Criatividade que gera renda: Por que apostar na economia que nasce na cultura?

*Por Rafael Dantas

Pernambuco reúne uma das cenas culturais criativas mais vibrantes do País e não faltam símbolos dessa potência. Do cinema premiado de O Agente Secreto à grandiosidade da Fenearte, passando pela energia das festas populares, como o Carnaval e o São João, o Estado constrói seus próprios troféus com câmeras, barro e a inventividade que atravessa gerações. Se por muito tempo essa produção foi tratada como periférica, hoje ela ganha novo patamar. No desenho do próximo ciclo de desenvolvimento, a economia criativa desponta como um dos pilares estratégicos para as próximas décadas, segundo as discussões do projeto Pernambuco em Perspectiva.

As linguagens da economia criativa de Pernambuco são muitas e se espalham por praticamente todo o território. O Agreste, por exemplo, abriga uma potente produção ligada à confecção e à moda. O Recife é solo fértil da indústria audiovisual. A Zona da Mata Norte é berço de manifestações culturais, como o maracatu. O artesanato, como se vê nos corredores da Fenearte, está presente em praticamente todas as cidades. E ainda nem falamos da música, das artes plásticas, da literatura e de tantas outras expressões.

Nas discussões sobre o novo ciclo de desenvolvimento de Pernambuco, a economista Tânia Bacelar, sócia da consultoria econômica Ceplan, destaca que a economia criativa deve ser um dos pilares da economia do Estado. Entre outros aspectos, ela ressalta que o setor distribui renda de forma muito democrática, beneficiando uma vasta cadeia de fornecedores, e potencializa outros setores, como o turismo.

“É um tipo de atividade que mobiliza muita gente. Então, para um país como o nosso, que tem um problema de desemprego, de subemprego grande, a economia criativa cai como uma luva”, resume a economista. A produção cultural tem essa marca: ela é generosa do ponto de vista da criação de oportunidade de inserção para o processo produtivo.”

Tania Bacelar cultura
Tânia Bacelar defende que o setor seja um dos pilares da economia do Estado. “É um tipo de atividade que mobiliza muita gente. Então, para um país como o nosso, que tem um problema de desemprego e de subemprego grande, a economia criativa cai como uma luva”, justifica.

BARREIRA DA FORMALIZAÇÃO

Para incentivar esse setor tão popular e potente no desenvolvimento social, o Brasil e Pernambuco já têm políticas públicas em andamento há décadas. Os editais de cultura, a promoção de feiras e a capacitação desses produtores não é mais uma novidade. No entanto, há uma série de entraves que impede um melhor aproveitamento desse potencial.

Muitos produtores de cultura de Nazaré da Mata, por exemplo, conhecidos pela tradição do maracatu passam por imensas dificuldades. A beleza da manifestação, tão presente nas peças publicitárias do turismo e do lazer do Nordeste, ofusca uma realidade dura vivida por vários dos grupos que mantêm essa herança com muito sentimento, mas poucos recursos.

“A Mata Norte é um dos maiores celeiros de economia criativa. Mas muitos vivem com cachês muito abaixo do que outras áreas culturais conseguem. Falta apoio também para que esses grupos consigam acessar os editais e transformar suas ideias em projetos”, avalia o jornalista e produtor cultural Salatiel Cícero. Ele aponta um fator que é presente na maioria das linguagens desse setor em Pernambuco. “O artista faz arte. Ele não quer saber da burocracia.”

A distância entre a produção criativa e o acesso à linguagem dos editais de cultura é grande. Daí a pensar em modelos de negócios que dependam menos do poder público e sejam mais sustentáveis, há uma corrida ainda maior. Um diagnóstico que aponta para uma primeira urgência, segundo Tânia Bacelar: o enfrentamento da informalidade.

Salatiel Cicero
Salatiel Cícero ressalta que a Mata Norte é um dos maiores celeiros de economia criativa, mas muitos artistas da região vivem com cachês abaixo de outras áreas culturais. “Falta apoio também para que consigam acessar os editais e transformar suas ideias em projetos”

“Esse é um segmento produtivo importante, mas que ainda enfrenta muita dificuldade de organização. A gente vive numa sociedade que requer formalidades. A economia criativa é uma atividade muito rica e poderosa, mas muito informal”, avalia a economista. Uma realidade que impõe um esforço das políticas públicas para simplificação dos processos, no que for possível, e capacitação ou o desenvolvimento de estruturas de apoio que contribuam para vencer essa barreira. 

