Da Caatinga aos manguezais, a apicultura cresce, investe em diversificação de produtos e fortalece a renda no interior do Estado
*Por Rafael Dantas
Quando começou a atividade de apicultor, com apenas 10 colmeias no Sertão do Araripe, em Ouricuri, Petrônio Pereira ainda não imaginava que o trabalho com as abelhas estaria no eixo de sua vida produtiva e ambiental. Hoje, à frente da Fazenda Doce Mel e na presidência da Associação Mel do Sertão do Araripe, ele comanda uma operação que reúne cerca de 600 colmeias, produz até 16 toneladas por ano e associa apicultura, reflorestamento e identidade territorial. “A renda do apicultor vem das flores, e só existem flores se houver árvores”, afirmou, para explicar por que parte da produção é revertida ao plantio de novas mudas da Caatinga.
Petrônio não cresceu sozinho nesse segmento. A atividade do mel em Pernambuco apresentou avanço expressivo nos últimos anos. Em uma década, a produção dos apicultores locais passou de 385,6 toneladas em 2015 para 1,61 mil toneladas em 2024, conforme a Pesquisa da Pecuária Municipal, do IBGE. Embora os dados indiquem crescimento consistente, parte da produção não aparece nas estatísticas por causa da informalidade e da comercialização via outros estados.

A área de atuação do apicultor, o Araripe, é hoje o principal polo da produção de mel em Pernambuco. Embora o Sertão concentre os municípios com maiores volumes produtivos, 98 cidades em todo o Estado registraram alguma produção, segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal. Isso evidencia a ampla disseminação da atividade pelo território pernambucano. Dentro desse cenário, destacam-se especialmente os municípios de Araripina, Trindade, Exu e Bodocó.
Mesmo com a expansão do setor e sua expressiva capilaridade geográfica, Pernambuco figura apenas na 10ª posição no ranking nacional e na 5ª colocação no Nordeste. No panorama regional, a liderança é do Piauí, que superou a marca de 8,6 mil toneladas de mel. Pesquisadores avaliam que parte da produção pernambucana segue para outros estados sem identificação de origem e a preços baixos.

Além do crescimento da produção, a apicultura local vem se consolidando com maior articulação entre produtores, fortalecimento institucional e mobilização em torno do reconhecimento por indicação geográfica. A diversificação do portfólio, com novas embalagens e produtos derivados, tem ampliado o valor do mel in natura. Nesse processo, instituições como o Banco do Nordeste, o Sebrae, a Adepe, a Codevasf, o ITCBio, o Sistema OCB-PE, o Cetene e as universidades locais têm atuado de forma integrada para impulsionar a cadeia produtiva e ampliar sua competitividade.

O MEL DA CAATINGA
Nesse contexto de fortalecimento da cadeia da apicultura e da meliponicultura (quando a produção acontece com o manejo de abelhas sem ferrão) estadual, ganha destaque o mel da Caatinga. Com origem em um bioma exclusivo, esse produto se distingue por ter uma singularidade sensorial e maior valor comercial.
O mel produzido pelas abelhas na Caatinga se difere dos méis de laranja ou eucalipto, produzidos em diferentes partes do País e do mundo. Marcos Morais destaca que o néctar vem de plantas como aroeira, algaroba e cipó-uva, conferindo ao produto uma identidade geográfica específica.
“Não somos um dos maiores produtores do Brasil, mas nossa produção está principalmente na Caatinga, um bioma muito rico e melífero. É um mel único, porque vem de plantas que só existem aqui e produzem compostos químicos que conferem ao mel propriedades biológicas muito interessantes”, afirmou o professor Marcos Morais, do Departamento de Genética da UFPE.

