Laboratório urbano: O Carnaval como ensaio de uma cidade mais humana - Revista Algomais - a revista de Pernambuco
Laboratório urbano: O Carnaval como ensaio de uma cidade mais humana

*Por Rafael Dantas

As ruas do Recife e de Olinda são radicalmente transformadas nos dias de folia. O movimento dos blocos, as cores do Carnaval e as multidões fantasiadas ao som do frevo, do maracatu e de outros tantos ritmos formam, como num passe de mágica, por alguns dias, um espaço urbano mais humanizado, com mais arte e com uma população que se desloca de transporte público. No ano passado, o Carnaval do Recife levou cerca de 3,5 milhões de pessoas às ruas. Dias de festa que trazem algumas lições urbanas para o restante do ano.

A pesquisa Cultura nas Capitais, encomendada pelo Ministério da Cultura, mostra que 43% dos moradores da capital pernambucana frequentam festas populares e, desse grupo, 71% são foliões no Carnaval. Esse é o maior percentual do País. Durante esses dias, a cidade é tomada por quem celebra a folia, o tráfego de veículos motorizados é interrompido e as ruas passam a ser dominadas por pedestres e ciclistas. Até o Galo da Madrugada gigante, ícone da festa, surge multicolorido sob a ponte Duarte Coelho que, nesse período, só pode ser atravessada a pé ou de bicicleta.

A dinâmica do Carnaval traz importantes lições urbanísticas, na análise do arquiteto e professor da UFPE, Roberto Montezuma. “A infraestrutura passa a ser muito mais operativa. Na mobilidade, por exemplo, as pessoas deixam o carro, usam mais transporte público, compartilham transporte privado, usam Uber, andam mais a pé. O Centro Histórico vira praticamente um grande teatro ao ar livre. As pessoas acessam os polos a pé, por ônibus ou metrô”.

Em outras palavras, sob a lógica do Carnaval, a mobilidade urbana se reorganiza em uma hierarquia distinta dos dias habituais. O pedestre passa a ocupar o primeiro plano e o transporte público assume papel central, enquanto o uso do automóvel individual é deslocado para uma posição secundária, como opção residual dentro do sistema de deslocamento da cidade.

Transporte público ganha destaque no deslocamento urbano nos dias da folia. Foto: Josenildo Gomes CTTU

Além de atender essa necessidade de adotar a mobilidade ativa e o transporte público, a população local e os turistas não se concentram apenas nos bairros centrais ou em Boa Viagem, onde está a maioria dos hotéis. “Os polos se pulverizam pela cidade, especialmente nos bairros populares. Isso é uma ação em que a cidade começa a se tornar mais democrática. Ela é mais exercitada como cidade. Esse laboratório vivo já é uma cidade-parque”, ressalta Montezuma.

Galo da Madrugada. Foto: Wiu Rabbit PCR

A noção de “cidade-parque” se refere a um modelo urbano em que o espaço público é organizado prioritariamente para as pessoas, e não para os automóveis, com valorização da circulação a pé, das áreas abertas e da convivência. É uma cidade pensada como lugar de permanência e encontro, e não apenas de passagem. Ideias presentes no Parque Capibaribe e no Recife Cidade-Parque, projetos da parceria entre a UFPE e a Prefeitura do Recife.

Essa reorganização temporária do espaço urbano também produz efeitos sociais. Durante o Carnaval, não é apenas a mobilidade que muda: as formas de convivência na cidade também se transformam.

Além do aspecto da ocupação urbana, muitos muros socioeconômicos são baixados circunstancialmente no Carnaval. Sem os cordões que caracterizam outros festejos, no Recife e em Olinda, cidades marcadas por forte desigualdade social, o espaço é compartilhado entre diferentes classes, conforme observa a pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco, Rita de Cássia Araújo.

Para ela, o Carnaval pernambucano, especialmente no Recife e em Olinda, se caracteriza por ser uma festa pública, gratuita, plural e culturalmente diversa, apesar das tentativas históricas de elitização, embranquecimento e higienização das manifestações de rua. Ao longo do tempo, também houve iniciativas de apagamento de práticas culturais ligadas às classes trabalhadoras urbanas e às culturas afrodescendentes, afroindígenas e periféricas.

Nesse sentido, a pesquisadora destaca que a festa fornece elementos importantes para pensar a própria cidade. “O Carnaval oferece dados e experiências concretas para refletir sobre a vida urbana e subsidiar políticas públicas nas áreas de cultura, meio ambiente, segurança, economia criativa, direitos humanos e fortalecimento da cidadania”, afirma.

Esse ritmo da cidade é uma quebra de paradigma com o processo histórico de urbanização do Brasil. Rita de Cássia relembra que nos Séculos 20 e 21, essas mesmas cidades brincantes “têm favorecido a segregação sociocultural e espacial, estimulado o uso do automóvel individual e a privatização do espaço viário, gerando processos de exclusão e discriminação social e racial e de violência urbana, que atingem principalmente os segmentos sociais mais vulneráveis". A pesquisadora refere-se à população negra e periférica, as mulheres, os idosos, a comunidade LGBTQIA+.