Tânia aponta o estímulo à formação de cooperativas como um caminho possível para avançar na formalização dessas atividades. Ela também observa que, diante da resistência de mestres mais antigos em criar um CNPJ ou elaborar projetos, incentivar as gerações mais jovens das famílias ligadas à produção cultural pode ser uma estratégia eficaz para transformar essa realidade.

FALTA DE DADOS É UM DESAFIO DA ECONOMIA CRIATIVA

Outro problema no horizonte é a falta de dados. Espalhada por diferentes regiões e linguagens, a economia criativa ainda carece de informações mais precisas sobre o tamanho da produção e seus fluxos. Sem esse mapeamento, produtores enfrentam mais dificuldade para acessar mercados e o poder público encontra limites para planejar ações de desenvolvimento para o setor.

Pernambuco já deu um passo importante no mapeamento da economia criativa. Um dos marcos foi a realização do Estudo da Cadeia Produtiva do Artesanato, demandado pela Adepe (Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco) ao Laboratório O Imaginário, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). O levantamento ouviu quase 900 pessoas em 89 municípios, identificou as singularidades de cada região de desenvolvimento e apontou diretrizes para fortalecer os trabalhadores, ampliar mercados, qualificar produtos e valorizar os territórios.

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Mesmo com esse passo inicial, Camila Bandeira, diretora de economia criativa da Adepe, reconhece que há uma dificuldade de encontrar dados do setor. Diante da potencialidade e da forte demanda que vem dos produtores, o próximo estudo a ser encomendado pela agência será no setor audiovisual.

“A gente ainda tem muita dificuldade de ter dados mais consolidados sobre a economia criativa. Cada território tem suas potências e suas fragilidades. O próximo passo é justamente fazer um estudo voltado para o audiovisual, porque é um setor que tem crescido muito e que a gente ainda precisa entender melhor”, afirmou Camila. Esse segmento, inclusive, tem um grau muito maior de formalização e de capacidade de elaboração de projetos. Uma realidade que difere muito da maioria das demais linguagens da economia criativa. 

Em relação à economia criativa da cultura afro-brasileira da Mata Norte, Salatiel Cícero lançou a plataforma digital Casa do Maracatu – onde a cultura popular faz negócios. Ela reuniu informações, serviços e formas de contratação de grupos de Maracatu de Baque Solto. A proposta é funcionar como uma vitrine online, aproximando mestres, brincantes e agremiações de empresas, instituições, escolas e do público em geral, facilitando o acesso a apresentações, oficinas, visitas culturais e outros produtos ligados à tradição.

5.Casa Maracatu
Plataforma Digital Casa do Maracatu

A proposta dessa plataforma, que uniu dados escassos do segmento, busca reposicionar o maracatu para além do ciclo carnavalesco. “Existem grupos que não têm histórico, que não lembram a quantidade de prêmios que ganharam”, relatou Salatiel, ressaltando a importância desse trabalho que é de pesquisa e de comunicação. O objetivo é ampliar oportunidades de trabalho e geração de renda ao longo de todo o ano. Mais que apenas um estudo e levantamento de dados, a Casa do Maracatu também dialoga com princípios da economia solidária, estimulando a cooperação, a autogestão e o fortalecimento das comunidades. 

VALORIZAÇÃO SIMBÓLICA DA PRODUÇÃO LOCAL

6.baile perfumado

O cinema pernambucano há muito tempo é destaque nacional, principalmente após o lançamento de O Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas. Desse marco do ressurgimento do cinema local até hoje, são 30 anos de muitas produções. Mas as quatro indicações do Oscar para O Agente Secreto elevaram o reconhecimento para além dos críticos. O sucesso reverbera até para o turismo na cidade do Recife.

Outras linguagens da economia criativa não têm uma plataforma de visibilidade como a oferecida pelo circuito de cinema. Nem contam com uma grande chancela externa, o que reverbera em menos valor local. Um ciclo negativo que desvaloriza o trabalho de quem produz o artesanato ou a moda. Para Tânia Bacelar, a explicação é que há uma variável cultural que precisa ser vencida para valorizar o que é “nosso”.  

“A gente ainda precisa conquistar a sociedade brasileira. A relevância que o cinema está recebendo é porque quando chega no Oscar não dá mais para esconder esse potencial enorme. Aí se consegue atrair olhares de quem pode patrocinar com mais facilidade”, pondera a economista. “Mas a nossa elite intelectual e financeira é herdeira da colonização e tem uma cabeça colonizada. Ela valoriza o que é de fora, mas não o que é nosso. É capaz de comprar uma bolsa na França muito cara, mas não é capaz de dar esse mesmo valor a um quadro de um grande pintor nosso. Isso é um problema para esse setor, porque essa economia criativa é nossa”.

