Mary Del Priore: “O Manifesto Regionalista Nos Ensinou A Pensar A Modernidade Sem Arrancá-la Do Chão” - Revista Algomais - A Revista De Pernambuco
Mary Del Priore: “O Manifesto Regionalista nos ensinou a pensar a modernidade sem arrancá-la do chão”

Quase cem anos após a publicação do Manifesto Regionalista, de Gilberto Freyre, suas ideias continuam provocando leituras, críticas e revisões. Longe de ser apenas um documento de época, o texto permanece como referência para pensar identidade, cultura e modernidade no Brasil. A historiadora Mary Del Priore respondeu ao repórter Rafael Dantas sobre o legado do regionalismo freyriano e discute de que modo o antigo embate entre tradição e modernidade ainda atravessa as artes e o pensamento cultural contemporâneo.

Quais ideias do Manifesto Regionalista continuam atuais no Brasil de hoje?

Nunca escondi minha admiração por Gilberto Freyre. Sei que isso incomoda. Entre colegas e críticos, a confissão soa quase como heresia, num campo intelectual que lamentavelmente aprendeu a lê-lo sobretudo a partir de suas omissões, silêncios e zonas de conforto. Mas talvez seja justamente por isso que Freyre continue a me interessar. Não como doutrina, muito menos como modelo intocável, e sim como sensibilidade, como forma de olhar o Brasil quando ainda não sabíamos, ou fingíamos não saber, o quanto ele era complexo, contraditório e desigual.

O Manifesto Regionalista é um bom exemplo dessa ambiguidade fecunda. Ele não nasce como texto ingênuo nem como exercício de nostalgia. Tampouco é simples reação provinciana a um modernismo centralizador. O que Freyre propõe ali é algo mais raro e mais difícil: uma modernidade com lastro, uma atenção ao chão, ao clima, à casa, aos ritmos da vida cotidiana. Um cosmopolitismo enraizado, aprendido fora do país, mas aplicado com rigor ao mundo tropical.

Nesse Manifesto, Gilberto Freyre propôs muito mais que a defesa do Nordeste: formulou um método de pensar o Brasil a partir de suas regiões reais, sociais e culturais, e não de abstrações administrativas ou modismos importados. Seu regionalismo não é separatista nem provinciano, mas profundamente nacional, ao afirmar que o país se constrói pela articulação viva de suas diferenças.

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Por que o cotidiano e a vida material são tão centrais na leitura de Freyre sobre o Brasil?

Freyre acreditava que as sociedades se revelavam menos nos grandes discursos do que nos detalhes aparentemente banais. A disposição das casas, os modos de comer, de dormir, de rezar, de cantar, os gestos repetidos no interior da família e da vizinhança dizem mais sobre uma civilização do que seus tratados políticos.

Essa convicção atravessa o Manifesto e explica por que o Nordeste ali não aparece como cenário exótico nem como resíduo arcaico, mas como laboratório histórico. Um espaço onde passado colonial, mestiçagem e adaptação ao meio produziram formas singulares de convivência.

A influência da antropologia cultural aprendida nos Estados Unidos é decisiva nesse ponto. Ao rejeitar hierarquias raciais e evolucionismos simplificadores, Freyre encontra fundamento para pensar a mestiçagem como força criadora e não como desvio. O Nordeste aparece então como espaço de mistura, de adaptação e de invenção, distante tanto do atraso quanto da pureza imaginada. O regionalismo que emerge do Manifesto é aberto, poroso, atento às trocas e às continuidades, consciente de que a cultura se constrói por sobreposições e não por exclusões.

É verdade que o texto idealiza aspectos do mundo patriarcal e atenua conflitos de raça e classe. Essas críticas são justas e necessárias. Mas talvez seja um erro ler o Manifesto apenas pelo que ele não viu. Sua força está menos nas respostas que oferece do que nas perguntas que inaugura.

Ao deslocar o olhar da nação para as regiões, Freyre abriu caminho para que o Brasil começasse a se pensar no plural. Influenciou a historiografia cultural, estimulou o regionalismo nas artes e na literatura, alimentou debates sobre patrimônio, memória e identidade e repercutiu, ainda que de modo desigual, em políticas culturais e educacionais mais sensíveis à diversidade.

homenagem a gilberto freyre

O debate entre tradição e modernidade, tão presente em 1926, ainda estrutura discussões contemporâneas?

Com o tempo, seu regionalismo deixou de ser programa para tornar-se ética do olhar. É assim que ele reaparece hoje nas artes.

No cinema nordestino contemporâneo, por exemplo, o regional não é paisagem decorativa, mas experiência vivida. As cidades e o sertão surgem como personagens, carregados de memória, de conflitos silenciosos, de heranças que insistem. A casa, o bairro, o território já não simbolizam harmonia, mas tensão, ruína, permanência incômoda. Trata-se de um regionalismo sem inocência, que não suaviza o real, mas o torna mais denso.

Na fotografia, essa herança se manifesta na recusa do cartão-postal e do folclore fácil. O Nordeste é mostrado como território vivido, marcado por trabalho, religiosidade, migração, envelhecimento. Ruínas, corpos, gestos e silêncios revelam temporalidades longas, fazendo do espaço um arquivo sensível da história.

Na literatura, o legado se torna ainda mais conflituoso. O sertão e a cidade aparecem como territórios simbólicos e psicológicos, atravessados por violência, oralidade, memória e silêncio. A tradição é retomada não como herança pacificada, mas como problema histórico. Terra, trabalho, família e ancestralidade reaparecem sob perspectivas críticas, sobretudo afro-brasileiras, que ampliam e tensionam o horizonte aberto por Freyre.

A música e o folclore talvez sejam os campos onde essa herança se mostra mais persistente e mais reinventada. Freyre nunca viu as manifestações populares como curiosidades exóticas. Ritmos, cantigas, festas e narrativas orais lhe interessavam como formas de conhecimento e de transmissão cultural.

Ao longo do tempo, o folclore deixou de ser pensado como resíduo do passado e passou a ser compreendido como repertório vivo. A música nordestina contemporânea continua a operar esse gesto. Dialoga com tradições sem fossilizá-las, transforma heranças em comentário crítico do presente e faz da memória uma ferramenta de criação e resistência.

O que mudou e o que permanece do regionalismo de Freyre ao longo do tempo?

O que mudou desde Freyre é evidente. Onde antes se afirmava a tradição, hoje ela é interrogada. Onde se buscava harmonia, emergem conflitos. A casa patriarcal aparece em ruínas. A região já não é apenas matriz da nação, mas espaço de crítica e de resistência.

Ainda assim, algo permanece. O Manifesto Regionalista venceu culturalmente, mesmo tendo perdido a inocência.

Talvez seja por isso que continuo a voltar a Freyre, apesar das críticas que isso provoca. Não por fidelidade cega, mas porque ele nos ensinou algo que ainda faz falta: a olhar o Brasil sem abstraí-lo, a pensar a modernidade sem arrancá-la do chão, a reconhecer que nossas regiões não são atraso nem ornamento, mas formas complexas de viver o tempo. Em tempos de padronização acelerada, essa lição, imperfeita e provocadora, continua valendo a pena.

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