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Jademilson Silva

“É preciso fazer as pazes com a comida”, defende Daniel Cady


Para o nutricionista Daniel Cady, longevidade e qualidade de vida estão relacionadas a uma rotina que considere sono, horários, alimentação, atividade física e, sobretudo, uma relação mais equilibrada com a comida. O tema esteve em debate durante o Real Talks Live Session, realizado no Real Hospital Português de Beneficência, no Recife.

Em entrevista exclusiva à Revista Algomais, Daniel Cady defendeu uma mudança na forma como as pessoas encaram a alimentação. Em vez de listas rígidas de alimentos permitidos ou proibidos, a proposta é recuperar o prazer de comer e construir hábitos que possam ser mantidos ao longo da vida.

“Eu não acho que a gente deva ser radical em nada. O caminho do meio é, para mim, o caminho mais assertivo. A gente precisa tentar fazer as pazes com a comida”, afirmou.

O encontro reuniu também o oncologista Fernando Baracho, a mastologista Rafaella Levy e o urologista Bruno Balio. A condução foi da médica, executiva em saúde e maratonista Marilea Souza, que mediou as discussões sobre saúde, prevenção e longevidade.

Debate

Na avaliação de Daniel Cady, estabelecer uma rotina saudável passa inicialmente pela organização dos horários. Um dos primeiros passos, segundo ele, é acordar mais cedo e ajustar o sono a esse novo ritmo.

A explicação está relacionada à cronobiologia, área que estuda a relação entre os ritmos biológicos e os ciclos ambientais, incluindo a alternância entre luz e escuridão. O organismo possui um ciclo circadiano que influencia diferentes funções corporais.

“Quando a gente acorda mais cedo, a gente se comporta como todos os animais no planeta, que funcionam seguindo o nosso orientador, que é o sol”, explicou.

Para o nutricionista, não basta antecipar o horário de acordar. É necessário também dormir mais cedo para garantir a quantidade de sono necessária. A organização da rotina, portanto, começa pela compreensão de que o corpo precisa de regularidade.

“Você tem que ter horário para tudo”, resume.

Daniel Cady também falou sobre a distribuição das refeições ao longo do dia. Embora reconheça as discussões em torno do jejum, ele considera que, para grande parte das pessoas que seguem uma rotina convencional de trabalho, é importante estabelecer horários regulares para comer.

“Para a rotina que a maioria vive, de horário comercial, de 8 às 18, a gente precisa ter pelo menos três refeições por dia”, afirmou.

A sugestão apresentada por ele inclui café da manhã, almoço por volta do meio-dia ou início da tarde e jantar o mais cedo possível. A orientação está relacionada também ao sono. Comer muito próximo do horário de dormir, segundo Cady, pode atrapalhar o descanso e favorecer desconfortos como refluxo.

O almoço, por sua vez, seria um momento adequado para uma refeição mais completa, inclusive com maior presença de proteínas, considerando o processo de digestão.

Mais do que estabelecer regras universais, a proposta apresentada pelo nutricionista é organizar a alimentação de acordo com uma rotina que seja sustentável e compatível com a vida real.

Na escolha dos alimentos, Daniel Cady retoma uma recomendação que se tornou conhecida na área da alimentação saudável: “descascar mais, desembalar menos”.

A ideia é priorizar comida de verdade e alimentos que façam parte de uma alimentação tradicional, com presença de arroz, feijão, verduras, saladas e fontes de proteína, como carne, frango e peixe.

“Tem um lugar para o arroz, tem um lugar para o feijão, tem um lugar para a salada, tem um lugar para uma proteína”, destacou.

Ao mesmo tempo, ele recomenda reduzir o consumo de produtos como embutidos, refrigerantes e ultraprocessados. O açúcar também aparece entre os ingredientes que, na avaliação do nutricionista, devem ser consumidos com moderação.

A orientação, entretanto, não significa transformar a alimentação em um conjunto de proibições. Para Cady, não existem alimentos que devam ser tratados como vilões absolutos.

“Não existe nenhum alimento vilão. Essa coisa de fazer terrorismo nutricional atrapalha muito e deixa a pessoa muito insegura sobre o que deve ou não deve comer”, afirmou.

Daniel

É nesse ponto que a relação de memórias com a comida ganha espaço na abordagem do nutricionista. Para ele, uma alimentação saudável precisa ser prazerosa para que consiga permanecer na rotina.

As memórias afetivas alimentares construídas principalmente durante a infância fazem parte dessa relação. Determinados pratos podem estar associados à família, às celebrações, à infância e a momentos de convivência. Por isso, eliminar radicalmente alimentos que carregam esse significado pode dificultar a manutenção de hábitos alimentares equilibrados.

Daniel Cady defende que essas receitas podem ser ressignificadas, com mudanças que as tornem mais naturais, sem eliminar o prazer associado à comida.

“A gente cria ao longo da nossa vida, sobretudo da infância, muitas memórias afetivas em relação ao que comer. Por mais que essas memórias sejam de coisas que não são tão saudáveis, a gente não pode abrir mão disso”, explicou.

Para ele, o equilíbrio está justamente em evitar extremos.

“Não acho que a gente deva ser radical em nada. O caminho do meio é, para mim, o caminho mais acertivo”.

A relação entre alimentação e prevenção de doenças também esteve presente na conversa. Para Cady, cuidar do que se come é uma das dimensões da construção de uma vida mais saudável e deve estar inserida em uma estratégia mais ampla de cuidado.

A comida, nesse contexto, não aparece apenas como fonte de nutrientes, mas também como parte da convivência social e do cuidado com o próprio corpo.

“Eu tento fazer com que a alimentação seja não só um momento de socialização, mas um momento também de a gente estar cuidando do nosso corpo”, disse.

O nutricionista relaciona ainda esse cuidado à prevenção de doenças, incluindo o câncer. “A prevenção de todas as doenças, inclusive alguns tipos de câncer, começa na cozinha”, afirmou.

A declaração resume a perspectiva apresentada durante o encontro: alimentação não deve ser encarada de maneira isolada, mas como parte de um conjunto de comportamentos que inclui sono adequado, organização dos horários, escolhas alimentares, movimento e equilíbrio na relação com a comida.

A discussão sobre longevidade ganha, assim, uma dimensão que vai além da expectativa de viver mais anos. O foco passa pela qualidade desses anos e pela capacidade de manter hábitos que façam sentido no cotidiano.

A proposta de Daniel Cady é menos sobre seguir uma fórmula pronta e mais sobre construir uma rotina possível. Acordar e dormir em horários regulares, organizar as refeições, priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, reduzir ultraprocessados e manter o prazer de comer aparecem como elementos de uma mesma estratégia.

Nesse modelo, saúde não significa abrir mão da vida social ou transformar a alimentação em fonte permanente de culpa. Significa encontrar equilíbrio entre escolhas mais saudáveis e os aspectos culturais, afetivos e sociais que também fazem parte da alimentação.

A mensagem deixada pelo nutricionista durante o Real Talks Live Session pode ser resumida em uma mudança de perspectiva: cuidar da saúde não precisa significar entrar em guerra com a comida. Ao contrário, fazer as pazes com ela pode ser parte do caminho para uma relação mais sustentável com a alimentação e, consequentemente, com a própria vida.

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