Se essa transformação temporária revela uma cidade mais inclusiva e caminhável, ela também reativa simbolicamente territórios que, fora do período carnavalesco, vivem processos de esvaziamento e degradação. O Centro do Recife, abandonado nas últimas décadas, e o Rio Capibaribe, transformado em um destino para o esgoto, deixam de ser apenas cenários urbanos e voltam a ocupar um lugar central na experiência cotidiana da população. Entre as máscaras, fantasias e passos que acontecem nos dias de Carnaval há uma reconciliação da população com esses dois símbolos do Recife. O Centro é o palco do maior bloco carnavalesco, o Marco Zero se transforma no coração dos principais shows e as águas que serpenteiam entre os Bairros do Recife, de São José, de Santo Antônio e de tantos outros do município são a paisagem dos foliões e o local de outras manifestações culturais também.

É importante lembrar que o principal cartão-postal desse Carnaval, o monumento do Galo da Madrugada, é erguido sobre a ponte. Se ele olha frontalmente para a Avenida Guararapes ou para o Cinema São Luiz, é cercado pelas águas do Capibaribe. Já teve edição, inclusive, que ele foi construído no próprio rio.

Há entre as iniciativas carnavalescas, por exemplo, a prévia Bloco de Rio, promovida pelo Catamarã Tours pelas águas do Capibaribe ao som do frevo. E no sábado de Carnaval, um dos destaques é a Galinha D'água, um cortejo fluvial acompanhando de barco ou lancha do Galo da Madrugada.

Bloco de Rio. Foto: Divulgação

“Na festa, fica claro que estamos diante de uma cidade nas águas. No Carnaval, as pessoas passam pelo rio, usam mais esse espaço. Há eventos acontecendo inclusive em barcos. O Galo da Madrugada atrai uma quantidade enorme de embarcações ao redor, visualizando e vivenciando essa experiência. Isso mostra a potência ambiental do Recife como cidade na água, externalizada por diferentes classes sociais”, destacou Montezuma.

Embora haja uma participação importante do setor público na organização do Carnaval, viabilizando estruturas e contratando diversas atrações, na experiência pernambucana, a festa extrapola muito a ação do Governo do Estado ou da Prefeitura do Recife, de Olinda, de Bezerros e de tantos municípios de tradição na festa. Tampouco é protagonizada pela iniciativa privada. Há uma participação popular ampla nas centenas de blocos e manifestações que costuram a estética e os movimentos da festa.

Carnaval em Bezerros. Foto: Heudes Regis/SEI

Ainda que, por vezes, na brincadeira, há um monitoramento social da festa. Se a decoração não agradou, como a “indumentária” do Galo gigante, é o comentário da cidade por alguns dias. A violência, a mobilidade, a programação, tudo entra no escrutínio público e na cobrança às autoridades.

Uma apropriação do even to e da cidade que causa inveja em outras tentativas de engajamento social. “Impressiona como a festa se auto-organiza. Nem tudo vem do poder público: os blocos se articulam, surgem espontaneamente. É um fenômeno da cultura brasileira. O Carnaval não é só uma ação cultural de um período. Ele é didático. Precisa do poder público e da sociedade. A alma do Recife ganha corpo no Carnaval. Aqui você não é espectador: você é o teatro. Diferente do Rio, onde se observa o desfile. Aqui, todos fazem parte. É um exercício do que é público”, avalia Montezuma.

A organização desses grupos populares muitas vezes ultrapassa mesmo os dias da folia e as temáticas festivas. Como sociedade organizada que vivencia o espaço urbano e en tende o valor da identidade e cultura local, não é incomum que as agremiações e blocos assumam outras missões ao longo do ano.

Caboclinho de lança. Foto: Marlon Diego

“Há um estímulo proporcionado pelo Carnaval para o surgimento de formas de vida associativa e de sociabilidades, que conformam identidades, dão sentido e significado à existência e contribuem para o autorreconhecimento dos sujeitos enquanto indivíduos, grupos ou classes sociais. Muitas das chamadas agremiações ou dos coletivos contemporâneos sentem-se motivadas para vivenciar a folia mas, também, estabelecem pautas que extrapolam o período dedicado ao reinado do riso, da brincadeira e da galhofa. Defendem, por exemplo, uma concepção de cidade social, espacial e culturalmente inclusiva”, destacou Rita de Cássia.

A pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco afirma que essas associações carnavalescas se posicionam contra processos de gentrificação de áreas históricas e contra a especulação imobiliária desregulada, ao mesmo tempo em que defendem a liberdade de expressão cultural, artística e política e a livre ocupação dos espaços públicos. Um exemplo é a Troça Empatando Tua Vista, com uma crítica explícita à verticalização da cidade, que nasceu em meio aos protestos do movimento Ocupe Estelita. Segundo ela, esses grupos também atuam em defesa do meio ambiente, com iniciativas como a coleta de resíduos gerados nas festas em parceria com cooperativas de catadores. Práticas que têm potencial para ultrapassar o período carnavalesco.

Frevo no Marco Zero. Foto: Wagner Ramos

A grande lição do Carnaval é que uma cidade só floresce quando investe em espaços públicos de qualidade, respeita sua cultura e o seu povo. É isso que permite que, para além dos dias de folia, o Recife continue pulsando como um grande palco aberto, onde a infraestrutura e o cuidado com o meio ambiente sustentam o desfile cotidiano da vida urbana, mais bonito, acessível e democrático, mesmo depois que os confetes são varridos e o frevo desacelera.

*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)

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