Livro conecta pensamento social, música e realidade contemporânea do Recife em uma narrativa sensível e crítica
*Por Rafael Dantas
O livro Faces do Mangue, de Paulo Caldas, é uma obra que ultrapassa a dimensão literária para propor um exercício de memória e reflexão social. A partir de diálogos entre personagens como Josué, Doutor Alexandre e Dona Nilda, a narrativa constrói uma ponte entre passado e presente, articulando referências fundamentais da cultura e do pensamento pernambucano com questões ainda urgentes na sociedade.
Um dos grandes méritos do livro é apresentar, de forma acessível, o legado de Josué de Castro. Reconhecido internacionalmente por seus estudos sobre a fome, o autor pernambucano ainda é pouco conhecido pelo grande público local. A obra de Caldas resgata suas ideias sem academicismo excessivo, conectando-as diretamente com a realidade social do mangue e das periferias urbanas. Territórios que permanecem marcados por desigualdades históricas.
Outro destaque é a presença simbólica de Chico Science, que teve uma trajetória que marcou a cultura brasileira ao fundir ritmos tradicionais com uma estética contemporânea e crítica. No livro, sua figura emerge como expressão da potência criativa do Recife e como lembrança de uma obra que, mesmo após sua morte precoce, segue atual e provocadora. Para mergulhar no universo do Manguebeat, o autor traz a obra Criança de Domingo, do jornalista José Teles, que também é personagem na trama.
Mas é no personagem Josué, um jovem vendedor de frutos do mangue, que vive entre o trabalho precoce e o desejo de conhecimento, que a narrativa encontra seu ponto mais sensível. A construção desse protagonista evidencia a permanência de problemas estruturais, como o trabalho infantil e a exclusão social. Décadas após as denúncias de Josué de Castro e as críticas de Chico Science, a realidade retratada no livro revela continuidades incômodas. Fotografias que infelizmente não são difíceis de presenciar no Recife atual.
Ambientado na capital pernambucana, o livro também registra uma cidade viva, marcada por práticas culturais, sociabilidades e uma boemia que resiste ao tempo. Esse pano de fundo urbano contribui para dar densidade à narrativa e reforça a conexão entre espaço, cultura e desigualdade.
O protagonista é o fio condutor da trama para apresentar a arte de Chico Science e a ciência de Josué de Castro. É justamente nessa articulação entre cultura e pensamento social que Faces do Mangue encontra sua maior força: ao mesmo tempo em que narra, também provoca. Paulo Caldas convida o leitor a revisitar o Recife e refletir sobre as permanências e contradições nesse Brasil contemporâneo, mas em tom de conversa e na mesa de um bar.
Serviço: O livro Faces do Mangue pode ser adquirido no site da Editora Bagaço por R$ 66.