De acordo com o docente, pesquisas acadêmicas têm confirmado que esse mel apresenta uma composição química diferenciada, com altas concentrações de compostos fenólicos e flavonoides, que contribuem para efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios mais altos que nos méis comuns. Isso amplia o potencial do produto, que passa a ser valorizado também por seus benefícios à saúde.
Outra característica do mel da região é ser produzido longe dos grandes centros urbanos e das áreas de monocultura. Isso contribui para uma menor incidência de contaminação química, como dos agrotóxicos ou de poluentes mais associados à indústria. “Esse mel ainda está longe dos centros de monocultura, soja ou milho. Então, com isso, a gente tem uma produção de mais qualidade”, afirma.
Segundo a gestora estadual de projetos do Agronegócio do Sebrae-PE, Jussara Leite, a apicultura é hoje uma das cadeias priorizadas pela instituição em Pernambuco por reunir impacto econômico, social e ambiental, sobretudo no semiárido. Ela destaca que o Estado apresenta condições naturais favoráveis à produção, como alta luminosidade, temperaturas elevadas e uma flora apícola diversificada, especialmente na Caatinga. “A gente percebe que cada região de Pernambuco tem um mel diferente, com sabor próprio, em função da florada, do solo e de outros fatores locais”, afirma. Segundo Jussara, esse potencial ainda depende de avanços na organização dos produtores, na formalização e no acesso ao mercado para se traduzir em maior valorização do produto.

RECONHECIMENTO DO MEL PERNAMBUCANO
Há um esforço em diversas frentes para reconhecer a produção de mel pernambucana, incluindo o selo de Indicação Geográfica (IG). “Isso é um reconhecimento na forma de um registro que é concedido pelo Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) a uma região geográfica que se tornou conhecida por apresentar vínculos relativos à qualidade e às características da produção”, esclareceu a gestora do projeto de Indicação Geográfica no Sebrae Pernambuco, Roberta Andrade.
Ela avalia que o reconhecimento do mel do Sertão do Araripe será estratégico principalmente por garantir proteção ao nome e à origem do produto. Segundo Roberta, hoje existe um problema recorrente de uso indevido da denominação da região por produtores de fora do território, o que fragiliza a identidade e a reputação construídas pelos apicultores locais. Além da proteção, ela destaca que a Indicação Geográfica contribui para organizar o setor e elevar o valor do produto no mercado.
O processo envolve a criação de uma associação de produtores, a definição de regras de produção, como a dirigida por Petrônio, e a comprovação da notoriedade do mel da região, fortalecendo a confiança do consumidor. Para ela, a IG não é uma conquista individual, mas coletiva. “A indicação geográfica é uma conquista da coletividade, ela pertence ao território e aos produtores ali instalados. Com ela, o consumidor está disposto a pagar mais por esses produtos de origem, porque existe um vínculo de confiança. O produto ganha mais competitividade no mercado tanto nacional como também no mercado internacional”, afirmou Roberta.

FORTALECIMENTO DA CADEIA PRODUTIVA
O ITCBio (Instituto Tecnológico das Cadeias Biossustentáveis), por exemplo, tem atuado no desenvolvimento de tecnologias capazes de comprovar cientificamente a origem do mel produzido em Pernambuco, especialmente no semiárido. A instituição, instalada no PARQUE.Tec da UFPE, criou métodos que permitem identificar tanto as espécies vegetais visitadas pelas abelhas quanto características do próprio inseto produtor. Como a flora da Caatinga é exclusiva desse bioma, essa análise funciona como uma espécie de “impressão digital” do produto, permitindo demonstrar que o mel foi realmente produzido naquele território.
Segundo a presidente do ITCBio, Cláudia Lima, essa tecnologia pode fundamentar um selo de procedência associado à Indicação Geográfica. “Nós desenvolvemos uma tecnologia que dá para saber qual foi a abelha que produziu e quais foram as plantas que essas abelhas visitaram. E as plantas da Caatinga só existem dentro desse bioma”, afirma. A proposta é criar um selo de origem biotecnológica, chamado de “DNA da Caatinga”, que funcione como instrumento técnico para proteger o mel regional contra fraudes.

