Mário Hélio: “O Manifesto é Um Desdobramento Do Congresso, Não O Contrário” - Revista Algomais - A Revista De Pernambuco
Mário Hélio: “O Manifesto é um desdobramento do Congresso, não o contrário”

Ao revisitar o Congresso Regionalista de 1926, o escritor e jornalista Mário Hélio Gomes chama atenção para um ponto essencial: mais do que celebrar o Manifesto Regionalista, é preciso compreender o encontro de intelectuais no Recife como o verdadeiro marco fundador desse pensamento. Para ele, o texto publicado anos depois é fruto daquele ambiente de debates e proposições que buscavam enfrentar os problemas econômicos e sociais do Nordeste sem abrir mão de sua identidade cultural. Nesta entrevista, Mário Hélio reflete sobre as ideias centrais do movimento, sua crítica à cópia de modelos estrangeiros e o quanto essas provocações seguem atuais diante das desigualdades regionais e dos desafios de pensar o desenvolvimento sem homogeneizar culturas.

Quais são as ideias centrais do Manifesto Regionalista que ajudam a entender sua importância histórica?

Antes de tudo, por uma razão de rigor histórico, não há um centenário do Manifesto Regionalista, mas um centenário do Congresso Regionalista. Embora Gilberto Freyre sempre tenha informado que leu o manifesto em 1926, falta uma documentação a respeito disso. É indiscutível a palestra dele no evento, as diversas ideias que levou e o engajamento no grupo regionalista organizado no Recife, naquele tempo, e tinha como um dos líderes Odilon Nestor, de quem hoje ninguém fala mais. O manifesto regionalista é um produto editorial de 1952, publicado inclusive por uma editora chamada Região, cujo nome por si só mostra sua “filiação” a uma “genealogia”, que se prolonga ainda no movimento Armorial e no Mangue Beat. As ideias centrais do manifesto, que é um desdobramento do Congresso, não o contrário, são estas: a ação dos poderes públicos e particulares para enfrentar os problemas econômicos e sociais do Nordeste, onde se incluem a habitação, as estradas, o turismo, a valorização das belezas naturais, e nestas, por sua vez, estão reflexões sobre o meio ambiente, que implica em legislação e educação. Um ponto muito enfatizado por Gilberto Freyre, naquele tempo, e que tem um reflexo direto na sua obra, é a tradição da cozinha regional. Outro aspecto é a arquitetura e o urbanismo, com a proposição de vilas, parques, jardins. Portanto, quando o Recife de hoje começa a valorizar um pouco mais a ideia de praças e parques nada mais está a fazer que retomar uma proposta feita há um século. A defesa da identidade, da história/memória e do patrimônio (tanto o material quanto o imaterial) são também “teses” centrais.

- Há uma crítica explícita à importação acrítica de modelos europeus e do Sudeste. Por que isso era tão relevante naquele contexto? Essa discussão segue atual?

Era relevante naquele contexto de transição e de transformação, porque uma parte do modernismo – a mais criticada pelos mais intelectualmente relevantes – era a cópia ou a imitação de influências estrangeiras. Na verdade, o modernismo não se limitou a isso. O próprio regionalismo e, por assim dizer, o “redescobrimento” do Brasil (seus valores autóctones, bem como os ibéricos, africanos e asiáticos) é parte do processo de modernização do país. A ‘invenção’ ou reinvenção de tradições e identidades. Sim, continua ainda atual a discussão, porque a necessidade da afirmação de identidades não tem prazo de validade nem caduca.

Como o manifesto dialoga com as desigualdades regionais que persistem no país? A provocação desse manifesto pode ser uma chave para pensar desenvolvimento sem homogeneização cultural?

O manifesto sintetiza outras ideias e ações de Gilberto Freyre materializadas em obras como o Livro do Nordeste, que ele organizou em 1925, Assúcar, Nordeste e Aventura e Rotina, que são posteriores. Nesse último livro encontra-se sob uma forma fragmentária um verdadeiro programa para o Brasil no mundo. Algumas das coisas postas no manifesto se refletirão na criação da Sudene. Pode-se dizer até que aquele pequeno grupo de intelectuais que se reuniu no Recife em 1926 antecipou parte da problemática regional do país. Uma das obras interessantes e mais atuais são as do professor Ricardo Ismael. A prática política e econômica no Brasil, em tempos de esforços de neocolonialismo, é de colonialismo interno, muitas vezes. O fortalecimento regional continua a ser a chave para a verdadeira federação, como já o sabiam os de 1926, e antes deles, os de 1824, os da Confederação do Equador.

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