Geração prateada ganha força e abre novos mercados

*Por Rafael Dantas

A geração prateada não é apenas crescente numericamente no Brasil e em Pernambuco. Ela é mais ativa e tem mais sonhos. O idoso que anda de bengala e se resguarda em seus aposentos após concluir a vida laboral deu lugar a uma população que viaja, estuda, frequenta restaurantes, cuida da saúde, consome e deseja ser atendida de acordo com suas preferências. Além disso, também prolonga a carreira ou inicia novos caminhos profissionais na maturidade. Um movimento que já faz esse público responder por R$ 1,8 trilhão em consumo no País. Segundo a consultoria Data8, até 2044, esse segmento será responsável por 35% do consumo brasileiro, chegando à cifra de R$ 3,8 trilhões. Uma tendência que não pode ser ignorada.

O economista Edgard Leonardo, coordenador geral de pós-graduação na Unit-PE, relembra que o envelhecimento da população costumava ser associado apenas ao aumento dos gastos com saúde e previdência.  Porém, ele pontua que os efeitos dessa transformação sobre a economia vão muito além disso. “A mudança na estrutura etária altera o perfil da demanda e cria oportunidades para empresas capazes de compreender um consumidor com necessidades e hábitos diferentes”.

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Edgard Leonardo alerta que se costuma associar o envelhecimento da população apenas aos gastos com saúde e previdência e não se percebe o novo perfil da demanda. “Há oportunidades para empresas que compreendem um consumidor com necessidades e hábitos diferentes”

Essa transição das expectativas e da dinâmica de vida da geração prateada  pode ser percebida na trajetória da pernambucana Eneilda Soares. Já após os 60 anos, ela entrou na faculdade para realizar o desejo antigo de cursar enfermagem. “Decidi investir em uma graduação porque era um sonho adormecido. Quis provar para mim mesma que estudar não tem idade e que tudo é possível quando a gente realmente quer. A idade nunca foi um impedimento para mim. Essa decisão me ajudou a ver o futuro de forma diferente. Hoje acredito no meu potencial, sou mais confiante e estou preparada para vencer os desafios que virão pela frente”, afirma.

Prestes a concluir a graduação na UniFG Pernambuco, Eneilda, hoje com 65 anos, pretende atuar na área e se especializar em geriatria. “Quero focar nos meus pacientes, proporcionar um atendimento de qualidade e acolhedor e, ao mesmo tempo, continuar aprendendo. Meu objetivo é cuidar de pessoas idosas, promovendo saúde e qualidade de vida.” 

Eneida Soares
Eneilda Soares é um exemplo do comportamento de muitas pessoas 60+. Ela decidiu cursar uma graduação de enfermagem, que era um sonho adormecido. “Quis provar para mim mesma que estudar não tem idade. Essa decisão me ajudou a ver o futuro de forma diferente”

Nessa nova etapa da vida, que tem se estendido com mais tempo e qualidade, há uma demanda por novos serviços e por um atendimento mais especializado, segundo Edgard Leonardo. “Cresce a procura por serviços de saúde, cuidados de longa duração, turismo, lazer, bem-estar, moradia adaptada e soluções que favoreçam a autonomia e a qualidade de vida.”

MERCADO PROMISSOR 

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O empresário Luciano Moura, sócio da revista pernambucana Viva a Vida 60+, é enfático ao falar do potencial da geração prateada: “Os 60+ são o futuro “. Uma realidade que ainda vai sendo descoberta dia a dia pelo mercado. Essa percepção de Luciano está ancorada nos números de várias pesquisas e também na experiência prática nesses três anos de operação da publicação. Segundo o último Censo, elaborado pelo IBGE, a população com mais de 60 anos (15,6%) superou pela primeira vez o segmento de 15 a 24 anos (14,8%). No dia a dia, o que ele observa é um público disposto a desfrutar a vida.

Na avaliação de Luciano Moura, essa realidade ainda não está bem apropriada pelo universo corporativo no seu planejamento estratégico. “A pirâmide etária dos próximos 20 anos vai mudar e a geração 60+ será maioria. Todo produto ou campanha precisará se adaptar a isso. Qualquer empresa que desejar manter seus produtos ativos tem que olhar para esse público”. 

Luciano Moura
Luciano Moura adverte que o mercado deve se adequar à mudança demográfica do País. “A pirâmide etária dos próximos 20 anos vai mudar e a geração 60+ será maioria. Qualquer empresa que desejar manter seus produtos ativos tem que olhar para esse público”.

O mercado da longevidade revela que o envelhecimento ativo é impulsionado por atividades que priorizam a autonomia, a saúde e a socialização do público sênior. Segundo o relatório Análise de Oportunidades e Tendências do Mercado da Longevidade, do Sebrae, no setor de bem-estar, por exemplo, ganham força as práticas físicas personalizadas, como ioga, natação e hidroginástica, aliadas a serviços de convivência que combatem o isolamento social. É um segmento de consumidor que demanda também serviços de alimentação, como cafeterias, restaurantes e confeitarias, além de cada vez mais produtos voltados para a estética e cosméticos.

