Problemas na pisada afetam tornozelos, joelhos, quadris e coluna e elevam o risco de lesões por sobrecarga e rigidez
A dor nos pés sem causa aparente é mais comum do que parece e pode indicar alterações estruturais que merecem atenção médica. Dados da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) mostram que cerca de 20% da população com até 69 anos relata algum desconforto nos pés ou tornozelos; entre pessoas acima dessa idade, o índice ultrapassa 50%, muitas vezes associado a deformidades que comprometem a estrutura dos pés e a qualidade da mobilidade.
Arco plantar em foco: pé chato e pé cavo
Entre as alterações mais frequentes estão as que envolvem o arco plantar, como o pé plano (chato) e o pé cavo. O ortopedista especialista em pé e tornozelo Fernandes Arteiro explica as diferenças: “No pé cavo, o arco é excessivamente elevado, o que faz com que o calcanhar e a parte da frente do pé fiquem mais pressionados. Já no pé chato, a planta do pé quase inteira entra em contato com o solo, aumentando o impacto a cada passada”.

Efeitos em cadeia no corpo
Segundo o especialista, essas condições alteram a forma de caminhar e a distribuição do peso corporal. “Essas alterações na pisada comprometem o mecanismo natural de amortecimento do pé, podendo provocar dores não apenas nos pés e tornozelos, mas também nos joelhos, quadris e coluna. Além disso, aumentam o risco de instabilidade e de lesões por sobrecarga ou rigidez”, alerta.
Sinais de alerta e fatores associados
Os sintomas variam conforme a deformidade, mas incluem dor ou sensibilidade na planta do pé, tornozelos ou pernas; inclinação excessiva dos calcanhares para dentro; mudanças no padrão da caminhada; inchaço; rigidez; formação de calos e deformidades nos dedos menores, como dedos em garra. A predisposição genética é um fator importante, mas não o único. “No pé chato, traumas no pé ou tornozelo, doenças neuromusculares, coalizão tarsal, além de fatores como diabetes, hiperlaxidez ligamentar e obesidade, podem favorecer o problema. Já o pé cavo costuma estar associado a distúrbios neurológicos, como AVC, paralisia cerebral, distrofias musculares, doença de Charcot-Marie-Tooth e até sequelas da poliomielite”, esclarece Arteiro.
Tratamento, infância e esportes de impacto
Na infância, o pé chato costuma fazer parte do desenvolvimento e raramente exige cirurgia. “A cirurgia é indicada apenas em situações raras, quando há dor persistente ou limitação funcional importante. Na grande maioria dos casos, o tratamento envolve o uso de palmilhas e fisioterapia”, explica o ortopedista. As opções incluem fisioterapia, palmilhas, exercícios de fortalecimento e alongamento e, em casos selecionados, cirurgia. “Quando o tratamento conservador não é suficiente ou quando a deformidade evolui, a cirurgia pode ser necessária. Atualmente, utilizamos técnicas minimamente invasivas, feitas por pequenos acessos, que permitem corrigir o alinhamento do pé com menor tempo de recuperação”, afirma. Para corredores e praticantes de esportes de impacto, a orientação é conhecer o tipo de pisada: “Usar um tênis adequado ao padrão do pé ajuda a evitar compensações posturais e reduz o risco de lesões nos tornozelos, joelhos e coluna”.

