Caraterística da população de Pernambuco de colocar o Estado sempre numa posição superior, de ser o melhor, o primeiro, o “maior em linha reta” é abordada pela cineasta em seu documentário. Com humor e muita pesquisa, a produção traz entrevistas com artistas e intelectuais e está em fase de captação de recursos para ser finalizada.
A trajetória da cineasta pernambucana Luci Alcântara é atravessada por imagens, memórias e um desejo constante de traduzir o mundo a partir de um ponto de vista próprio, mesmo quando isso significa enfrentar conflitos, tensionar discursos e assumir escolhas narrativas. Foi com esse espírito que ela construiu sua carreira no audiovisual, iniciada ainda na infância, entre sessões no cinema e experiências no teatro, e consolidada ao longo de uma formação plural que passou por assistência de figurino, assistência de direção, direção de arte e de produção, produção executiva, direção e roteiro, no Brasil e montagem no exterior. Do Recife ao Rio de Janeiro, passando por São Paulo e experiências em Nova York e Chicago, Luci percorreu um caminho pouco linear, marcado por aprendizados práticos e uma relação íntima com o fazer cinematográfico. Ao contrário de trajetórias mais convencionais, a de Luci se deu pela formação acadêmica. Graduada em artes cênicas pela UFPE e especializada em estudos cinematográficos pela Unicap, ela também foi atriz comediante. Essa vivência multifacetada não apenas ampliou seu domínio técnico, mas também moldou uma assinatura autoral baseada na escuta, na observação e na construção de narrativas que partem do afeto, mas não abrem mão do conflito.
Essa bagagem se reflete diretamente em seu projeto, O Melhor Documentário do Mundo, uma “documédia” que apresenta com humor, ironia e crítica a chamada “megalomania pernambucana”. O filme parte de um traço cultural reconhecível: a tendência local de afirmar grandezas, seja no “maior em linha reta do mundo”, no “melhor Carnaval” ou na ideia de uma terra única e incomparável. Mais do que reforçar ou negar esse imaginário, Luci se propõe a compreendê-lo, ouvindo artistas, intelectuais e personagens que ajudam a construir essa narrativa coletiva.
Ainda em fase de captação, o documentário enfrenta um desafio recorrente no cinema independente brasileiro: a falta de recursos financeiros. Com cerca de 60% do material já captado, o projeto precisou ser interrompido, aguardando novas possibilidades de financiamento para sua conclusão. O impasse, no entanto, não diminui a potência da proposta, ao contrário, reforça a dimensão de resistência que marca tanto a trajetória da diretora quanto o próprio fazer cultural em Pernambuco. A entrevista a seguir foi concedida à jornalista Larissa Aguiar.
Como sua trajetória no audiovisual a levou até a realização de O Melhor Documentário do Mundo?

Hoje me vejo como uma realizadora que foi construída ao longo do tempo, sem atalhos. Minha relação com o cinema começou ainda na infância, quando eu frequentava salas, como o São Luiz, com meus irmãos. Aquela experiência de assistir a filmes de forma quase ritualística moldou não só o meu olhar, mas também o meu desejo de estar dentro daquele universo. Depois vieram o teatro, a dança, a leitura, tudo isso foi ampliando meu repertório sensível e criativo.
Profissionalmente, não entrei no cinema como diretora. Passei por várias áreas: comecei pelo figurino, carregando uma bagagem da minha mãe, que era costureira e, depois, fui para a assistência de direção em que aprendi a estruturar uma produção. Trabalhei no Rio de Janeiro, enfrentei dificuldades, inclusive preconceito por ser nordestina e, mais tarde, tive experiências nos Estados Unidos, especialmente com cinema independente. Essa trajetória me deu uma compreensão completa do fazer cinematográfico. Quando comecei a dirigir, já tinha uma base sólida e esse filme é resultado de tudo isso.
O título do filme já carrega ironia e identidade. Como surgiu a ideia de transformar essa “mania” pernambucana de grandeza em um documentário?

Não surgiu de forma imediata, foi algo que foi se acumulando dentro de mim ao longo dos anos, quase como uma intuição que vai ganhando forma aos poucos. Sempre convivi com pessoas muito ligadas à cultura, intelectuais, artistas, gente que pensa e produz sobre o mundo e, nas viagens que fazia com eles para outros estados, comecei a perceber como Pernambuco era enxergado de fora. Não era exatamente uma crítica; muitas vezes, era uma admiração curiosa, um certo espanto diante de uma identidade tão afirmativa, como se houvesse ali uma energia própria, difícil de traduzir.
Com o tempo, isso passou a me inquietar mais profundamente. Comecei a observar melhor esse comportamento no cotidiano, nas falas mais simples, nas expressões populares, nos discursos mais elaborados. Fui me perguntando de onde vinha essa necessidade tão forte de afirmar grandeza, de se colocar sempre em destaque. Mergulhei em uma pesquisa mais estruturada: comprei livros, revisitei referências históricas, busquei entender os contextos culturais e políticos que ajudaram a moldar esse imaginário.
Quando percebi, já tinha material suficiente não só para uma reflexão pessoal, mas para a construção de um filme. O título surgiu quase como uma síntese natural desse processo, ele carrega ironia, mas também carrega verdade. Porque, dentro dessa lógica pernambucana de pensar grande, de se afirmar com intensidade, dizer “O Melhor Documentário do Mundo” não é apenas uma provocação, é também uma forma legítima de traduzir esse espírito.
Quais foram as principais descobertas ao longo da investigação? Alguma história ou personagem te surpreendeu especialmente?