Sócio de Luciano na revista Viva a Vida 60+, Sérgio Moury Fernandes afirma que a publicação nasceu justamente da percepção de que esse público ganharia cada vez mais relevância econômica. O projeto, inicialmente pensado para durar apenas um ano, completa agora três anos impulsionado pela boa receptividade dos leitores e pelo interesse crescente do mercado. Além da revista, o grupo passou a promover eventos voltados ao segmento, como corridas e encontros sobre temas como inteligência artificial para pessoas acima de 60 anos.

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Sérgio Moury Fernandes comemora o sucesso da revista Viva a Vida 60+ e diz que o mercado voltado ao consumidor maduro tende a crescer. “Hoje [as campanhas para pessoas acima dos 60 anos] começam a aparecer, mas ainda há muito mercado a ser desenvolvido”

Para Sérgio, embora as empresas tenham começado a direcionar mais campanhas e produtos para esse público nos últimos anos, ainda há espaço para avançar. “Antes quase não havia campanhas voltadas para as pessoas acima de 60 anos. Hoje elas começam a aparecer, mas ainda existe muito mercado a ser desenvolvido”, avalia. Segundo ele, a proposta da revista sempre foi retratar uma geração ativa, interessada em viajar, estudar, trabalhar e consumir, contribuindo para mudar a forma como o envelhecimento é visto pelo mercado.

TURISMO

O relatório do Sebrae sugeriu também que o turismo de experiência se consolida como uma atividade muito valorizada por esse público. Quando o destino ou o equipamento turístico oferece roteiros culturais, religiosos e rurais que transformam viagens em momentos de aprendizado e novas amizades, ganha-se alguns pontos com a geração prateada.

Mesmo sem uma pesquisa específica sobre o crescimento do número de turistas 60+ em Porto de Galinhas, o presidente da Associação dos Hoteis de Porto de Galinhas (AHPG), Eduardo Tiburtius, afirma que é perceptível, na prática, que há uma mudança clara no perfil desse viajante. “Hoje, o turista 60+ está muito mais ativo. É um público que quer aproveitar a estrutura do resort, participar das atividades, caminhar, fazer hidroginástica, frequentar a academia, conhecer a gastronomia local e viver experiências durante a viagem. Porto de Galinhas acaba sendo um destino que conversa muito bem com esse perfil, porque reúne praias de águas calmas, boa gastronomia e uma excelente rede de resorts.”

Eduardo Tiburtius
Para atender o cliente 60+, resorts de Porto de Galinhas, segundo Eduardo Tiburtius, investem em música ao vivo, dança, atividades de bem-estar e experiências ao ar livre. “É um público que valoriza conforto e acessibilidade e busca entretenimento e interação social”.

Para acolher e atender bem esse público, os resorts do destino mais desejado de Pernambuco estão se mexendo, segundo o hoteleiro, que é diretor do Village Porto de Galinhas. “As adaptações têm acontecido muito mais na programação do que na infraestrutura. Os resorts têm investido em música ao vivo, dança, atividades de bem-estar, recreação voltada para adultos e experiências ao ar livre. É um público que valoriza conforto e acessibilidade, mas que também busca entretenimento e interação social”.

MERCADO DE SAÚDE É UM DOS MAIS PROMISSORES

A transformação na pirâmide etária brasileira, que tem acontecido de forma acelerada, impulsiona a chamada economia do cuidado, segundo Edgard Leonardo. “Esse segmento reúne atividades relacionadas à saúde, assistência, cuidados de longa duração e tecnologias voltadas à promoção da autonomia. Ao mesmo tempo, amplia oportunidades em setores como cultura, turismo, lazer e educação, à medida que cresce um público com maior expectativa de vida e novas formas de participação social e econômica”.

Um dos empreendimentos que surgiram a partir dessa nova realidade é a Clínica Florence, especializada em transição hospitalar e reabilitação. A proposta é atender principalmente pacientes idosos após eventos como AVC, cirurgias ou outras condições que comprometam a autonomia, funcionando como uma etapa intermediária entre a alta hospitalar e o retorno para casa. O foco é recuperar a funcionalidade e reduzir a necessidade de internações prolongadas ou de cuidados permanentes.

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A proposta da Clínica Florence, segundo Lukas de Lucena, é atender principalmente pacientes idosos após eventos como AVC, cirurgias ou outras condições que comprometam a autonomia. Funciona como uma etapa intermediária entre a alta hospitalar e o retorno para casa

Segundo o geriatra Lukas Luna de Lucena, diretor técnico da unidade no Recife, o modelo já é consolidado em países como Canadá, Estados Unidos e Austrália, mas ainda é recente no Brasil. “Temos esse intuito de recuperar tanto a autonomia quanto a independência de pacientes que sofrem certos agravos. E, quando isso não é possível, conseguimos adaptar o paciente à nova realidade, reduzindo a complexidade do cuidado e entregando um cuidado mais integral”, explica. “Nosso objetivo é devolver o paciente à vida funcional e independente sempre que possível”, destaca.

