Nada de fórmulas, autoria é tudo – Revista Algomais – a revista de Pernambuco

Nada de fórmulas, autoria é tudo

*Por Cláudia Zoraya
Questões concernentes à produção textual exigida pelo ENEM têm motivado reflexões e debates pedagógicos, sobretudo nos espaços educacionais que realizam um trabalho voltado ao desenvolvimento de competentes produtores de textos. O consenso é de que já não é mais possível desconsiderar propostas que ressignifiquem o ato de escrever, haja vista que em meio a tantos avanços tecnológicos, convive-se paralelamente com um grande número de pessoas que pouco têm se apropriado da arte de escrever.

É incontestável que só se aprende a escrever, escrevendo. A hipótese de que existe uma fórmula a seguir, a qual garantirá a feitura de um bom texto, é um ledo engano; e por que não dizer uma estratégia, muitas vezes, mercadológica que se apropria da fragilidade linguística dos usuários. É, então, cada vez mais imperativo compreender os mecanismos que envolvem a estruturação de um texto, no caso, dissertativo-argumentativo, a fim de atender aos critérios avaliativos.

escreverA necessidade de mudança de postura do discente, no que diz respeito à construção de seu texto escrito para o ENEM, tem sido foco de muitas discussões. Para fomentá-las, deve-se considerar que, no contexto atual, a produção de texto está a serviço de um processo seletivo, cujo objetivo é decidir a aprovação ou reprovação no exame, ou melhor, a porta de entrada para uma universidade pública. Ademais, o preconceito em relação à prática da escrita é evidenciado por meio de uma série de afirmações que já fazem parte da imagem negativa que o aluno tem de si, enquanto escritor. Eis algumas afirmações falaciosas: “Sou péssimo em redação!”; “Eu sei falar, mas não consigo escrever”.; “Redigir é difícil!”; ”Não sou criativo”.; “Mas eu estou sem ideias!”… Tais afirmações têm dado sustentação à ideia de que a competência para a escrita é resultado do repasse de um saber pronto. Para ilustrar, vale a pena citar Costa(2001):

Se você é o tipo que coça a cabeça, olha para os lados, sente vazio na boca do estômago quando tem que fazer uma redação ou um relatório, pense que suas chances de se dar bem podem ser um pouco menores. Mas não se acanhe. Hércules sentiu uma coisa parecida quando cumpria cada um dos seus doze trabalhos e Teseu teve a mesma sensação quando buscava uma saída do labirinto, com o Minotauro fungando no cangote. Isso se justifica. Quando escreve, você está simplesmente recriando o momento crucial da civilização, você está ousando repetir o ato mais revolucionário já produzido pela humanidade: a linguagem escrita.

Exageros à parte, essa é a realidade de muitos alunos perante a atividade de produção textual. O que deveria ser um ato espontâneo, prazeroso e rotineiro, acaba por tornar-se um fardo que gera estresse e tensão; além de levá-los a ceder às falsas promessas de produção de um texto nota 1000. Não obstante, em diversas versões do ENEM, a fórmula utilizada garanta a tão almejada nota.

É imprescindível lembrar que um texto sempre se refere a um determinado contexto, no caso do ENEM, a um problema no âmbito social que deve ser refletido e, sobretudo, objeto de intervenção. Para tanto, o agente textual necessita considerar que o texto é uma sequência lógica de ideias, e todos os seus elementos devem refletir mutuamente, identificando uma totalidade (coesão). No texto, deve ser percebido que o significado das frases não é autônomo e elas só têm sentido na relação que mantêm entre si (coerência), com o conjunto do texto e com o contexto em que se encontram inseridas.

Então, o ensino de produção textual para o ENEM deve estar relacionado ao ponto de vista filosófico, e não ao ponto de vista tecnicista, minimalista, pois, escrever implica uma reflexão crítica, supõe exercício permanente. Em suma, é primordial que o aluno reflita sobre o seu ponto de vista, se existem conhecimentos suficientes para sustentar a argumentação ou se está simplesmente repetindo ideias prontas, formuladas. Por tudo isso, o aluno deve protagonizar sua escrita e considerar a possibilidade de imortalizar-se mediante as palavras.

Por todas essas razões, o trabalho com a produção de texto deve priorizar a formação de produtores autônomos, criativos e autorais, ou seja, competentes. Metaforicamente, o trabalho com o texto deve ter o mesmo caráter, o mesmo valor que tem o trabalho de um cientista, quando esse está para fazer uma nova descoberta; pois ele observa, faz diversas tentativas, experimenta, disseca todas as partes que envolvem o seu objeto de estudo e, ao término de sua análise, ao expor os resultados, sente uma estranha satisfação de cumprimento do dever.

Noam Chomsky

 

 

A palavra é um instante do pensamento e da auto-expressão. É através dela que damos sentido funcional ao ensino de redação, cuja finalidade básica é a comunicação.
(Noam Chomsky)

Consoante às afirmações de Chomsky, deve ser preocupação precípua de o docente contribuir para que os alunos utilizem o recurso da expressividade que, uma vez incorporada ao texto, aumentará sensivelmente sua capacidade de elaborar textos interessantes e sugestivos, que fujam ao lugar comum, que, enfim, permitam-lhes expressar a sua individualidade e não um arcabouço de fórmulas.

*Cláudia Zoraya é professora de Língua Portuguesa do Colégio Fazer Crescer


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