Além disso, o instituto também investe em pesquisas voltadas ao controle de qualidade e à certificação do produto, buscando gerar patentes e apoiar a rastreabilidade do mel. Paralelamente, o ITCBio atua na organização da cadeia produtiva por meio do evento Biomel-PE, que reúne produtores, pesquisadores e compradores, fortalecendo a identidade do mel pernambucano. No próximo ano, a expectativa é de um encontro regional.
Outra instituição estratégica nesse contexto de fortalecimento da cadeia é o Cetene. O centro está estruturando um laboratório de análise, com apoio técnico da universidade, para realizar testes de qualidade em mel e outros produtos da apicultura. A iniciativa permitirá que os produtores tenham laudos técnicos e consigam os selos de inspeção necessários para a comercialização.
FINANCIANDO A INOVAÇÃO NA CADEIA DO MEL
Esse movimento é sustentado por uma rede de instituições públicas e privadas, como o BNB (Banco do Nordeste) e a Adepe (Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco). De acordo com dados do Prodeter (Programa de Desenvolvimento Territorial), no caso da apicultura no Sertão do Pajeú e Sertão do Araripe, foram aplicados pelo BNB, em 2025, R$ 9,6 milhões em 693 operações. As prioridades do banco para os próximos anos no segmento são o apoio para o aumento da renda e da produção, a ampliação do acesso ao crédito e o investimento em capacitação dos produtores. A estratégia inclui ainda o fortalecimento do associativismo, a certificação das casas do mel, a inserção do produto em programas sociais (Programa de Aquisição de Alimentos e Programa Nacional de Alimentação Escolar), além das ações de reflorestamento.
A Adepe também soma uma série de programas que dão suporte ao segmento. A instituição já realizou dois editais do programa PE Produz, com recursos não reembolsáveis na ordem de R$ 2,6 milhões, para projetos de estruturação de apiários, aquisição de equipamentos de beneficiamento, capacitação técnica e fortalecimento organizacional dos apicultores. Um terceiro edital injetará mais R$ 792 mil. A instituição promete realizar uma nova edição com aporte de R$ 6 milhões para apicultura e meliponicultura, com foco em práticas sustentáveis.

“As perspectivas são muito promissoras e deveremos continuar impulsionando esses programas que trazem resultados tão satisfatórios quando falamos em desenvolvimento regional. O 3º Edital do PE Produz destaca projetos como o da Associação dos Apicultores e Meliponicultores do Cabo, na Região Metropolitana do Recife, e como o Projeto Multicidades da Associação de Moreilândia, que articula os municípios de Moreilândia, Bodocó, Ouricuri e Trindade com foco em apicultura, artesanato e fruticultura”, afirmou Roberta Andrade, diretora-geral de Fomento, Inovação e Arranjos Produtivos da Adepe e presidente interina. Além de aportes no incentivo à exportação (R$ 292,6 mil, pelo Exporta PE) e no programa, com parceria do Sebrae, ela anuncia mais R$ 350 mil para desenvolver a apicultura nos Sertões Central e do Araripe.
ORGANIZAÇÃO COOPERATIVA E O MEL DOS MANGUEZAIS

Não é só o Sertão que oferece mel de qualidade e boas histórias de cooperação e superação de obstáculos para contar. Na Zona da Mata Sul, em Barreiros, a produção de mel tornou-se uma das frentes mais promissoras da Cooates (Cooperativa de Trabalho Agrícola e Assistência Técnica e Serviços). Segundo José Cláudio da Silva, presidente da organização, a atividade vem crescendo de forma consistente nos últimos anos. “A nossa produção, a cada safra, tem um crescimento significativo. Hoje temos 200 colmeias instaladas, mas a meta é chegar a 2 mil”.
Atualmente, a cooperativa trabalha com méis da Mata Atlântica e do manguezal, que é o seu principal diferencial. Segundo o presidente da Cooates, esse mel se destaca por ser obtido a partir de uma florada específica, das flores da copiúba, o que lhe confere identidade própria, com variações singulares de cor, aroma, textura e sabor. O produto é processado separadamente, submetido a análises laboratoriais e não passa por mistura nem por aquecimento excessivo, preservando suas características naturais. Com isso, chega ao mercado como um mel de maior valor agregado, associado tanto à qualidade quanto à conservação dos ecossistemas de manguezal.
A produção da cooperativa abastece supermercados, hotéis e resorts em municípios como Maragogi, Porto de Galinhas e Gravatá. As atividades da Cooates mantêm de forma direta cerca de 50 trabalhadores na cidade, entre cooperados e colaboradores.