FIM DO BÔNUS DEMOGRÁFICO

Um desafio importante que se impõe ao País neste momento de mudança do seu perfil etário é o fim do bônus demográfico, de acordo com o economista Edgard Leonardo. “A redução da taxa de fecundidade e o aumento da expectativa de vida fizeram com que a população envelhecesse em um intervalo relativamente curto. Como consequência, o País caminha para o fim da chamada janela do bônus demográfico, período em que a proporção de pessoas em idade de trabalhar favorecia o crescimento econômico”. 

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Ele explica que a partir desse momento é mais complexo manter o crescimento econômico do Brasil sustentado apenas pelo aumento de pessoas produzindo. “Ganhos de produtividade, investimento em qualificação e maior participação da população no mercado de trabalho passam a ser fatores ainda mais importantes. Ao mesmo tempo, cresce a demanda por serviços de saúde, previdência e assistência social, exigindo planejamento fiscal e políticas públicas capazes de responder às mudanças demográficas”, adverte Edgard.

Todos os anos surgem novas manchetes alertando para a pressão sobre o sistema previdenciário. Um problema que, paradoxalmente, nasce de uma conquista social: a longevidade. Um recente levantamento Raio X do Investidor, da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), realizado em parceria com o Datafolha, revelou que apenas 16% dos brasileiros que ainda não se aposentaram guardam recursos para essa fase da vida. O estudo também mostrou que 27% dos entrevistados afirmam que não pretendem fazer qualquer poupança para o período após o encerramento da vida profissional.

Em seu livro A Revolução da Longevidade, Alexandre Kalache trata essa temática como estratégica para a qualidade de vida na terceira idade. “A segurança financeira continua sendo essencial para a saúde, bem-estar e participação social ao longo da vida. Fatores como patrimônio familiar, condições de trabalho e acesso à previdência ou transferências sociais podem proteger ou expor ainda mais as pessoas. A insegurança financeira, o trabalho precário e a falta de proteção social aprofundam desigualdades que se acumulam com o tempo”. 

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Ele ressalta que, na velhice, a insegurança financeira, independentemente de sua origem, tende a se traduzir em “mais doenças crônicas, limitações funcionais, sofrimento psicológico e até morte precoce”. Kalache destaca que pesquisas mostram que a exposição prolongada à escassez de recursos econômicos aumenta a propensão à depressão, à solidão, à obesidade e aos distúrbios do sono. Esse conjunto de fatores compromete a qualidade de vida dos idosos e amplia a pressão sobre o sistema de saúde.

MÃO DE OBRA MAIS EXPERIENTE 

Com mais saúde e desejando aproveitar bem a terceira idade, esse segmento da população tem estendido a carreira ou voltado ao mercado de trabalho. Seja pelo empreendedorismo ou buscando empregos, cada vez mais a geração prateada está tentando ocupar novos espaços. Mesmo entusiasmada com a recente formação, Eneilda acredita que o mercado de trabalho ainda precisa ampliar as oportunidades para profissionais da terceira idade. Para ela, muitas empresas ainda deixam de aproveitar a experiência e a disposição desse público. “As empresas ainda não nos dão chance de mostrar nossa capacidade de contribuir com a sociedade. Precisamos de mais oportunidades para esse público, que ainda tem muita vontade de trabalhar, produzir e recomeçar com dignidade”, defende. 

É crescente o número de corporações que têm aberto seleções voltadas ao público sênior, valorizando a experiência profissional e buscando ampliar a diversidade em seus quadros de funcionários. Há alguns anos, por exemplo, o RioMar Recife criou um programa para a contratação de pessoas com mais de 55 anos. Já o Banco Bmg realiza o recrutamento de profissionais acima dos 50 anos e foi a primeira instituição financeira a receber a certificação Age Friendly, concedida pela plataforma Maturi, organização especializada em conectar empregadores e profissionais maduros.

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O empresário Luciano Moura, inclusive, avalia que o reconhecimento da capacidade profissional dessa geração é outro passo que está sendo dado, mas ainda de forma incipiente. “É importante conciliar a experiência dos mais velhos com a potência dos mais jovens no ambiente de trabalho”. Ele considera essa percepção estratégica, especialmente num cenário futuro em que as pessoas mais jovens estarão em menor número. 

O mundo que reverenciava a juventude precisa abrir caminho para reconhecer os valores e o espaço da população de cabelos grisalhos. Enfrentar o etarismo, avançar nas políticas econômicas de previdência e adaptar Pernambuco e o Brasil a uma população mais madura são agendas urgentes, que extrapolam a economia mas necessariamente passam por ela.

*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)

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