Momo, em contraponto a grupos abastados que se orgulham em pagar bem caro para brincar o Carnaval padronizados, fechados e climatizados, bem longe da multiculturalidade e diversidade vivenciada ao ar livre, nas ruas classificadas pela Unesco como “patrimônio cultural da humanidade” ou “cidade criativa da música”.
Aliás, num mundo no qual pouquíssimos bilionários decidem quantitativamente o destino da humanidade, e esta apresenta um percentual imenso de oprimidos pela fome, pelas guerras e injustiças climáticas, o Recife passa a ser também visto como um recorte representativo desse Planeta Urbano. Ao “cantar a sua aldeia", o cineasta pernambucano tornou-se universal, tanto pela urgência de recuperar nossa memória política e cultural como pela emergência de ressignificar o “ordinário” e o “existente” como riquezas imensuráveis, ao passo que “o exclusivo” e “o novo” se reconfiguram como valores questionáveis ou insustentáveis.
Ele nos mostra “o melhor do ordinário” e, por meio dessa curadoria, denuncia as desigualdades e hostilidades de uma cidade, de um país, de um continente e de um planeta que clamam pelo fim de ditaduras insanas e precisam despertar para a emergência de sociedades não dependentes de padrões binários como “opressores x oprimidos”, “desenvolvidos x subdesenvolvidos”, “ricos x pobres”, “direitas x esquerdas”.
Cannes e Hollywood vêm reconhecer, além de tantos atributos, um potencial simbólico: o da denúncia criativa e sensível pelo cinema, ou o da pedagogia histórico-cultural e política pela arte que imita a vida que imita a arte… Como o pau-brasil à época colonial, o cinema reaparece como identidade pernambucana e brasileira, mas dessa vez reconfigurando-a. O primeiro a fez pela exploração (um bem levado de nós), o segundo pela imaginação (uma narrativa única que levamos para o mundo).

Esse sucesso e reconhecimento precisamos enxergar não apenas como uma “massagem no ego”, mas também como um “tapa na cara”. Acordemos!! Ou melhor, “despertemos!”, como escreveu Edgar Morin. Essa obra que ora concorre a nada menos do que a quatro estatuetas de ouro é “apenas” mais um grito de um “ativista político, cultural e patrimonial” que há muitos anos vem denunciando a “crise de pensamento” da sociedade pernambucana (e brasileira) que segue perpetuando hábitos escravagistas, opressores e segregadores bem diante dos próprios olhos, debaixo dos próprios pés, cotidianamente…
Só não enxerga quem não quer!
Afinal, é mesmo muito mais confortável “não olhar pra cima”, não problematizar nossa história e seguir ampliando o sentimento de orgulho pernambucano, normalizando nosso “modo antiurbano de ser”, nos fechando em carros, shoppings, clubes e muros, acobertados pela incontestável desculpa da insegurança e calor crescentes. Jamais paramos para pensar o quão recente é o período da escravidão no nosso País, liderado por estados como o nosso. A força da supervalorização da “propriedade privada (nova)”, versus a superdesvalorização do “espaço público (preexistente ou histórico)”, parece estar ainda muito viva… os condomínios atuais refletem claramente casas-grandes de outrora… e as ruas, verdadeiras ágoras da vida urbana, seguem hostilizadas como as senzalas e subestimadas como os canaviais.

Finalmente, quando o Carnaval acaba, seguimos nossa vida (extra) ordinária, assistindo silenciosos várias casas e pequenos prédios memoráveis serem demolidos, ou ameaçados, como em Aquarius… vários muros subindo e dispositivos de segurança privada sendo instalados, como no Som ao Redor… Continuamos a ver as ruas do nosso Centro Histórico e seus icônicos cinemas caindo aos pedaços, murmurando, como em Retratos Fantasmas… enquanto os shoppings, mesmo sob ameaça do mercado virtual, permanecem o espaço urbano artificial mais desejado da população, como em Recife Frio. Tal qual um “pequeno povoado” no Sertão do mundo, o Recife persiste sua luta para aparecer no mapa global, vigiada por olhares estrangeiros, como em Bacurau… E como exalta O Agente Secreto, vamos vivendo as tensões urbanas e políticas atravessado blocos de Carnaval, normalizando a hegemonia exploratória do poder econômico e responsabilizando “pernas cabeludas” e tubarões como os principais vilões da cidade controversa mais inquietante do Brasil.
Que venha o Oscar! Não só para nos orgulhar, mas principalmente, para reverberar diálogos decoloniais e diversos sobre as desigualdades e contradições absurdas que ainda precisamos transformar.
*Clarissa Duarte é arquiteta e urbanista, professora, pesquisadora e consultora em planejamento urbano integrado e regenerativo.