SUSTENTABILIDADE NO DNA
A atividade da produção de mel tem ainda um papel estratégico na sustentabilidade ambiental. Diferente de tantas cadeias produtivas, que dependem da supressão da vegetação, a apicultura e a meliponicultura prosperam justamente com a conservação da flora. Quanto mais preservado e biodiverso o ambiente, mais robusta a população de abelhas e mais elevada a produtividade das colmeias.
A atuação da Cooates, por exemplo, vai além da produção. A cooperativa mantém um viveiro florestal e desenvolve ações permanentes de reflorestamento e resgate de abelhas, associando produção e conservação ambiental. “A gente não só cria abelha. A gente planta, a gente controla o meio ambiente e faz o resgate”, explica José Cláudio. Ele lembra que a atividade das abelhas é essencial para o equilíbrio dos ecossistemas. “Sem as abelhas, a gente não existiria”.
O presidente da cooperativa demonstra otimismo quanto à valorização da atividade, impulsionada pela tendência global de fortalecimento da sustentabilidade ambiental e da economia regenerativa. “Toda e qualquer empresa que não se estabelecer dentro de uma plataforma sustentável corre o risco de não sobreviver a longo prazo”.

Na Fazenda Doce Mel e na organização dos apicultores do Sertão do Araripe, 20% do valor obtido com a venda do mel é destinado ao reflorestamento. A iniciativa já resultou no plantio de mais de 15 mil mudas e na recuperação de cerca de 33 hectares. A estratégia é desenvolvida em parceria com o Cepan (Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste) e tem como objetivo recuperar áreas degradadas e fortalecer a vegetação nativa da Caatinga.
Para Petrônio Pereira, a apicultura só é viável quando caminha junto com a conservação ambiental. Segundo ele, os produtores do Sertão do Araripe já sabem que preservar o território é também preservar a identidade e o sabor característico do mel da região.
APROFUNDAMENTO DA CADEIA PRODUTIVA
Para além da produção do mel in natura, a cadeia vem se diversificando e incorporando novas atividades que ampliam o valor econômico e social da apicultura. A partir do fortalecimento da organização dos produtores, surgem iniciativas voltadas à industrialização, ao desenvolvimento de derivados e à criação de experiências ligadas ao território, como produtos cosméticos, alimentos especiais e ações de turismo rural.
Para o futuro, a Cooates, por exemplo, aposta na bioeconomia e na diversificação de produtos, com a implantação de uma unidade voltada à produção de biocosméticos, fitoterápicos e bioinsumos, em parceria com o Laboratório de Farmácia da Universidade Federal de Pernambuco, com investimentos que podem chegar a R$ 5 milhões. O presidente da cooperativa explica que o objetivo é gerar renda e manter a população no território. “A gente está transformando a nossa realidade e a realidade dos que virão depois de mim”.
Na Fazenda Doce Mel, além da produção de mel in natura, a fazenda já trabalha com extrato de própolis, pão de mel e velas aromáticas feitas com cera de abelha, aproveitando melhor os subprodutos da colmeia. Nos planos futuros, Petrônio projeta a consolidação do turismo rural e educativo, com visitas de estudantes e grupos à fazenda para conhecer o processo produtivo e as áreas de reflorestamento.
Além dessas iniciativas, que já devem estar em operação no curto ou médio prazo, há outras propostas e experiências no Estado. Em Vitória de Santo Antão, por exemplo, acontece a produção do hidromel, uma bebida fermentada e alcoólica, considerada uma das mais antigas do mundo. No Estado, ela é fabricada pela Favus Hidromel, oferecendo no seu portfólio também hidrodrinks.

De acordo com o pesquisador Marcos Morais, que também é coordenador do projeto Inovamel, da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação de Pernambuco, o mel pode ganhar ainda novos usos ao ser transformado em produtos de maior valor agregado, como na produção de destilados e de bebidas probióticas à base de mel. Está também no radar de possibilidades o desenvolvimento de uma indústria de cosméticos, com sabonetes, cremes e shampoos feitos a partir do mel, da cera e do própolis.
A inclusão do produto na alta gastronomia é outro horizonte a ser percorrido. Neste ano, por exemplo, aconteceu o 1º Festival Gastronômico do Mel de Pernambuco, no Recife. O evento destacou pratos especiais e sobremesas com mel, além de drinks e exposição de produtos do Araripe.

Seja no Sertão, no Agreste ou na Zona da Mata, o mel de Pernambuco tem caminhos para crescer e agregar valor. Um segmento que expande os investimentos, mas com forte impacto na geração de renda local e na sustentabilidade. Uma atividade doce e que, associada à inovação, cooperativismo e tecnologia, ganha ainda um sabor de desenvolvimento.
*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)


