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Francisco Cunha

É urgente o redesenho do quebra-cabeças desmontado do Recife

Gosto de dizer que me graduei em arquitetura pela UFPE e me pós-graduei em urbanismo pelos pés. Isso porque, desde que comecei a caminhar sistematicamente no Recife, há cerca de 20 anos, já percorri, pelas minhas contas, mais de 40.000 km dentro da cidade. Essa distância é a mesma da circunferência da Terra, o que me leva a brincar com o fato de que andei o mundo inteiro sem sair do Recife.

Ao longo deste percurso, tive a oportunidade de estudar, pesquisar, levantar hipóteses, fazer conjecturas e chegar a conclusões sobre o urbanismo, em especial no que diz respeito ao processo histórico de urbanização do Recife. Neste particular, uni três paixões, uma mais antiga e duas mais recentes: história, caminhada e urbanismo.

Ao longo deste processo, uma imagem se formou na minha percepção sobre o que aconteceu com o Recife. Até meados do Século XX, a cidade teve o seu percurso de crescimento mais ou menos estruturado, mais orgânico do que projetado, todavia sob relativo controle. Em linhas gerais e de forma simplificada, é possível dizer que a evolução se deu do seguinte modo: (1) no primeiro século (XVI), a ocupação predominante foi do atual Bairro do Recife, então eminentemente portuário; (2) no segundo (XVII), com a invasão holandesa, foi ocupada a Ilha de Antônio Vaz, atuais Bairros de Santo Antônio e São José, inclusive com um plano urbanístico renascentista pioneiro no continente americano; (3) no terceiro (XVIII), inicia-se a ocupação do atual Bairro da Boa Vista, área de terra mais firme, não insular, pouco inundável, da cidade; (4) no quarto (XIX), começa a ocupação dos chamados “arrabaldes” mais distantes, favorecida pela chegada dos trilhos com o primeiro trem urbano a vapor do hemisfério sul (a Maxambomba) e os bondes puxados a burro. No quinto século (XX), a cidade é duplamente “atropelada”: pelo crescimento populacional (a população do Recife multiplicou-se por dez de 1900 a 2000); e pelo automóvel cuja frota cresceu de zero em 1900 para quase 400.000 em 2000 (um carro para cada cerca de 3 habitantes, uma das maiores taxas do Brasil).

Depois de entender esta evolução, em especial no que diz respeito ao duplo “atropelamento” sofrido pela cidade, a imagem-síntese que se formou na minha mente foi a de um quebra-cabeças desmontado, que rompeu o “desenho” original que se vinha construindo de forma paulatina. Sem “desenho”, então, sobrevém o salve-se quem puder. Tudo passou a ser feito, na ausência da figura orientadora, com cada um procurando colocar as suas “peças” de um quebra-cabeças que não se sabia qual era. A impressão que dá é que a cidade, grosso modo, ficou à deriva em termos de planejamento urbano, a despeito dos esforços, infelizmente muito pouco exitosos, de retomada do “controle” perdido.

Se essa imagem faz sentido (e, a meu ver, faz muito), então, o desafio urbanístico da cidade é refazer o desenho do quebra-cabeças, de modo a que seja possível colocar cada “peça” no lugar certo e, não, aleatoriamente como passou a ser feito da segunda metade do século passado até bem pouco tempo atrás. É, portanto, imperioso fazer isso sob pena de não se conseguir traçar mais nenhum desenho que faça sentido, perpetuando o desmonte do quebra-cabeças e, assim, terminar perdendo a cidade para sempre.

Em relação a essa questão do redesenho do quebra-cabeças que hoje se encontra desmontado, felizmente três iniciativas de grande relevância estão em curso na cidade: (1) a retomada do planejamento estratégico de longo prazo com a elaboração, já em segunda versão, do Plano Recife 500 Anos; (2) a conclusão da pesquisa, encomendada pela Prefeitura do Recife à UFPE, Parque Capibaribe, cujo plano urbanístico prevê um parque urbano ao longo dos 15 km do rio na cidade, desde a Várzea até sua chegada no Atlântico no Centro do Recife, conectando os principais parques e praças existentes ao longo do percurso; e (3) a realização da pesquisa, também encomendada pela Prefeitura do Recife à UFPE, como continuação do Parque Capibaribe, para estudar a hipótese, lançada pela pesquisa anterior, de que o Recife ainda pode vir a consolidar as bases para se transformar numa cidade-parque, considerando o fato de que quase 50% do Recife ainda é composta de áreas verdes.

Hoje, a principal ideia-força para refazer o desenho desmanchado pelos atropelamentos sofridos pelo Recife é, justamente, essa da cidade-parque com a mudança da lógica eminentemente rodoviarista do traçado urbano para uma lógica de planejamento por bacias hidrográficas. Além da bacia central do Capibaribe, a bacia do Rio Beberibe, ao norte, e a do Tejipió, ao sul, que comportariam, também, parques como o do Capibaribe. Com esses três grandes parques ao longo dos rios, seria possível adensar com verde (parque, praças e a infiltração de ruas-parque) os espaços intermediários e, assim, junto com o grande parque da frente marinha do Recife, lançar as bases da cidade-parque até o aniversário de 500 anos do Recife, a primeira capital brasileira a completar cinco séculos em 2037.

Sim, os excessivamente realistas dirão que é uma utopia, um sonho. É verdade, afinal, como disse o poeta recifense Carlos Pena Filho, “É do sonho (…) que uma cidade se inventa”. Outro escritor, este parisiense, Victor Hugo, disse: “Nada como o sonho para criar o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã.”

Estou convencido, depois de percorrer o mundo dentro do Recife, que é, justamente, o sonho possível da cidade-parque que permitirá construir a visão de futuro, a imagem-objetivo, capaz de permitir o redesenho do quebra-cabeças desmontado em que se transformou a cidade. Aquele que permitirá a recolocação de cada peça no lugar certo. Sem isso, o caos vencerá. E o Recife e seu povo merecem coisa muito melhor do que ficar para história como um reles quebra-cabeças desmontado.


*Francisco Cunha é consultor empresarial e sócio da TGI

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