Manuel Bandeira: 140 anos do poeta que transformou Pernambuco em poesia

*Por Yuri Euzébio

Assim como A Odisséia – que acaba de estrear mais uma versão nos cinemas –  poucas obras conseguem romper a barreira das páginas dos livros e se tornar parte do imaginário popular. Raríssimos, então, são os poetas que conseguiram tornar sua obra senso comum como aconteceu com um certo refúgio perfeito para escapar da realidade, onde se é amigo do rei e todos os seus desejos são realizados. Afinal, qual pernambucano nunca ouviu falar sobre Pasárgada? Em 2026 é celebrado os 140 anos de Manuel Bandeira, autor do poema, cuja obra permanece viva e atual nas ruas, poesias, livros e conversas da sua terra.

Apesar de iniciar a carreira literária com poemas que têm traços da poesia parnasiana e simbolista, Manuel Bandeira fez parte da primeira geração modernista do Brasil com uma obra recheada de lirismo poético. O poeta foi adepto do verso livre, da língua coloquial, da irreverência e da liberdade criadora com humor e ritmo. Apesar de ter morado no Rio de Janeiro e em São Paulo, foi no Recife que o escritor fincou suas raízes literárias e eternizou a cartografia da cidade, a partir de poemas que versam sobre as ruas da capital pernambucana. 

Rua.Da .Uniao

Por exemplo, Evocação do Recife notabilizou a Rua da União, no centro da cidade, onde o poeta viveu dos 6 aos 10 anos. A via ficou imortalizada na literatura brasileira pelos versos nostálgicos em que relembra sua infância, os vendedores de rua, as brincadeiras e o casarão de seu avô que, anos depois, foi transformado no Espaço Pasárgada.

Por sinal, inspirado pelo poema, em abril deste ano, os 140 anos de nascimento do poeta foram celebrados junto com os 40 anos do Espaço, em uma programação que uniu literatura, memória e urbanidade. Com o tema Caminhar pela cidade como quem lê um poema, a Semana Manuel Bandeira ocorreu de 16 a 26 de abril.  

“A inspiração para o tema da Semana foi o poema Evocação do Recife. Quando Bandeira fala da infância, referências dele são essas tão presentes: a da União, a da Saudade. Estamos no bairro da Boa Vista, importante para a cidade e onde estão bibliotecas significativas. A poesia dele convida a um outro olhar sobre a cidade e o trivial, a Semana quis pautar isso para o público. A ideia é ativar o território como espaço cultural a partir da obra do poeta”, contou Juliana Albuquerque, da administração do Espaço Pasárgada.

Na Rua da Aurora, sentado à beira do Rio Capibaribe, uma estátua de Manuel Bandeira faz parte do Circuito da Poesia da cidade. A escultura eterniza sua ligação com a paisagem e o Rio Capibaribe que marcaram a sua obra, nas proximidades da sua amada Rua da União. 

Diagnosticado com tuberculose aos 18 anos, Manuel Bandeira conviveu com a doença e a iminência da morte por décadas, daí vem uma certa melancolia que permeia toda a sua obra. Essa vivência moldou sua sensibilidade poética, resultando na célebre obra Pneumotórax (1930), em que traduziu a tragédia, a escassez de tratamentos e o desengano médico por meio de ironia e linguagem coloquial.

Na obra, Bandeira ironiza a doença, que na época ainda não tinha cura: A única coisa a fazer é tocar um tango argentino / A vida inteira que podia ter sido e que não foi  versos que sintetizam a dor e a fragilidade do poeta naquele período, bem como demonstram o tom irônico e o senso de humor único que tão bem o caracterizam.

Bandeira é um poeta canônico da literatura brasileira. Não gostava de tratar de apenas um assunto ou história em seus versos. Lírico de alma e modernista na prática, Bandeira versou sobre suas dores, seus amores, seus medos e receios. Talvez esteja aí a explicação para permanecer tão vivo na nossa memória. Segundo o professor  do Departamento de Artes da Universidade Federal de Pernambuco, Carlos Newton Jr., o que mantém a obra do poeta viva é a qualidade de tudo o que ele fez.

“Todo e qualquer poeta só se manterá vivo enquanto for lido. E só será lido, após o seu desaparecimento, se a sua obra tiver substância de futuro, ou seja, se ela tiver algo a dizer às novas gerações. Se não, as reedições dos seus livros ficarão cada vez mais raras, até desaparecerem do mercado. E o poeta será, no máximo, uma referência histórica. A obra de Bandeira, a meu ver, é supratemporal. Acredito que ela permanecerá viva enquanto houver vida inteligente no Brasil e no mundo”, arrematou.

Foto Carlos Newton Junior Foto Leopoldo Conrado Nunes
“Todo poeta só será lido, após o seu desaparecimento, se sua obra tiver algo a dizer às novas gerações. A obra de Bandeira é supratemporal, ela permanecerá viva enquanto houver vida inteligente no Brasil e no mundo”. Newton Carlos Jr. (Foto: Leopoldo Conrado Nunes)

Causou espanto quando, em 1922, o escritor Ronald de Carvalho declamou seu poema Os Sapos no segundo dia da Semana de Arte de 1922 no Theatro Municipal de São Paulo. Em meio a muitas vaias do público, foi ali que o poema entrou para o hall da literatura brasileira. Em Os Sapos, por meio da paródia, Bandeira critica a preocupação excessiva dos parnasianos com o aspecto formal da linguagem. Segundo o poeta esse estilo de poesia deveria ser ultrapassado. A criação de Bandeira foi essencial para os modernistas, tanto que o historiador Sérgio Buarque de Holanda chegou a definir Os Sapos como o hino nacional do Modernismo.

