Para o CEO do CESAR, se Pernambuco quer ter competitividade tecnológica, é fundamental a instalação de data centers. Ele afirma que o Estado oferece condições favoráveis, como energia renovável e disponibilidade de área, mas enfrenta gargalos na conectividade internacional – por não contar com cabos submarinos – e ausência de política fiscal para aquisição de equipamentos.
A expansão acelerada da economia digital transformou os data centers sem infraestrutura estratégica para países e regiões que buscam competitividade tecnológica. Mais do que armazéns de dados, esses complexos concentram poder computacional, atraem cadeias produtivas de alto valor agregado e sustentam o funcionamento de plataformas digitais, inteligência artificial e serviços críticos. Nesse cenário global, Pernambuco desponta com ativos relevantes, energia renovável, área disponível e ecossistema tecnológico, mas ainda enfrenta entraves estruturais, especialmente de conectividade internacional, que limitam sua inserção na geografia mundial dos grandes centros de processamento.
É nesse contexto que o papel de instituições de inovação ganha relevância na equação que envolve capacidade computacional, desenvolvimento de soluções e pesquisa aplicada. Fundado em 1996, o CESAR (Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife) tornou-se um dos pilares do Porto Digital e da construção de uma economia baseada em tecnologia e conhecimento no Nordeste. A trajetória da organização acompanha a própria evolução da internet comercial no Brasil e a transformação do Recife em polo de software, design e empreendedorismo digital. Hoje, além de atuar em desenvolvimento tecnológico e soluções para empresas, o CESAR investe em formação de talentos, venture building e projetos de alta complexidade voltados a diferentes setores industriais.
Para compreender o potencial pernambucano na corrida por data centers no Brasil e os caminhos para consolidar uma economia digital madura, o CEO do CESAR, Eduardo Peixoto, concedeu entrevista a Larissa Aguiar. Na conversa, ele analisa os requisitos técnicos e regulatórios para atrair grandes infraestruturas de dados, discute o papel do capital de risco e da educação tecnológica e explica como o CESAR articula inovação, mercado e formação profissional no ecossistema do Recife.
O crescimento da demanda por infraestrutura digital colocou os data centers no centro das estratégias tecnológicas globais. Como o senhor avalia o potencial de Pernambuco para atrair investimentos nesse segmento?
Pernambuco tem um potencial relevante. Há disponibilidade de área, especialmente na região de Suape, há energia limpa em volume significativo e há condições ambientais que permitem licenciamento. Esses são pré-requisitos importantes para data centers de grande porte. O principal gargalo hoje é a conectividade internacional. Fortaleza, por exemplo, tornou-se um hub global porque recebe cabos submarinos diretos da Europa, da África e dos Estados Unidos.
Para operações de grande escala, é essencial ter conexão direta, sem múltiplos saltos, porque cada salto aumenta a latência (tempo que um dado leva para sair de um dispositivo, chegar até um servidor na internet e retornar com a resposta) e reduz a competitividade. Além disso, contam fatores como energia renovável contínua 24 horas por dia, água para sistemas de resfriamento, logística eficiente para importação de equipamentos e incentivos fiscais. Pernambuco tem parte desses elementos, mas precisa avançar principalmente na infraestrutura de cabos submarinos.
Por que a presença de grandes data centers é considerada estratégica para o Brasil e para os estados?
Porque estamos cada vez mais dependentes de plataformas digitais e de capacidade computacional. Nesse contexto, dispor de data center, de uma infraestrutura própria de processamento e armazenamento, é questão de soberania digital. Um data center não é apenas um prédio com servidores. Vai além disso, ao criar externalidades positivas, como demanda por engenharia especializada, infraestrutura energética, segurança, telecomunicações e serviços de alto valor agregado. Também atrai empresas de tecnologia, desenvolvedores e fornecedores. Portanto, é um elemento de desenvolvimento econômico, tecnológico e de posicionamento global.
A instalação de data centers pode ser vista como indicador de maturidade digital de uma região?
Eu diria que é uma peça importante do quebra-cabeça. Não é a única, mas sinaliza que a região possui infraestrutura energética, conectividade, ambiente regulatório e ecossistema tecnológico capazes de sustentar a economia digital. Para Pernambuco e para o Brasil, é mais um passo na construção de uma sociedade digital mais avançada.
Quais condições precisam ser estruturadas para que o Recife e o Estado se tornem competitivos nessa corrida?
O primeiro ponto é assegurar conectividade internacional direta, por meio da chegada de cabos submarinos ao litoral pernambucano, reduzindo a latência e aumentando a confiabilidade das conexões globais, um requisito essencial para operações de grande porte e serviços digitais em tempo real.
O segundo é garantir oferta de energia limpa, estável e em larga escala, com disponibilidade contínua 24 horas por dia e capacidade de expansão para acompanhar o crescimento da demanda computacional para os data centers de alto desempenho.
