Manifesto Regionalista De 1926: “A Autenticidade Brasileira Foi Buscada No Passado Rural Do Nordeste” - Revista Algomais - A Revista De Pernambuco
Manifesto Regionalista de 1926: “A autenticidade brasileira foi buscada no passado rural do Nordeste”

O Manifesto Regionalista, fruto do Congresso Regionalista do Nordeste que aconteceu em 1926, marcou profundamente a maneira como o Nordeste passou a ser interpretado no imaginário cultural brasileiro. Ao exaltar o passado colonial e rural da região como fonte da verdadeira identidade nacional, o documento propôs uma leitura crítica do modernismo do Sudeste e defendeu valores associados à tradição açucareira, à arquitetura, à culinária e às formas de vida herdadas do período colonial. Para o professor e pesquisador Johnnys Alencar, da Universidade de Pernambuco (UPE), no Campus Petrolina, essa proposta não foi neutra. Segundo ele, o movimento construiu uma visão saudosista que silenciou conflitos históricos, como a escravidão, e contribuiu para fixar a imagem do Nordeste como espaço da tradição — muitas vezes associada à ideia de atraso. Nesta entrevista à Revista Algomais, o docente analisa as críticas ao Manifesto em seu tempo e explica por que seus dilemas sobre identidade, autenticidade e globalização continuam atuais.

O que o senhor considera como mensagem central do Manifesto Regionalista de 1926?

Para destacar uma ideia central do Manifesto Regionalista eu tenho como ponto de partida a noção presente no documento de que a verdadeira e mais autêntica identidade nacional não está nas novidades modernas, mas sim no passado rural e colonial do Nordeste açucareiro.

Gilberto Freyre colocou dois mundos em conflito. De um lado, o Nordeste tradicional e os seus engenhos, sua arquitetura adaptada ao calor, sua culinária e suas ruas estreitas. Do outro lado, estaria o modernismo do Sudeste, sobretudo São Paulo e Rio de Janeiro, visto como uma importação estrangeira que despreza as raízes.

É crucial entender, portanto, que esse elogio ao Nordeste como a região onde reside a autêntica identidade brasileira não era neutro, pois, o Manifesto faz uma leitura conservadora e saudosista do passado que eleva a cultura dos senhores de engenho como modelo, mas que silencia os conflitos e a violência daquele sistema, como a escravidão. Na verdade, defender essa tradição colonial era uma reação de intelectuais em torno desse movimento que viam o poder econômico e político do Nordeste patriarcal entrar em decadência diante da ascensão do Sudeste industrial. E essa visão tem uma influência profunda e duradoura na forma como lemos o Nordeste até hoje.

Como ele influencia a nossa leitura atual do Nordeste?

O manifesto ajudou a cristalizar a imagem do Nordeste como o lugar da tradição por excelência no Brasil. É a região vista como a mais autêntica, a que guarda a verdadeira cultura nacional. Isso gerou um repertório de símbolos poderosos (a comida, a música, a religiosidade) que são usados tanto como forma para evocar orgulho quanto de forma estereotipada para atacar a região. Assim, essa associação forte entre Nordeste e tradição colonial acabou por vincular a região, num imaginário nacional, a uma ideia de atraso. Se a autenticidade está toda no passado rural, o Nordeste passa a ser visto, muitas vezes, como um espaço parado no tempo, resistente à modernidade, em contraste com um Sul dinâmico e moderno.

Quais as críticas que esse movimento enfrentou em sua época?

O Movimento foi criticado em várias frentes. Talvez a crítica que mais se sobressaia diga respeito a como este foi visto como um projeto conservador e saudosista. No período, muitos entenderam que o manifesto não era só sobre cultura, mas sim uma tentativa de resgatar o poder e o prestígio de uma elite nordestina que estava perdendo espaço para a economia industrial do Sudeste.

Os críticos ao Movimento também estruturaram suas críticas em uma contradição no argumento central dos regionalistas. Estes destacavam que o principal argumento do movimento, ao atacar o modernismo paulista, se dava pela acusação de este ser uma cópia de modas estrangeiras, no entanto, identificavam que a tradição defendida pelo movimento, a exemplo das casas-grandes, da religião e da organização social, também vinha de fora, era herança direta da colonização portuguesa. Então, inspirados nesses críticos até podemos pensar qual era de fato a autenticidade defendida?

Por fim, havia críticas ao seu projeto político disfarçado. Pois, apesar de dizer que era um grupo “apolítico”, o Manifesto propunha alterações na forma organização do país, trocando os estados por regiões culturais. Para muitos, isso soava como um desejo de voltar a um passado político e social que já não existia mais, ignorando as transformações que estavam em curso no Brasil. Por isso, o movimento foi acusado de ser uma reação contra o progresso e as novas realidades urbanas.

Que discussões propostas por esse movimento permanecem contemporâneas?

Essa é uma pergunta muito necessária, pois, por mais que o Movimento tivesse uma postura conservadora e um projeto específico, nos colocou em contato com uma discussão que é bastante atual ainda hoje, o dilema entre autenticidade e globalização, pois ainda hoje nos perguntamos: Como se conectar com o mundo sem perder a própria identidade?

Embora não tenhamos uma resposta consensual para essa pergunta elaboramos posturas e formas de ver essa relação quando discutimos a homogeneização cultural global tensionada pelas relações capitalistas e a luta pela valorização das produções locais, das línguas, dos saberes tradicionais.

Outra provocação evocada pelo Movimento que ainda permanece contemporânea diz respeito a tentativa de elaborar uma compreensão que seja capaz de nos responder o que une um país como o Brasil já que neste território reside tanta diversidade? O Movimento e o Manifesto também não encerram essa questão, e mesmo com seu foco no Nordeste, nos coloca para pensar ainda hoje, como podemos compreender o Brasil a partir de suas diversidades regionais.

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