Na trilha da Geografia da Fome

“Ô Josué, eu nunca vi tamanha desgraça.
Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça”.

Alguns podem até não saber, mas o Josué a quem Chico Science evocava seu lamento na letra de Da Lama ao Caos é Josué de Castro, médico e intelectual pernambucano do Século 20. Foi Josué de Castro quem primeiro conceituou, dentro dos parâmetros científicos, o problema da fome no Brasil. Ganhou destaque nos cenários brasileiro e internacional com suas obras sobre a nutrição e a realidade nacional, como Geografia da fome, Geopolítica da fome, Sete palmos de terra e um caixão, Homens e caranguejos, este último grande influência para Chico Science e todo o movimento manguebeat. Tornou-se, em 1963, embaixador brasileiro na ONU (Organização das Nações Unidas) em Genebra. Porém um ano depois, com o golpe militar de 1964, foi destituído do cargo, exilado e teve todos os seus direitos políticos cassados pelo governo. Faleceu em Paris, ainda no exílio em 1973.

Com o passar dos anos, intelectuais brasileiros tomaram conhecimento do valor da obra do médico, até que em 1979 é fundado, no Recife, o Centro de Estudos e Pesquisas Josué de Castro. Trata-se de uma organização não governamental com o objetivo de contribuir para o fortalecimento da democracia e da cidadania no Brasil. Este mês, a ONG comemora 40 anos de fundação e preparou uma programação para comemorar a data. “O centro é resultado da transição democrática vivida no País naquele período. Surge por sugestão de alguns pesquisadores exilados em comunhão com outros que estavam aqui, para ampliar uma discussão do que estava havendo naquele momento”, esclarece José Arlindo Soares, diretor científico do instituto.

O foco dos seus idealizadores eram os rumos da democracia e as perspectivas sociais de melhoria da qualidade de vida dos brasileiros a partir do fortalecimento democrático do Brasil. O nome do centro foi uma maneira de homenagear o legado e as ideias do médico recifense. “Ele expressava dois componentes fundamentais: era uma pessoa que tinha uma dimensão internacional, mas em Pernambuco não havia nada que lembrasse a história dele. Por isso, tínhamos a intenção de resgatar a sua memória”, justifica Soares, que foi secretário de Planejamento e Desenvolvimento Social do governo Jarbas.

Ao longo da sua trajetória, o centro produziu pesquisas sobre o significado da obra de Josué de Castro para o Nordeste e para o mundo, e o porquê dela ter se tornado universal e permanecer muito pouco presente no Brasil. Aliado a isso, fomentou uma discussão de propostas da sociedade para a redemocratização do País. “Participamos, intensamente, na época das propostas para a Constituição de 1988. Tínhamos uma bancada discutindo qual seria a filosofia para uma nova constituinte do Brasil”, elucida José Arlindo.

O Centro Josué de Castro também foi reconhecido por elaborar projetos de intervenção na realidade social, denunciando abusos e promovendo modelos de inovação em políticas públicas. “Na época não se discutia o trabalho infantil. Nós fizemos o projeto Trabalho Invisível, que investigou a exploração de crianças na Zona da Mata de Pernambuco”, recorda Nancy Lourenço Soares, coordenadora e conselheira fiscal do espaço. “Por meio de uma amostragem, feita nas principais cidades da Mata Norte e da Mata Sul, identificamos uma estatística que assombrou todo o mundo: quase 24% dos trabalhadores que atuavam no corte da cana-de-açúcar eram crianças ou adolescentes”, afirma o diretor do Centro.

“A partir dessa pesquisa, a OIT (Organização Internacional do Trabalho) chamou o Brasil para discutir essa questão e, como resultado, surgiu o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, o PETI, que distribuía uma bolsa a cada estudante cadastrado no projeto e dava um percentual de apoio à prefeitura para colocar as crianças na escola”, destaca a coordenadora do centro. O sucesso do programa foi tão grande que ele serviu de base para a criação do Bolsa Escola, implementado no governo Fernando Henrique Cardoso. “Foi uma cronologia, primeiro teve o PETI, depois Bolsa Escola e, por fim, o Bolsa Família. Foi uma evolução”, relaciona o sociólogo.

Outro projeto de destaque foi o Novo Sindicalismo, cujo principal objetivo era sugerir mudanças em relação à velha estrutura sindical. “Participamos da reorganização dos sindicatos, tínhamos um grupo sindical que apoiava a oposição”, rememora Nancy. “Realizamos a pesquisa, simultaneamente, em cinco Estados: Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Pernambuco”, destaca José Arlindo. Segundo o sociólogo, no período da pesquisa, meados dos anos 80, vivia-se a tensão da produção pelo governo de um código de trabalho que iria substituir a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). “Essa pesquisa teve como assessores figuras notáveis do sindicalismo nacional, como Lula, Olívio Dutra, Jair Meneguelli e João Valadares. Desse trabalho, resultou um livro Sindicato em uma época de crise.

O espaço também resgatou o acervo de Josué de Castro do Rio de Janeiro para Pernambuco. “São, mais ou menos, 12 mil documentos, entre cartas, livros, filmes, publicações, anotações”, destaca Nancy. Durante 20 anos, toda a documentação do cientista se manteve sob resguardo do espaço, mas devido à falta de financiamento e recursos suficientes, decidiu-se por passar os documentos para a Fundação Joaquim Nabuco. Hoje esse acervo já está sendo digitalizado e parte dele está disponível para consulta no site da Fundaj.

COMEMORAÇÃO
Neste mês, o centro prepara uma série de atividades em comemoração aos 40 anos de fundação. “Vamos fazer uma pequena mostra de filmes de estudantes, porque Josué de Castro também fazia filmes, gostava muito de cinema. Vamos selecionar produções nas universidades, obras que tratem sobre a alimentação sustentável e o meio ambiente”, relata a coordenadora.
O centro realiza ainda um trabalho permanente de exposição da obra de Josué de Castro com escolas da rede municipal do Recife. “São 19 painéis expostos, nós trabalhamos com as professoras de geografia e história. Os alunos visitam a mostra e em seguida elaboram um trabalho sobre o tema. Este ano vamos atuar em 20 colégios”, planeja José Arlindo.

*Por Yuri Euzébio

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