Uma das coisas que mais me impressionou foi perceber como essas cinco palavras: “melhor”, “maior”, “mais”, “primeiro” e “único” atravessam praticamente todos os discursos. Não importa se a pessoa é do cinema, da música, da literatura ou das artes plásticas, esses termos aparecem o tempo todo, como se fossem um código compartilhado.
Também me chamou atenção a forma como diferentes pessoas lidam com essa ideia. Alguns assumem com orgulho, outros ironizam, outros criticam. Esse conjunto de vozes cria um retrato muito rico e complexo. Não é uma visão única, é um mosaico de percepções, e isso, para mim, é o que dá força ao filme.
O documentário aposta no humor. Como equilibrar o tom bem-humorado com uma análise mais profunda?

O humor é uma estratégia narrativa muito consciente. Eu não queria fazer um filme pesado, distante. Queria que o público se aproximasse, que se reconhecesse, que risse. O riso, para mim, funciona como uma porta de entrada, ele quebra uma resistência inicial, desarma o espectador e cria uma conexão mais imediata com o que está sendo mostrado. A partir desse primeiro contato mais leve, é possível conduzir a pessoa para camadas mais profundas de reflexão.
Mas isso não significa superficialidade. Pelo contrário, o humor permite que eu trate de questões complexas de uma forma mais acessível, sem perder densidade. Existe uma ironia constante, um certo deboche, que dialoga muito com a própria forma como o pernambucano se expressa. É quase como se o filme falasse a mesma língua do público, usando códigos que já fazem parte do cotidiano, o que torna a experiência mais orgânica e envolvente.

Além disso, eu me coloco dentro do filme como parte desse universo que estou investigando. Não estou olhando de fora, como alguém neutra, também sou atravessada por essa cultura, por esses exageros, por essa maneira de ver o mundo. Isso cria um equilíbrio interessante entre análise e afeto, porque ao mesmo tempo em que provoco, também me reconheço ali. O humor, nesse sentido, não é só um recurso estético, mas uma forma de construir esse diálogo honesto com o espectador.
De que forma o público pode se reconhecer nesse comportamento?

Eu acho que é inevitável que o público se reconheça, especialmente quem é de Pernambuco. Porque são frases, expressões, comportamentos que fazem parte do cotidiano, quase automáticos. Estão na forma de falar, de brincar, de se posicionar. Quando você vê isso organizado dentro de um filme, com recorte e intenção, você passa a perceber o quanto esses padrões se repetem e como eles estruturam uma identidade coletiva.
Esse reconhecimento também vem de uma sensação de espelho. O espectador se vê ali não apenas no que é dito, mas na forma como é dito, nas reações, nos gestos, nas pequenas vaidades e nos orgulhos compartilhados. É um tipo de identificação que pode gerar tanto riso quanto um certo incômodo, porque revela aspectos que muitas vezes passam despercebidos no dia a dia.
Ao mesmo tempo, não é uma crítica dura, nem uma celebração cega. Não tenho interesse em desqualificar essa característica, nem em reforçá-la de maneira acrítica. O filme ocupa esse lugar intermediário, onde existe carinho, pertencimento, mas também provocação. É um olhar que reconhece a beleza dessa identidade, mas que também questiona seus excessos.
Não estou dizendo se isso é bom ou ruim, estou mostrando e convidando o espectador a pensar sobre isso. O filme propõe uma reflexão aberta, sem respostas fechadas, em que cada pessoa pode tirar suas próprias conclusões. No fim das contas, é esse espaço de dúvida, de questionamento, que mais me interessa provocar.
Em termos de linguagem, como o filme está sendo construído?