Essa percepção do valor da arte produzida pelos artistas é fundamental para o avanço na precificação da produção local. Não são raras as críticas aos baixos cachês recebidos pelas apresentações culturais, por exemplo.

ECONOMIA CRIATIVA NÃO COMO “APOIO À CULTURA”, MAS COMO ECONOMIA DE VERDADE

Os especialistas defendem que os investimentos realizados no setor não devem ser encarados apenas como um apoio à sobrevivência das atividades culturais do Estado. Ela deve ser vista como um segmento produtivo estruturante e, inclusive, que não deve depender unicamente do poder público. “Não é um setor periférico, é um segmento produtivo relevante da economia”, resume Tânia Bacelar.

A partir dessa percepção e de que já temos uma matéria-prima muito rica na produção, um ponto chave importante de virada é vender. Há alguns anos, por exemplo, a Fenearte tem dado ênfase à sua característica de ser um evento de negócios. Com ajustes e investimentos estratégicos, a feira obteve um salto muito grande no faturamento. Em 2025, por exemplo, foram R$ 163 milhões, 50% a mais que no ano anterior e o triplo de 2023. 

O avanço no faturamento, na avaliação de Camila, é resultado da profissionalização da feira, especialmente na melhoria da experiência do público e dos expositores. Medidas como a venda de ingressos online e a ampliação da área de acesso tornaram o ambiente mais confortável e ampliaram o fluxo de visitantes, com impacto direto nas vendas. Ao mesmo tempo, a Fenearte passou a ser assumida de forma mais clara como uma plataforma de negócios. Esse reposicionamento incluiu a ampliação de linguagens, com a entrada mais estruturada de setores como design e moda, além de ações que conectam expositores a novas oportunidades comerciais. 

7.Fenearte

A produção cultural de Pernambuco tem um grande potencial também de mesclar suas linguagens e oferecer produtos ligados às tendências mais contemporâneas de turismo, apreciadas por visitantes brasileiros e estrangeiros. Salatiel ressalta que “o turista hoje não quer só ver, quer sentir, quer participar.”

Abre-se uma grande janela de oportunidades com diversos territórios culturais do Estado. Na prática, esse movimento se traduz em experiências que vão além da apresentação no palco, que é o mais tradicional. Em vez de apenas assistir a um maracatu, por exemplo, o visitante pode participar de oficinas, conhecer a história dos grupos, circular pelos espaços onde essas manifestações acontecem e interagir diretamente com mestres e brincantes. É um modelo que transforma a cultura em vivência e amplia as possibilidades de geração de renda a partir de tradições já existentes.

 Porém, sejam os ateliês dos mestres do barro, as sedes dos maracatus ou os espaços museológicos que ressaltam as nossas tradições culturais, é preciso de estrutura. Com roteiros e uma comunicação organizada, outras oportunidades podem se abrir para os produtores de cultura do Estado.

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O Armazém 11, onde funciona o Centro de Artesanato, será retrofitado, com a proposta de modernizar o ambiente e torná-lo mais funcional e atrativo para o público

Um investimento de curto prazo para fortalecer uma das principais vitrines no Recife é o retrofit do Armazém 11. O equipamento, localizado ao lado do Marco Zero, abriga hoje o Centro de Artesanato de Pernambuco, a loja Mape (Moda Autoral de Pernambuco) e a loja Bebidas de Pernambuco. O espaço será reposicionado como um mercado criativo do Estado, com a proposta de modernizar o ambiente e torná-lo mais funcional e atrativo para o público. “Armazém 11 vai ser o nosso mercado criativo de Pernambuco”, planeja Camila Bandeira. 

A reformulação inclui desde a atualização do layout das lojas até melhorias no fluxo de visitantes e nas estratégias de visual merchandising, com o objetivo de profissionalizar a experiência de expositores e consumidores. O novo centro deve incorporar espaços expositivos permanentes e temporários, fazendo a conexão para diferentes linguagens, como artes visuais e audiovisual. 

A área dedicada às bebidas, por exemplo, deve se aproximar da gastronomia, com a presença de produtos de diferentes territórios de Pernambuco, como queijos e doces, disponíveis para comercialização. O espaço também será pensado como um ambiente de trabalho, permitindo que profissionais como arquitetos e designers utilizem o local para desenvolver projetos junto aos clientes. 