O terceiro envolve a construção de um ambiente regulatório e fiscal competitivo, capaz de reduzir custos de importação de equipamentos, simplificar processos aduaneiros e oferecer segurança jurídica aos investidores, criando condições equivalentes às de outros polos internacionais.
Há discussões importantes, como o Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center), que buscam reduzir a carga tributária de importação de maquinário para data centers. Trata-se de uma agenda fundamental, considerando que esses equipamentos são caros e altamente especializados. Sem competitividade tributária, os investimentos tendem a migrar para outros países ou estados que oferecem condições mais favoráveis.
Como o CESAR se insere nesse debate sobre infraestrutura digital e soberania tecnológica?
O CESAR atua em múltiplas frentes da economia digital, conectando pesquisa aplicada, desenvolvimento tecnológico, formação de profissionais e inovação para diferentes setores produtivos. Embora não seja responsável pela construção ou operação direta de data centers, a instituição desenvolve tecnologias, soluções e talentos que dependem intensamente desse tipo de infraestrutura para ganhar escala e desempenho.
Áreas como inteligência artificial, computação de alto desempenho, internet das coisas e análise massiva de dados demandam volumes crescentes de processamento, armazenamento e conectividade, requisitos que só podem ser plenamente atendidos por centros de dados robustos e distribuídos.
Falando do CESAR, como o senhor define o papel da instituição dentro do ecossistema tecnológico do Recife?
O CESAR foi criado em 1996, em um momento ainda inicial da internet comercial no Brasil, com a missão estratégica de contribuir para a construção, no Recife, de uma economia baseada em inovação voltada à emergente era digital. A criação do Porto Digital, cinco anos depois, em 2001, ampliou esse movimento ao consolidar um ambiente institucional e territorial propício ao desenvolvimento tecnológico, à atração de empresas e à formação de talentos na capital pernambucana.
Ao longo de quase três décadas de trajetória, a instituição evoluiu de uma pequena organização com perfil quase experimental para um centro de referência nacional em inovação e tecnologias da informação e comunicação, com atuação articulada entre pesquisa aplicada, desenvolvimento de soluções e formação profissional. No contexto do Porto Digital, o CESAR exerce um papel de hub estruturador do ecossistema: atrai empresas que buscam desenvolver ou acelerar soluções tecnológicas, estudantes interessados em formação de alto nível e startups que encontram apoio para transformar conhecimento em produtos e negócios. Dessa forma, contribui simultaneamente para a dinamização econômica, a qualificação de pessoas e o fortalecimento do ambiente de inovação no Recife e no Brasil.
Quais são as principais áreas de atuação do CESAR hoje?
Costumo dizer que o CESAR é uma solução completa em inovação. Temos três verticais principais, sendo educação a primeira que destaco, voltada à formação de talentos, com a CESAR School. A segunda é o venture building, no qual apoiamos startups com nossa expertise em tecnologia de ponta. A terceira é a área de soluções para empresas maduras, que precisam de inovação incremental para permanecer competitivas. Essas três dimensões cobrem o ciclo completo da inovação: formação, empreendedorismo e mercado.
O Recife consolidou-se como hub tecnológico do Nordeste. Quais fatores explicam esse protagonismo? E quais gargalos ainda limitam maior competitividade?
O pioneirismo certamente contribuiu para posicionar o CESAR e o próprio ecossistema do Recife em lugar de destaque, mas, isoladamente, não é suficiente para explicar o protagonismo alcançado ao longo do tempo. O elemento mais determinante é de natureza cultural: existe tanto dentro do CESAR quanto no ambiente de inovação local uma inquietação permanente, marcada por curiosidade intelectual, disposição para experimentar e um desejo contínuo de gerar impacto positivo na sociedade e na economia.
Trata-se de uma cultura de insatisfação construtiva que estimula a busca constante por soluções melhores, novas aplicações tecnológicas e modelos de negócio mais eficientes. Esse dinamismo também se sustenta na integração progressivamente consolidada entre academia, empresas e políticas públicas, articulação que o Porto Digital conseguiu estruturar ao longo de sua trajetória. A proximidade entre formação, pesquisa aplicada e demanda de mercado criou um ciclo virtuoso de inovação, no qual conhecimento, talento e investimento circulam de forma mais fluida do que em outros contextos regionais.
Ainda assim, há limitações relevantes. A principal delas é a disponibilidade de capital de risco. Processos de inovação exigem investimentos contínuos, de longo prazo e com elevada tolerância a incertezas, especialmente nas fases iniciais de desenvolvimento tecnológico e de consolidação de startups. No Brasil e de maneira mais acentuada no Nordeste esse tipo de capital permanece escasso, fragmentado e pouco estruturado, o que reduz a capacidade de crescimento de empresas emergentes e de iniciativas tecnológicas mais ousadas. Essa restrição financeira acaba funcionando como um freio estrutural ao potencial de expansão do ecossistema, apesar da base cultural e institucional favorável já existente.
Como o CESAR articula inovação com setores industriais tradicionais?