Para o escritor Marcelino Freire, o segredo da força da obra do poeta está na singeleza dos versos. “A simplicidade, a poesia ou é simples ou é impossível. Bandeira traduziu a saudade. Ele, por exemplo, falando da festa de São João nos devolve à infância. Bandeira é o poeta da infância, o poeta da ternura.” De acordo com o escritor, a perenidade da obra de Manuel Bandeira está atrelada à capacidade de seu lirismo comover os leitores. “Uma poesia nunca está no mesmo lugar em que a deixamos. Leio sempre Bandeira e ela permanece. Eis a força do seu lirismo. Falará sempre a um coração sensível”.

Foto Marcelino Freire
Marcelino Freire ressalta a força da singeleza dos versos do poeta. “A poesia ou é simples ou é impossível. Bandeira traduziu a saudade. Falando da festa de São João [ele] nos devolve à infância. Bandeira é o poeta da infância, o poeta da ternura.”

No limiar entre refúgio e reinvenção, o poema Vou-me Embora Pra Pasárgada se tornou o norte sobre o que é idílico e ideal, simbolizando o refúgio perfeito contra as angústias da vida real. Considerado um dos maiores expoentes da poesia brasileira e uma figura-chave do modernismo no Brasil, Bandeira se notabilizou pelo estilo simples e direto de escrever. Pode-se dizer que, dentro da poesia brasileira, ele foi o autor mais eclético, mais plural. Afinal, de alguma maneira, o escritor pernambucano passou do soneto ao verso livre, do haicai ao rondó, da balada ao rondel. 

Carlos Newton Jr., que além de professor, é poeta, ficcionista e ensaísta, tenta explicar o fascínio e a admiração que Pasárgada exerce e como esse poema conseguiu permanecer no imaginário popular brasileiro, transcendendo as páginas do livro. “Conseguiu por se tratar de uma utopia bandeiriana. Como toda utopia, o poema fala de esperança. É um sonho de além, de felicidade num mundo ideal, podendo esse além ser interpretado até mesmo como uma perspectiva de além-túmulo.”

Marcelino Freire tem outra interpretação. Para o escritor, o poema célebre é, nada mais, nada menos do que uma homenagem de Bandeira à sua terra natal. “Pasárgada é só um outro nome que ele deu pra Pernambuco”, inferiu.  “É uma poesia que se comunica imediatamente com quem lê. Bandeira é um poeta dos primeiros leitores e leitoras. A gente lê e logo se apaixona”, garante Freire.

Carlos lembra que seu primeiro contato com a obra do poeta se deu no ensino médio. “O seu livro Libertinagem era assunto de vestibular. Depois, já na universidade, entrei em contato com a sua prosa e sua crítica de arte. Considero o cronista tão bom quanto o poeta, e esse juízo também vale para o Bandeira crítico de arte”, disse.

Bandeira.Cabeca

Para Carlos, o que torna a obra de Bandeira atemporal e singular é o fato de ela ser palatável, ao mesmo tempo que é puramente sofisticada. “É uma falsa simplicidade. Trata-se de uma poesia erudita até a medula, e que nos soa como algo de fatura fácil, talvez pela qualidade excepcional do seu lirismo associada a um exemplar domínio técnico do verso”, explicou.

Já Marcelino conheceu o poeta ainda na infância e nunca mais o largou. “Li, em um livro de gramática de um irmão mais velho, o poema O Bicho. Eu tinha entre 9 e 10 anos de idade. A partir daí fui atrás de outras poesias dele”, relembrou. 

O escritor destaca a relação do poeta com Pernambuco e como isso foi combustível para seus versos. “Um poeta nascido no Recife que era o coração da poesia brasileira. Bandeira chega de forma generosa ao mundo da poesia. Ele confessa, dá seu testemunho. Fala da saudade de Pernambuco. É um poeta que tem a alma recifense. Colocou Pernambuco em estado de poesia”.

POEMA.OS .SAPOS

O Professor do Departamento de Artes da UFPE defende que a obra de Bandeira comove todo bom leitor de poesia, seja ele pernambucano ou não. E tanto mais comoverá, quanto mais preparado for esse leitor. O que ocorre, de regra, é que o leitor de poesia, seja em Pernambuco, seja no Brasil como um todo, é algo muito raro e isso é também uma das demonstrações do poder da obra de Bandeira. Ele conseguiu se tornar popular pela força de sua escrita.

Por toda essa força e importância da obra do poeta pernambucano, que contribuiu para inovar a literatura brasileira, muitos admiradores do autor de Vou-me Embora Pra Pasárgada reivindicam que ele deveria receber mais homenagens nessa celebração dos seus 140 anos. “Bandeira é uma ponte luminosa, feito as pontes que marcam a paisagem do Recife. Acho que deveria ser mais homenageado ainda. Qualquer homenagem é pouco. A brisa do Recife deveria ganhar o nome dele.”, sugere poeticamente Marcelino Freire.

*Yuri Euzébio é repórter da Revista Algomais (yuri@algomais.com)

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