O filme tem uma estrutura híbrida, pensada justamente para fugir de qualquer rigidez formal. Ele é baseado principalmente em entrevistas com artistas e intelectuais, que funcionam como eixo central da narrativa, mas não se limita a isso. Também trago encenações, momentos performáticos e situações construídas, que ajudam a traduzir visualmente certas ideias que, às vezes, não cabem apenas na fala. Era importante para mim que o filme tivesse movimento, surpresa, que não fosse previsível.
Essa escolha vem de um desejo de romper com o formato tradicional de documentário, mais explicativo. Eu não queria fazer uma “grande reportagem” sobre Pernambuco, mas sim um filme que tivesse linguagem própria, que assumisse sua dimensão de criação. O hibridismo permite isso: misturar realidade e interpretação, depoimento e encenação, criando uma experiência mais sensorial e menos didática.
Narrativamente, existe uma costura que passa por mim. Eu, como atriz, apareço como uma guia, mas não no sentido clássico de conduzir o espectador de forma neutra. Pelo contrário, estou ali como alguém que também questiona, que ironiza, que provoca o tempo inteiro. Minha presença ajuda a dar ritmo ao filme e a estabelecer esse diálogo direto com quem está assistindo.
Isso cria uma camada a mais de leitura, porque o filme não é apenas sobre os outros – é também sobre o meu olhar sobre esse tema. Assumo esse ponto de vista de forma muito clara, sem tentar esconder ou suavizar. O espectador não vê só os entrevistados, mas também a forma como organizo, interpreto e, de certa maneira, confronto essas falas. É um filme que se constrói nesse encontro entre as vozes dos outros e a minha própria perspectiva.
Em que estágio está atualmente O Melhor Documentário do Mundo?

Está num estágio avançado, mas ainda incompleto. Tenho cerca de 60% do material filmado, incluindo entrevistas com nomes relevantes da cultura, cenas encenadas e outros elementos visuais que ajudam a construir essa narrativa híbrida. É um volume muito rico de conteúdo, que revela a potência do projeto e a diversidade de olhares sobre esse tema. Agora, entramos em uma fase decisiva, que exige organização, decupagem e um trabalho cuidadoso de montagem para dar unidade a tudo isso.
É um filme que conversa com a identidade pernambucana, mas também com questões universais sobre pertencimento, memória e construção simbólica. Existe uma força estética e conceitual que já está colocada, e que pode ganhar ainda mais dimensão com a finalização adequada.
O desafio, neste momento, é que a produção precisou ser interrompida por falta de recursos. A próxima etapa envolve deslocamentos pelo Estado, ampliação da equipe, investimento em figurino, direção de arte e uma finalização técnica mais elaborada. É uma fase que demanda estrutura, planejamento e, principalmente, apoio para que o projeto alcance o nível de qualidade que ele propõe desde o início.
O filme já existe, já tem corpo, linguagem e identidade, o que falta agora é o impulso final para que ele se complete e chegue ao público. Com o apoio certo, é possível transformar esse material em uma obra de grande alcance, capaz de circular em festivais, espaços culturais e plataformas diversas, levando consigo não apenas um retrato provocador de Pernambuco, mas também a força criativa de um cinema que se constrói a partir da autonomia e da persistência.
Futuramente com a exibição do filme em festivais, o que isso representaria na trajetória?
A circulação em festivais é fundamental para um filme independente. É uma forma de dar visibilidade, de colocar o trabalho em diálogo com outros realizadores, com o público e com o mercado. Para mim, seria também um reconhecimento de todo esse processo. Além disso, pode abrir portas para novas oportunidades, inclusive de financiamento. Um filme que circula bem em festivais ganha força, ganha legitimidade.
Depois de mergulhar nesse tema, o que essa “mania de grandeza” revela sobre o povo pernambucano?

Acho que revela um senso de pertencimento muito forte. O pernambucano tem orgulho de ser quem é, de sua história, de sua cultura, e isso não aparece apenas nos grandes eventos ou nos discursos oficiais, mas nas pequenas coisas do cotidiano, na forma de falar, de se posicionar, de defender suas referências. É um orgulho que se manifesta de maneira espontânea, quase instintiva, e que ajuda a sustentar uma identidade coletiva muito marcada.
Esse pertencimento também está profundamente ligado à memória. Pernambuco é um estado que carrega narrativas históricas intensas, de luta, de resistência, de protagonismo político e cultural. Isso atravessa gerações e vai sendo reelaborado ao longo do tempo, criando uma sensação contínua de importância. Não é apenas sobre o passado, mas sobre como esse passado ainda reverbera no presente.
Mas também revela uma necessidade de afirmação, de se colocar no mundo com intensidade. Em muitos casos, essa afirmação vem carregada de exagero, de hipérbole, de uma vontade de ampliar tudo o que é maior, melhor, mais importante. Esse gesto, que pode parecer apenas uma brincadeira ou uma característica folclórica, na verdade carrega uma dimensão mais profunda de autoafirmação.
Existe aí também uma resposta a contextos históricos de disputa por reconhecimento. Ao longo do tempo, diferentes regiões do Brasil foram colocadas em posições desiguais de visibilidade e poder, e isso influencia a forma como os sujeitos constroem suas narrativas sobre si mesmos. No caso de Pernambuco, essa “mania de grandeza” pode ser lida como uma maneira de tensionar esse lugar, de reivindicar centralidade, de não aceitar um papel secundário.
No fundo, é uma forma de dizer: “a gente existe, e a gente importa”. E isso não deve ser visto apenas como exagero, mas como um gesto simbólico potente, que mistura orgulho, resistência e imaginação. É essa complexidade que me interessa entender como algo que parece simples ou até caricatural pode revelar camadas profundas sobre identidade, história e pertencimento.