OLHAR PARA FORA DE PERNAMBUCO E DO PAÍS

11.Camila Bandeira Fotos Marlon Amorim
Inserir as produções locais no mercado externo da economia criativa está nos planos de Camila Bandeira. A criação de um programa da Adepe que viabilize a participação de produtores em eventos internacionais, com apoio institucional e financeiro, é uma das ações em estudo.

Outro desafio é ampliar o mercado para a economia criativa pernambucana, considerando, inclusive, o consumidor internacional. Se vender nossos produtos para fora é um gargalo para muitos setores tradicionais, para os produtores de cultura não é diferente. Mas há iniciativas importantes já em curso na direção de conectar a criatividade made in Pernambuco ao consumidor estrangeiro.

A inserção da economia criativa pernambucana nos mercados internacionais já aparece entre as ações estratégicas da política pública estadual, segundo Camila Bandeira. “A questão da internacionalização é um desafio, é uma virada de chave”, afirmou a gestora, ao destacar que ampliar a presença global dos empreendedores criativos é passo fundamental para elevar o protagonismo do setor. 

Na prática, esse movimento começa a ganhar forma a partir de instrumentos já existentes, como o programa Exporta PE, que atende diferentes setores e inclui iniciativas da economia criativa, a exemplo de produtores de cachaça e empreendedores da moda. Ao mesmo tempo, a agência trabalha na modelagem de uma política mais direcionada, inspirada em experiências como a de São Paulo, com foco em mapear oportunidades no exterior e preparar os criativos locais para acessá-las. 

Entre as ações em estudo está a criação de um programa que viabilize a participação de empreendedores em eventos internacionais, com apoio institucional e financeiro. “A gente vai mapear as principais feiras internacionais e abrir um chamamento para os empreendedores participarem com subsídio da Adepe”, explica Camila. A estratégia também inclui o movimento inverso: atrair compradores estrangeiros para Pernambuco, por meio de rodadas de negócios internacionais na Fenearte. 

Uma iniciativa no radar do segmento audiovisual, por exemplo, será a criação da Pernambuco Film Commission. A proposta é montar uma estrutura voltada a facilitar a realização de produções no Estado, atuando tanto na atração de investimentos quanto no apoio a cineastas que queiram filmar em Pernambuco. A ideia é criar um ambiente mais organizado e favorável para essas filmagens acontecerem, estimulando que novos projetos venham para Pernambuco e que as produções pernambucanas permaneçam e se desenvolvam. 

A PERSPECTIVA DOS TERRITÓRIOS CRIATIVOS

Claudia Leitao
A Secretaria de Economia Criativa, gerida por Cláudia Leitão, passou a adotar uma abordagem de política pública que visa não apenas o negócio individual do produtor, mas os territórios criativos. Ela é autora do livro Criatividade e Emancipação nas Comunidades-Rede.

Além de enfrentar a informalidade e profissionalizar as estruturas de fomento à economia criativa, fortalecendo sua comercialização, outra tendência no radar do setor é atuar com políticas públicas que contemplem não apenas o business ou o negócio individualmente, mas os territórios criativos. 

Conceitualmente, os territórios criativos são os lugares onde a cultura, a criatividade e a atuação das comunidades impulsionam o desenvolvimento local. Neles, pessoas, instituições e políticas públicas se articulam para gerar inovação e renda, valorizando identidades culturais e saberes tradicionais. O conceito vai além do crescimento econômico: envolve também sustentabilidade e participação social, com ações integradas que estimulam a produção e a circulação de bens e serviços criativos. 

Essa abordagem foi incorporada como uma das diretrizes do Governo Federal, especialmente a partir da atividade da Secretaria de Economia Criativa do Ministério da Cultura. A pasta passou a estruturar políticas voltadas ao mapeamento, fortalecimento e desenvolvimento desses territórios no Brasil. “Cultivar a criatividade consiste em encontrar novas formas e meios para que pessoas e comunidades possam conceber novas e melhores maneiras de viver e trabalhar juntas”, afirmou a secretária de economia criativa, Cláudia Leitão, no livro Criatividade e Emancipação nas Comunidades-Rede.

Essa concepção de territórios dialoga diretamente com a experiência pernambucana, profundamente enraizada na arte popular e nas dinâmicas comunitárias. Em um momento de reflexão sobre o novo ciclo de desenvolvimento do Estado, abre-se uma janela estratégica de oportunidades para o setor. Já passou da hora de enxergar apenas roupa onde existe moda, barro onde existe arte e reconhecer, com a devida dimensão, o valor de criatividades tão singulares que brotam do solo pernambucano.

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