Estudo indica impacto inferior a 1% nos grandes setores e aponta necessidade de transição para serviços e pequenas empresas
Custos e capacidade de absorção
Um estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que os custos de uma eventual redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais seriam semelhantes aos impactos observados em reajustes históricos do salário mínimo no Brasil. A análise considera a jornada atualmente predominante de 44 horas semanais, associada à escala 6x1, e conclui que o mercado de trabalho tem capacidade de absorver a mudança, com impacto inferior a 1% em grandes setores como indústria e comércio.
Efeitos nos diferentes setores
Segundo o levantamento, a redução da jornada elevaria o custo do trabalhador celetista em 7,84%, mas o reflexo no custo total das empresas tende a ser menor. De acordo com o pesquisador Felipe Pateo, "Quando a gente olha para a operação de grandes empresas na área de comércio, da indústria, a gente vê que o custo com trabalhadores representa às vezes menos que 10% do custo operacional da empresa. Ela tem custo grande de formação de estoques, custo de investimento em maquinário". Já segmentos de serviços intensivos em mão de obra, como vigilância e limpeza, podem registrar impacto maior, estimado em 6,5% no custo da operação, o que demandaria uma transição gradual.
Desigualdade e perfil dos trabalhadores
O estudo também indica que jornadas de 44 horas concentram trabalhadores de menor renda e escolaridade, o que reforça o potencial da medida para reduzir desigualdades. Para Pateo, "Quando a gente reduz a jornada máxima para 40 horas, a gente bota esses trabalhadores que estão nos empregos de menores salários, de menor duração do tempo de emprego, em pé de igualdade, pelo menos na quantidade de horas trabalhadas. E a gente acaba aumentando o valor da hora de trabalho desses trabalhadores. Então isso faz com que eles se aproximem das condições dos trabalhadores nas melhores situações trabalhistas". Dados da pesquisa mostram que mais de 83% dos vínculos de pessoas com até o ensino médio completo estão nessa condição, proporção que cai para 53% entre quem tem ensino superior.
Empresas menores e debate político
Entre os desafios destacados está a adaptação das empresas de pequeno porte, onde a proporção de trabalhadores com jornadas superiores a 40 horas é maior. O levantamento aponta que 87,7% dos empregados em empresas com até quatro trabalhadores e 88,6% naquelas com até nove funcionários estão nessa situação. A discussão sobre a redução da jornada e o fim da escala 6x1 ganhou espaço no debate político neste início de ano, com propostas em tramitação na Câmara dos Deputados e a inclusão do tema entre as prioridades do governo federal.
Serviço
O estudo é do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e foi divulgado nesta terça-feira (10), com base em dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e em análises sobre os impactos econômicos da redução da jornada de trabalho no Brasil.