A tecnologia da informação permeia todos os setores. Ao longo da nossa trajetória, definimos seis setores prioritários: óleo e gás, automotivo, financeiro, energia elétrica, eletroeletrônico e educação. Neles temos maior capacidade de gerar impacto e soluções escaláveis.
Como o CESAR contribui para qualificar profissionais e evitar evasão de talentos? A escassez de mão de obra em tecnologia ainda é realidade?
Um dos pilares centrais da nossa contribuição está no método educacional que adotamos. Desde 2006, o CESAR utiliza o PBL (Problem Based Learning), ou aprendizado baseado em problemas, abordagem em que o estudante aprende a partir da resolução de desafios reais e contextualizados, em vez de apenas acumular conteúdo teórico. Esse modelo aproxima o processo de formação das situações concretas do mercado de trabalho, aumenta o engajamento dos alunos e fortalece o sentido prático do conhecimento, fatores que se refletem diretamente na redução das taxas de evasão e na melhor preparação para a atuação profissional.
Na CESAR School, essa lógica se aprofunda por meio de um corpo docente intencionalmente híbrido: cerca de um terço dos professores é formado por acadêmicos em tempo integral, um terço por profissionais que atuam dentro do próprio CESAR e um terço por especialistas vindos do mercado. Essa combinação cria um ambiente educacional no qual teoria, prática e demandas reais da indústria tecnológica se encontram de forma contínua. O resultado é uma formação mais conectada com a realidade produtiva e com as competências efetivamente requeridas pelo setor. Como consequência, a taxa de evasão gira em torno de 3,5%.
Ainda assim, a escassez de mão de obra qualificada em tecnologia permanece uma realidade, tanto no Brasil quanto em Pernambuco. Por isso, além da formação regular, o CESAR investe fortemente em programas de ampliação de acesso e qualificação em larga escala. A instituição participa de iniciativas estratégicas como o Embarque Digital, da Prefeitura do Recife, que oferece bolsas integrais em cursos de tecnologia para estudantes de baixa renda; o TrilhaTec, do Governo de Pernambuco, que leva ensino de tecnologia a escolas públicas em dezenas de municípios; e o Fast, do Ministério da Ciência e Tecnologia, voltado à transição de carreira de profissionais de outras áreas para o setor digital.
Essas iniciativas ampliam o acesso à educação tecnológica em diferentes etapas da trajetória educacional e profissional, diversificam o perfil socioeconômico dos ingressantes e aumentam o contingente de pessoas capacitadas para atuar na economia digital.
Ao mesmo tempo, contribuem para reduzir a escassez estrutural de profissionais e para criar condições mais favoráveis à permanência de talentos no próprio ecossistema local, fortalecendo a base humana necessária ao desenvolvimento tecnológico do Recife e de Pernambuco.
Quais projetos em inteligência artificial desenvolvidos pelo CESAR dialogam com demandas sociais?
A inteligência artificial hoje atravessa praticamente todas as frentes de atuação do CESAR, estando presente de forma transversal nos projetos, nas soluções desenvolvidas e nas pesquisas aplicadas. Há décadas utilizamos técnicas de IA em diferentes setores e contextos, sempre buscando resolver problemas concretos e ampliar o alcance das tecnologias digitais. Essa presença contínua fez com que a inteligência artificial se tornasse parte estrutural da cultura de inovação da instituição.
Um exemplo emblemático é o chamado “batom inteligente”, desenvolvido pelo Grupo Boticário com nossa parceria, que utiliza recursos de visão computacional para permitir que pessoas com deficiência visual ou motora consigam aplicar batom com autonomia e precisão. A solução combina algoritmos de reconhecimento facial e orientação em tempo real, transformando uma tarefa cotidiana em uma experiência acessível e segura.
Projetos como esse evidenciam de forma clara como a tecnologia pode ser direcionada para promover inclusão, autonomia e qualidade de vida. Eles demonstram que a inovação, quando orientada por propósito, é capaz de gerar impacto social direto e ampliar o acesso de diferentes públicos aos benefícios das tecnologias digitais.
Podemos dizer que infraestrutura digital, educação tecnológica e inovação formam um ciclo de desenvolvimento?
Exatamente. Data centers oferecem capacidade computacional, centros de inovação desenvolvem tecnologia e a educação forma talentos. Esses três elementos se retroalimentam. Para Pernambuco avançar na economia digital, precisamos fortalecer simultaneamente essas dimensões. O CESAR atua principalmente em inovação e educação, mas depende de infraestrutura digital robusta no País.
Que visão o senhor tem para o futuro tecnológico de Pernambuco?
Vejo Pernambuco com todos os elementos para ser protagonista na economia digital: talento, cultura inovadora, energia limpa e ecossistema consolidado. Se avançarmos em conectividade internacional, capital de risco e infraestrutura, poderemos atrair investimentos estratégicos como data centers e consolidar uma economia mais moderna e competitiva.

